O canto raro de Mônica Salmaso

Publicação: 2009-12-08 00:00:00
Michelle Ferret - Repórter

À noite, os tambores e o canto dos pássaros habitam o imaginário de Mônica Salmaso. Suas escolhas pelas canções brasileiras fluem de uma maneira particular, quando giram em seu disco interno composições de Chico Buarque, Dorival Caymmi, um pouco de Tom Zé – e sua menina amanhecida com a felicidade desabando sobre os homens – e  pitadas generosas de música erudita como as de Villa-Lobos.

Mônica Salmaso se apresenta acompanhada do saxofonista Teco Cardoso (seu marido, na foto abaixo) e do pianista Nelson AiresCada mar de Caymmi cantado por ela refaz o contorno atlântico diferente. Sua peculiaridade está no timbre, raro, que não se identifica em lugar nenhum do mundo. Talvez por isso, o crítico de música do jornal New York Times, Jon Pareles escreveu em fevereiro de 2002 que Mônica é um dos principais nomes surgidos na música popular brasileira. Crítica que ela recebeu com surpresa e com cuidado. “Desde 2000 eu comecei a ir para os Estados Unidos e divulgar meu trabalho percebi de perto que o Brasil tem uma aceitação muito bonita fora daqui. É uma vontade de receber o que vem do Brasil. A carreira que faço lá é muito parecida com a que é feita dentro do Brasil. É gradual e depende do fato de eu estar lá e fazer o negócio andar. É um processo muito lento mas que cria raízes muito profundas. Quando acontece uma crítica dessa maneira é gostoso de ouvir e sinto como uma força para continuar”, contou Salmaso ao VIVER por telefone de sua residência em São Paulo. Mônica estará peloa primeira vez em Natal, a convite do projeto Nação Potiguar que completa oito anos de atividades hoje — somando lançamento de discos, shows e exposições idealizado por Candinha Bezerra e Dácio Galvão. A noite contará com abertura de Diogo Guanabara e Macaxeira Jazz. A entrada é franca e os ingressos devem ser retirados na Pax Turismo do CCAB Petrópolis (Av Afonso Pena).

Salmaso, Teco Cardoso e Nelson Aires sobem ao palco hoje

Para a noite, Mônica preparou um repertório especial ao lado dos seus companheiros de trabalho já citados Nelson Aires e Teco Cardoso (seu marido). “É a primeira vez que vou a Natal e estou feliz por isso. Faz tanto tempo que desejo isso. E a gente faz o show Nelson Aires no piano, Teco Cardoso e eu. Viajamos com o disco “Noites de Gala” e quando percebemos estávamos com essa formação sólida de um trio.  Primeiro pensamos em fazer a redução do repertório do Noites de Gala, mas depois apareceram outras possibilidades.  O repertório abriu tanto que estão no trabalho hoje só três canções de Chico como “Construção” e “Ciranda da Bailarina”, contou.

Entre as músicas não “buarquianas” estão, “Melodia Sentimental” do Vila Lobos, “Samba Erudito” e “Cuitelinho” de Paulo Vanzolini, “Lábios que Beijei” de Orlando Silva, além  de duas canções de Nelson Aires. “Nosso repertório é muito aberto e tem a ver com a natureza do nosso encontro. Como tocamos junto por muito tempo, a gente consegue sentir a energia e o mundo do outro. O piano do Nelson com toda a formação dele e com as estruturas que ele traz se mistura com a liberdade que o Teco tem e ainda costuramos tudo isso com minhas escolhas musicais”.

Desde criança, quando ainda nem imaginava ser cantora, Mônica sentia na vibração da voz de Chico uma paz misturada a uma inquietação que não conseguia descrever. Nascia ali seu primeiro ídolo para toda a vida. Foi ele quem lhe emprestou as asas para voar pela música mundo afora, dando-lhe coragem para seguir viagem.

Além de Chico, Mônica se inspira em compositores diversos da música. “Eu ouvia muita música. Não tinha nenhum músico na família. Minha mãe tocava violão, amigos eu ouvia discos de adulto. Ouvia de tudo, Milton Nascimento,  Elis Regina, Dorival Caymmi, várias coisas do Chico, até Beatles, Roberto Carlos e eu sentia necessidade de ouvir tudo”.

Salmaso começou na música de uma maneira inusitada. Mesmo com todas essas informações em sua bagagem interior, ela havia feito a opção de estudar jornalismo, foi quando o cursinho cansou seus dias e sentiu a necessidade de respirar melhor fora daquela “pressão”. “Foi quando encontrei minha professora que abriu mundos. Ali descobri que queria trabalhar com música e não tinha mais outra opção, desisti completamente do jornalismo”.

Em mais de 15 anos de estrada, Mônica leva em sua bagagem seis discos gravados e diversas participações especiais em trabalhos importantes da música brasileira, como o disco “Carioca” de Chico Buarque, quando cantou “Imagina” composição de Chico em parceria com Tom Jobim. “Foi um dos momentos mais felizes da minha vida”, ressalta ela. Compõem sua discografia, “Afro - Sambas” (1995), com Paulo Bellinatti, “Trampolim” (1998), recriando uma obra que foi vanguarda na década de 60, o violão de Paulo Bellinati e o canto de Mônica Salmaso se unem na essência da música de Baden Powell e Vinícius de Moraes, resgatando, na íntegra, um momento fundamental da história da MPB de forma profundamente autoral e moderna.  Um ano depois, chegou “Voadeira”, equilibrando ritmos como a valsa, o baião, o xote e a modinha. Em 2004, grava Iaiá, quando insere a composição “Menina Amanhã de Manhã” de Tom Zé gravada no disco “Se o caso é chorar”. Os trabalhos mais recentes são “Noites de Gala” com composições de Chico Buarque  (2007) e “Nem 1 Ai” lançado no ano passado com a mesma formação da apresentação de hoje Mônica (voz), Nelson Aires (Piano) e Teco Cardoso (Sax, flauta e instrumentos de sopro).

 “Meu ofício é garimpar”

Quanto a produção de um disco novo, Mônica é enfática, “minha velocidade sempre foi mais lenta que dos outros cantores. Eu acabei gravando o ‘Nem 1’ durante um tempo e lançamos ano passado, lançar outro trabalho agora seria muita coisa para mim. Este é o momento de recolhimento e fazer o projeto de outras coisas que abrem a minha cabeça musical”, disse. Mesmo em recolhimento, seu trabalho não pára. Ela continua com os ouvidos atentos no garimpo diário de novas canções. 

“Gosto muito de samba, de música bonita. Gosto disso, de garimpar, meu ofício é esse, já que não componho. E esse encontro com as músicas acontece de várias formas, seja com os novos amigos ou com os ouvidos antenados com as novidades. Nesse garimpo, eu acabo aprendendo coisas novas, ouvindo coisas e é um caminho que está sendo muito bom. O disco Yaiá eu passei um ano inteiro em contato com pessoas, fiquei com um balaio de músicas lindas que eu estava doida para cantar. É assim que ouço, procuro, até esvaziar esse balaio”,  finalizou.

 

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