O celular de Alex

Publicação: 2020-09-27 00:00:00
Woden Madruga
[ woden@tribunadonorte.com.br ]

No meio da semana, dois dias após a chegada da primavera (temperatura passando da casa dos 30 graus, quase verão), cai na caixa do correio (sem greve) uma carta de Alex Nascimento. O bardo da Rua São João está passando a pandemia bem longe de Lagoa Seca, mas sem conseguir se desligar das coisas da terrinha de Poti mais besta nem dos celulares dos aldeões daqui e de Caiada de Baixo. Aliás, a requintada (ou seria requentada?) tecnologia do mundo da informática é um dos motes da carta, escrita à mão como é do costume do engenheiro aposentado e poeta em disponibilidade. Vai transcrita por inteiro:
“Tio Uódi,

Se você comprar meu ford KA 2005, eu compro duas vacas suas. Aí ficaremos felizes, chorando, porque você não entende de carro nem eu de vaca. Isso me veio à cabeça agora porque é assim que funciona o cérebro da Barbie. Nada segue vontade, lógica ou ordens do cacique. Mas tem um nexo razoável:  enquanto os coprófagos brigam pela política, nós assistimos, só por saudades, os 7x1 da seleção de Felipão e Galvão no Mineirão. País que tem ão demais não merece respeito. Por isso morro de amor por Arturzinho, que chegava na Bella a pedia uma macarronada à bolonhesa, dois ovos, molho separado, um suco de laranja, depois trinchava até virar papa. E você pedia um canudinho pra ele. Arturzinho continua certo. Se vão mastigar, pra que levar à boca inteiro? Resposta: Só pra cair molho na camisa, a pirua reclamar ‘Ô fulano! ’, contar uma viagem a Roma e dizer o preço de uma calça Lee esfarrapada que ela trouxe pra mostrar que rico imita bem os miseráveis. Ó tempos, ó cortumes de Seu Mota!

Voltei às aulas com gente de carne e osso, e todos se encantaram com meus pets. De tanto ver (e ouvir) louras que caminham pelo bosque, fiquei curioso. Elas – e eles também – só falam em pet, CEO, resiliência, empatia, ressignificação, além de outros sons que lembram os saxônicos e os tupi-guaranás ou guaranis. Que fiz eu? Passei na cigarreira de Seu Chiquinho, comprei duas garrafas e Coca-Cola, esvaziei-as no canto da parede, como nos tempos que a gente fazia xixi, dei-lhes um banho de cola-de-sapateiro (cheirosíssima), cobri-as com algodão, e ficaram parecidas com os cachorrinhos que você encontra pelos zoo-shoppings. Carrego-os pela rua e me chamam de Loucacola. Rosno, Tio Uódi, e me respeitam. Os animais da mesma raça se entendem como se entendem todos os cachorros de todos os poderes de todos os tempos. Amém.

Por aqui, tudo bem, a mesma merda daí, e de acolá. Ah esqueci de dizer que tô em Madagascar com Maria. Já organizamos até um time de futebol, mas jogos só quando passar a peste – se passar -, não somos tão apressados em colocar o dinheiro no bolso e sair correndo pra comprar terreno em Pipa; prefiro o grude de Extremoz. Já que aí estão fazendo do que chamam país uma locação de filmagens de fogo (culpa da combustão), vê se salva Juma do Pantanal. Aquele exemplar não é pra se comer cozido. Mulher muito inteligente: rolava em rede, mas nunca nas sociais.

Ah, Tio, eu ia até perder tempo falando nesse excremento da tecnologia; melhor não. Basta dizer que nunca houve pena de morte mais requintada. Tenho medo quando, de longe, vejo algum conhecido, pois sei que em poucos segundos ele vai me mostrar um celular onde habitam seus netos, a casa de praia e suas taxas do último exame – nunca vêm com o retrato do mais puro e lindo amor da sua vida. São centenas de fotos, nenhum fato, afeto, aflito ou um fatal afoito. Danem-se eles e as aliterações. Os seres humanos são movidos a fuxico. Sempre foram. E agora, que a canalhice à distância custa menos do que uma camisinha usada, pra que perder tempo com o Teorema de Pitágoras? Ou com uma música de Cole Porter? Ah, Tio Uódi, a maior invenção do mundo foi a falta de caráter, plantinha que assola mais o chão que a sola dos sapatos e a planta dos pés, única prova de que todos foram criados iguais. Os que acham que são possuidores desta ficção (digo: caráter com tâmara), façam o favor de colocar celulares, tabletes, computadores de colo e todo o resto na função Explodir. E paz na Terra aos bichos de pior vontade.

Curta meu beijo, Tio. Mas não comente. Nem compartilhe.

Alex Nascimento

20/09/2020”

 Discurso De Elio Gaspari em sua coluna da Folha de S. Paulo:

- Jair Bolsonaro abriu os debates da Assembleia Geral da ONU com um discurso de vereador em caçamba de caminhão”.

Sorvete
Dia 23, quarta-feira, foi o Dia Nacional do Sorvete, comemorado aqui no Barro Vermelho com um delicioso sorvete de gogóia, nímia gentileza do querido amigo Alexandre Wanderley. Veio de sua fazenda Barra da Cruz, em Angicos, olhando para a Pico do Cabugi.

A gogóia (também conhecida por “quipá”) é uma cactácea, palma pequena, quase rasteira, que dá um fruto com muito pêlo espinhento. Do seu fruto, vem o sorvete. Também dá doce, geleia.   Aluízio Alves, chamava-a de “doce de pêlo”.

Delícia da rica gastronomia matuta potiguar que fica mais adocicada (mais doce que doce de batata-doce) ouvindo Gal Costa cantando: “Eu sou uma fruta gogóia/ Eu sou uma moça/ Eu sou calunga de louça/ Eu sou uma joia. /Eu sou a chuva que móia/ Que refresca bem/ Eu sou o balanço do trem/ Carreira de tróia. ”

Na Academia
A sucessão de Murilo Melo Filho, que ocupava a cadeira 19 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, já tem candidato: Marcelo Alves Dias e Souza, Procurador da República, doutor em Direito, escritor, cronista/colaborador da TN, peregrino de livrarias.

Juca Pato
O ambientalista e líder indígena Ailton Krenak, mineiro de nascimento, é o vencedor do Troféu Juca Pato-2020. O prêmio (“Intelectual do Ano”) é concedido pela União Brasileira de Escritores, desde 1963. Foi referência para o prêmio, o seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo”.

Cascudo
O Rio Grade do Norte já teve um vencedor do Juca Pato: Luís da Câmara Cascudo.  Foi em 1977, prêmio entregue em Natal durante a I Semana de Cultura Nordestina”, promovida pela UFRN, solenidade realizada na sede da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (26/05/1978).

Lembrando outros vitoriosos do Juca Pato: Jorge Amado, José Américo de Almeida, Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Ledo Ivo, Alceu Amoroso Lima, Josué Montello, Érico Veríssimo, Antônio Cândido, Paulo Evaristo Arns, Milton Hatoum, Ignácio de Loyola Brandão (ano passado, 1919).