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Natal, 24 de Novembro de 2009 | Atualizado às 08:07

O chamado para a vida missionária

Publicação: 22 de Novembro de 2009 às 00:00
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A história de Diana Nascimento, 30, ajuda a entender o termo “vocação religiosa”, que entre outras coisas, implica em uma vida de abdicação. Formada em Química e técnica em Controle Ambiental, Diana poderia ter seguido uma carreira bem sucedida. Mas a verdadeira realização só veio há um ano, quando ingressou na Casa Provincial da Congregação das Filhas do Amor Divino, em Emaús.

Júnior SantosAs irmãs vivem na sede da congregação, localizada em Emaús, município de Parnamirim, e se dizem seguras de sua vocação religiosaAs irmãs vivem na sede da congregação, localizada em Emaús, município de Parnamirim, e se dizem seguras de sua vocação religiosa


“Aos 15 anos disse que queria ir para um convento, mas mamãe não aceitou. Estudei para satisfazer meus pais, e depois me dediquei ao que realmente queria”, diz ela, que é postulanda, primeiro estágio para formação de freira. Na contramão do sonho de Diana,  a última edição do Anuário Católico do Brasil aponta um crescente desinteresse na vida religiosa entre as mulheres: em 1965 eram 40.513 religiosas, e em 2008 apenas 33.333 ordenadas.

A pergunta que fica é:  até que ponto as mudanças sociais estão afetando a ordenação de freiras no país? A madre superior da Ordem das Carmelitas Descalças em Natal, Maria de Jesus, diz que vários mosteiros já fecharam as portas na Europa, como na cidade de Zamora, na Espanha. “Um motivo é a queda na taxa de natalidade. Os casais não querem mais ter filhos”, comenta.

Mas no Brasil, segundo ela, a realidade é outra. “Cada mosteiro das Carmelitas comporta 21 irmãs, e estão sempre lotados”. Ainda como razões para redução de candidatas à vocação religiosa consagrada, a Irmã Ana Carla Silva, Mestra de Noviças na Congregação das Filhas do Amor Divino, cita a fragilidade na fé e a dificuldade dos jovens em assumir compromisso definitivo.

“Antes as meninas decidiam pela vocação aos 14 ou 15 anos. Hoje essa média é de 18 anos. Isso pode ser observado na própria vida. Por exemplo, as pessoas casam cada vez mais tarde”, comenta. A opinião das duas religiosas é confirmada pelo Arcebispo Metropolitano Dom Matias Patrício de Macêdo. Ele encara a situação com naturalidade, mas diz que não pode ser generalizada.  “Isso ocorreu só em algumas congregações, talvez por elas não terem conseguido acompanhar as mudanças na sociedade”. Para Dom Matias, a igreja precisa acompanhar as mudanças, desde que elas não firam seus princípios fundamentais.

O país tem hoje cerca de 500 congregações religiosas, e ao contrário do que ocorreu com as freiras, no mesmo período, subiu o total de padres, passando de 13.537 para 20.561. A Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), que funciona em comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tem aproximadamente 30 mil freiras, padres e irmãos de vida consagrada, que moram em comunidades e fazem votos de pobreza, obediência e castidade.

Cada congregação tem um carisma, que é o centro de atuação, como Educação e Assistência Social aos pobres. O arcebispo aponta ainda as novas comunidades que surgiram com o movimento de “renovação carismática”, como Shalom e Canção Nova. “Em algumas delas, os membros mantém a vida social, se casam, e não precisam viver isolados”, lembra.

Carmelitas: vidas em silêncio e reclusão social

As grades de ferro que delimitam a vida enclausurada  e o silêncio que paira na Ordem das Carmelitas Descalças, em Emaús, remetem a hábitos incomuns na modernidade. Lá dentro, o dia-a-dia das monjas carmelitanas é de constante sacrifícios. Elas jejuam seis meses por ano, não têm  direito a sair para visitar a família ou mesmo assistir à missa na igreja mais próxima.

As restrições tem um fundamento: “Orar pelo bem do mundo, principalmente dos sacerdotes, que estão junto à sociedade”, explica a madre superiora Maria de Jesus. Para atingir esse objetivo, elas vivem a vocação religiosa no estilo contemplativo e de penitência.

No período de jejum - de 14 de setembro até a Páscoa - as refeições são  mais leves e os lanches entre as refeições principais são suspensos. “Não escolhemos o que comer porque vivemos de doações”, diz  a madre.

O contato com o mundo é feito pelo locutório, espaço dentro do mosteiro para receber visitas de familiares e fieis em busca de orações e conforto para a alma. A família pode visitá-las uma vez por mês, mas como são de Teresina, o contato se resume a uma conversa telefônica. Foi do locutório que a reportagem da TRIBUNA DO NORTE conversou sobre o cotidiano recluso da seis monjas.

Natal foi a última capital do nordeste a receber a Ordem, em julho. O mosteiro oficial aguarda a licença da Prefeitura de Parnamirim para ser construído, e enquanto isso, elas vivem enclausuradas em uma casa religiosa adaptada em Emaús. “O mosteiro será um espaço mais aberto, em contato com a natureza e locais adequados para os ofícios. Há momentos em que precisamos ficar a sós com Deus, e  que aqui não é possível”, diz a irmã Maria Angélica.

Freiras enclausuradas

As grades estão em todos os locais na casa das carmelitanas. A missa diária é assistida através de uma cela especial que dá para a capela local, e os eventos religiosos são comemorados dentro do mosteiro, que faz uma programação própria. Mas se engana quem imagina que a missão das monjas é encarada com sofrimento.

Apesar da abdicação de prazeres simples e até biológicos, elas encaram o dia a dia com alegria e entusiasmo. “Nenhum dia é igual ao outro”, diz a madre. A saída do mosteiro é restrita a ocasiões especiais, como idas ao médico, ao banco ou votar. O mesmo vale para entrada de estranhos no mosteiro. “Só para  manutenção do que não sabemos fazer, por exemplo, da parte elétrica”, diz a irmã Maria Angélica.

A rotina diária começa cedo, às 4h40 da madrugada, e o primeiro diálogo entre as monjas da casa só é permitido no período chamado de “recreio comunitário”, após o almoço. Antes, o silêncio só é quebrado para as leituras durante orações e refeições, em que elas se revezam.

O primeiro nome de “Maria” que todas levam não é coincidência. Após formadas na Ordem, é comum as carmelitanas o adotarem o tratamento substituindo o nome civil. “Não temos problemas de convivência porque temos a vocação para isso. Estou aqui há trinta anos e estou tão acostumada a esse estilo que se saísse daqui não saberia como viver lá fora”, brinca a madre superiora.

Maria Carolina Bernardo, 23, está na casa há quatro meses. Ela assumiu a vaga de uma garota que desistiu da vocação após conhecer o pai biológico. “Ficamos de felizes pela alegria dela, permanecer aqui é voluntário. Mas tendo os votos definitivos, deve-se pedir ao bispo”, explica a madre. arolina conheceu o mosteiro das Carmelitas Descalças de Teresina aos 16 anos. Aos 18, iniciou a pastoral vocacional para entrar no mosteiro. “Meus pais não se opuseram porque sabiam que era uma coisa boa”. Agora Carolina se depara com uma nova rotina. “Estou acostumada e certa da decisão”, garante.

A jornada para ser freira da congregação

A maioria das candidatas ingressa no convento aos 18 anos, mas há alguns anos, a média de idade era de 15 anos.

Até se formarem freiras, ou seja, fazer os votos definitivos de castidade, obediência e pobreza, são oito a 13 anos de formação em uma congregação.

1ª etapa Pastoral Vocacional: ainda no seio familiar, a garota é acompanhada por uma das Irmãs, que a ajuda na decisão vocacional.

2ª etapa Aspirantado: a jovem é acompanhada de 1 a 2 anos pela Mestra de aspirantes no seu desenvolvimento humano, cristão e vocacional, ingressa no convento.

3ª etapa Postulantado: preparação ao Noviciado, dura 1 ano. Cresce o conhecimento de Jesus e discerne a autenticidade de sua vocação.

4ª etapa Noviciado. Considerada a verdadeira iniciação à vida religiosa das Filhas do Amor Divino. A noviça começa a dar forma ao chamado de Cristo, para fazer a sua opção vocacional, por meio da profissão temporária. Dura 2 anos.

5ª etapa Juniorado: período de votos temporários. Aprendizagem da fidelidade, a jovem amadurece as etapas formativas anteriores. Tempo da formação profissional, a juniorista vive em uma das comunidades acompanhada por uma Irmã Mestra. Na Filhas do Amor Divino, dura de 5 a 9 anos.

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comentários

camillercorreia@...23/11/2009 @ 09h35
Tão interessante quanto contraditório que como cita a matéria - A saída do mosteiro é restrita a ocasiões especiais, como idas ao médico, ao banco ou votar - quando a verdadeira intensão dessas senhoras seja de total abdicação ... Fico aqui imaginando o que pessoas que abdicam de uma vida inteira, inclusive dos prazeres teria de ter como critério de saida importante a ida ao banco...Jesus Cristo tem conta??? Acredito que seja para movimentar as doações e também para pagar as contas da instituição e sacar para as compras, mas fui informada de que elas tem conta corrente...Casa , comida, roupa lavada e uma conta corrente em movimento...
gilson.medeiros@...23/11/2009 @ 23h06
Reclusão, isolamento, distância da sociedade... nada disso se harmoniza com o que o fundador do Cristianismo pregava e vivia. O monasticismo medieval que ainda hoje tem seus adeptos foi mais uma das aberrações teológico-doutrinárias desenvolvidas ao longo do obscuro período da Idade Média. Quanta ignorância! Quanto distanciamento do verdadeiro ideal pregado por Jesus Cristo! Como ser o "sal da terra" e a "luz do mundo" trancafiadas dentro de uma chácara?! Isso sem falar no celibato que, além de anti-natural, é anti-bíblico!
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