O Cine Teatro Minerva

Publicação: 2021-02-27 00:00:00
Ronaldo Fernandes
Engenheiro Agrônomo

De forma resumida e aguisa introdutória, mostramos um cenário do ano de 1956. Na ocasião, vários estudantes do Rio Grande do Norte chegaram cidade de Areia, no Brejo paraibano para concorrer ao vestibular na Escola de Agronomia do Nordeste – EAN fundada em 1936. O evento começou em uma data difícil, quinta-feira após o carnaval.

Do nosso estado, foram aprovados os vestibulandos: Fernando Cabral, Geraldo Gomes e o autor destas linhas. Registro a título de curiosidade, que pela escola, passaram diversos engenheiros agrônomos que foram Secretários de Agricultura do RN, como: João da Mata Toscano, Antônio Cássio de Medeiros, Geraldo Gomes e este escrevinhador. 

A cidade de Areia, no alto da Serra da Borborema paraibana, alcança 620m de altura, temperatura variando de 30º a 15º de verão e inverno, muito úmida e chuvosa, cerca de 1,200mm anuais. Existiam em funcionamento cerca de quarenta engenhos de rapadura e água ardente. A cana era cultivada nas baixadas e as encostas ocupadas com sisal, fruteiras diversas e ainda uma indústria de tecelagem operava instalada nos arredores do centro urbano.

Cidade ativa de gente hospitaleira, exercendo forte intercâmbio com alunos e professores da EAN, oriundos de diversas regiões brasileiras. O colégio Santa Rita, fundado em 1937 pelas freiras alemãs da Ordem Franciscana foi fator essencial para o desenvolvimento do município. Não há dúvida que pelo intenso relacionamento dos diversos segmentos da sociedade, Areia foi nesse tempo e acredito que até hoje, a capital cultural do Brejo. A Escola de Agronomia, o colégio, o cine teatro Minerva, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, os clubes Areienses e Borborema, o bar e sinuca do Sargento, o hotel de Maria Silva, a praça Pedro Américo, as escolas, os boêmios, as meninas da Tia Quina na rua da Palha e a sopa que três vezes por semana fazia ligação Natal – Campina Grande, via Areia, determinavam o dia a dia da agradável cidade.

Voltando ao foco do tema, o cine teatro Minerva, fundado em 1859 foi o primeiro teatro construído na Paraíba. O ponto alto sempre foram as apresentações de cinema, frequentado pelas pessoas da cidade e pelos alunos da EAN. Os fatos que seguem não contém nenhuma crítica. Pelo contrário, são cenas originais que aconteciam durante as sessões, o que tornava o espetáculo único. O maior movimento se verificava nos sábados e domingos. A tela funcionava dos dois lados. Dois terços da plateia que compravam o ingresso normal, assistia as películas na posição normal que conhecemos. Já as pessoas que pagavam meia entrada, viam o filme por trás da tela. Dessa maneira, não podiam entender as legendas e as cenas apareciam ao contrário ou pelo avesso. O projetor fazia elevado barulho e pedia aposentadoria a bastante tempo. O senhor Rafael Figueiredo, gerente da casa, estava sempre presente.

 Quando era filme de comédia, a risadaria era geral e muito alta. Ele prontamente interrompia o som e munido de um autofalante avisava: “Riam baixo, sejam educados”. Em resposta, recebia uma ensurdecedora vaia. Hoje não há mais o cinema, só o teatro, prédio histórico, muito visitado por turistas. Em tempo, recentemente, conversando com um colega Areiense, professor da UFRN, ele acrescentou o seguinte sobre o Minerva: “Sizenando Vicente, apelidado de Ernani de Peba, trabalhava como tratorista da Prefeitura e cuidava do lixo da cidade e tocava tuba na Fila Harmônica de Areia. Além dessas atividades, quando ia ao cinema tentava aos gritos decifrar as agendas e as cenas invertidas.

Não poderia terminar essas notas, sem destacar nomes de grandes Brasileiros, nascidos em Areia. José Américo de Almeida (1887-1980), escritor, político, ministro e governador, o inspirador da Escola de Agronomia do Nordeste; e Pedro Américo de Figueiredo Melo (1843-1905), pintor famoso, autor do quadro O Grito do Ipiranga. Ficaram estas memórias marcantes do povo e do brejo, lugar de boas amizades.






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