O comerciante que ‘lutou contra’ Eduardo Gomes

Publicação: 2015-05-17 00:00:00 | Comentários: 0
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O comerciante que enfrentou os tombos da luta pela preservação da identidade de Parnamirim morreu vítima de um coágulo no cérebro, consequência de uma uma queda quando se recuperava de cirurgia no fígado. José Siqueira de Paiva tinha 90 anos e morreu numa data representativa para a cidade: 13 de maio, feriado municipal em homenagem à Nossa Senhora de Fátima,  padroeira do lugar.

Pioneiro no comércio de ferragens e material de construção, “Zezinho” desembarcou em Parnamirim no dia 04 de setembro de 1944. Às cinco da manhã, para trabalhar na  construção de uma casa no terreno do avô, onde hoje funciona uma agência do Bradesco, no Centro, conforme ele deixou registrado num caderno de memórias.
Álbum de famíliaJosé Siqueira de Paiva participou do movimento contra projeto que mudou nome de Parnamirim na década de 1970José Siqueira de Paiva participou do movimento contra projeto que mudou nome de Parnamirim na década de 1970

Ainda jovem, começou a ganhar dinheiro com uma merceaaria (Arenã), que também funcionava como ponto de venda da farinha produzia pelo pai na vizinha São José de Mipibu. Antevendo o crescimento da cidade e fugindo da concorrência mudou de ramo, inaugurando a  Casa Parnamirim, que funciona até hoje, atendendo a uma clientela fiel.

Siqueira participou da luta pela revogação de uma lei que transformou Parnamirim em Eduardo Gomes, na década de 1970, numa manobra, sem consulta ao povo, feita para agradar aos militares da aeronáutica. Isso ocorreu em 1973, um ano depois da inauguração do estádio Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente do ciclo militar que duraria 21anos.

Zezinho, como era conhecido, foi testemunha do vaivém de aviões de guerra chegando e saindo para os campos de batalha na Europa. A Base Aérea de Natal, encravada em solo parnamirinense, era um importante ponto estratégico na rota para deter os planos expansionistas de Hitler. E antes de virar cidade, Parnamirim entrava para a história como “Trampolim da Vitória”, motivo de orgulho de seus moradores.

Em 1973, os pouco mais de 15 mil moradores foram surpreendidos com a informação de que o deputado Moacir Duarte apresentara na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte um projeto de lei mudando o nome para homenagear o comandante da 2ª Zona Aérea, a qual estava subordinada a base aérea durante a Segunda Guerra Mundial.

A população reagiu. No entanto, a pressão dos militares no período mais duro da ditadura conseguiu abafar - mas não vencer - a resistência popular. No livro “A História de Parnamirim”,  o jornalista Carlos Peixoto lembra que depois das eleições de 1986, quando o Brasil elegeu deputados e senadores com a missão de elaborar uma nova Constituição para consolidar a democracia que ainda engatinhava, “o movimento pela volta do nome de Parnamirim saiu das sombras e voltou a mostrar a cara nas ruas. Um abaixo-assinado, de iniciativa de José Siqueira, conseguiu 4.665 assinaturas a favor da volta do nome histórico.”

As assinaturas, colhidas no balcão da loja, foram fundamentais para a Assembleia Legislativa aprovar,  em 1987, projeto do deputado Rui Barbosa, devolvendo à cidade o antigo nome. “O município de Eduardo Gomes existia apenas nos documentos oficiais”, registra livro de Peixoto.

No caderno de anotações que estava escrevendo, José Siqueira anotou: “Na mudança de nome de Parnamirim para Eduardo Gomes, inconformado, inconformado, fiz um abaixo assinado com a presença de 4.665 assinaturas. Ao falar com Ivan, na época vereador, fez uma reunião na Câmara Municipal onde todos concordaram, menos o prefeito, o senhor Bandeira de Melo.

“Era um homem religioso. Ajudou demais as igrejas evangélicas. Não era político, mas sempre apoiou as lutas de nossa cidade”, destaca o vereador Valério Santiago, que no dia seguinte à morte de Zezinho apresentou um voto de pesar na Câmara Municipal.  “para reverenciar a memória de um nome importante da nossa história.”

Nota de repúdio

A volta do nome da cidade às origens era um assunto tão delicado que o governador da época, Geraldo Melo, teve de fazer uma costura política para não provocar a ira da Aeronáutica. Antes de sancionar a nova lei, revogando a anterior, editou um ato dando o nome do marechal do ar Eduardo Gomes ao trecho entre Natal e Parnamirim. A Lei 5.601 foi publicada no Diário Oficial do Estado do dia 6 de agosto de 1987.

Presidente do legislativo municipal na época do projeto de Moacyr Duarte, Valério Santiago liderou o movimento contra a mudança de nome da cidade. “Junto com Antônio Basílio redigimos uma nota de repúdio que foi publicada no Diário de Natal. Era uma tentativa da Câmara de convencer o deputado Kleber Bezerra (PDS), que obteve expressiva votação no pleito 1982, a patrocinar a causa no plenário da Assembleia Legislativa. Kleber não quis.  Os vereadores então conseguiram convencer o deputado Ruy Barbosa (PMDB) a fazê-lo.

No livro “A História de Parnamirim” Carlos Peixoto registra: “Não se sabe bem os motivos e mesmo na falta de documentos oficiais, os fatos e depoimentos corroboram a tese de que a mudança do nome de Parnamirim para Eduardo Gomes, foi uma ideia discutida, aprovada e sugerida ao deputado estadual Moacyr Duarte (Arena) por Eliah Maia do Rego, Antenor Neves e o prefeito Marcelino de Almeida Neto. Antenor, quando questionado, sempre evitou falar do assunto, mas nunca escondeu a admiração e o orgulho pela amizade demonstrada pelo marechal do ar Eduardo Gomes.”

Fora do mapa
A resistência à mudança do nome de Parnamirim parecia unânime entre os moradores. Um episódio atribuído ao comerciante Salviano Gurgel, ilustra bem como as pessoas passaram a conviver com a cidade Trampolim da Vitória, descaracterizada, fora do mapa múndi.

Salviano morava em Natal e tinha uma granja em Parnamirim. Certa vez chegou na rodoviária da Ribeira para pegar ônibus. O locutor, com aquela voz característica de locutor de rodoviária, comunicava:

— Atenção senhores passageiros. Dentro de instantes estará saindo o ônibus para Eduardo Gomes.

Salviano nem aí. Um conhecido alertou:

— Seu Salviano, o senhor não vai embarcar não?

E ele:

—Não. Eu vou para  Parnamirim. Não sei onde é que fica esse tal  de Eduardo Gomes!


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