“O corrupto é um genocida”

Publicação: 2010-06-20 00:00:00 | Comentários: 6
A+ A-
Anna Ruth Dantas - Repórter

O promotor mineiro Rogério Grecco é um defensor de policiais. Autor de diversos livros que focam no Direito Penal, apontado como o “mentor de concurso” pelo trabalho realizado como professor em cursos preparatórios, Rogério Grecco é um jurista renomado que tem sua mais nova incursão com o livro “Atividade Policial - Aspectos Penais, Processuais Penais, Administrativos e constitucionais”. O olhar do promotor para os policiais não fica apenas na ótica do Direito, mas ganha também contornos de uma defesa de admirador.

“Ser policial não é para qualquer um. Fácil eu ser entrevistado aqui por você, em um hotel, enquanto outras pessoas estão tomando tiro de fuzil. É difícil a atividade policial. A sociedade precisa entender que são pessoas diferenciadas, que tem amor pelo que faz”, comenta o jurista, que esteve em Natal ministrando um curso e lançando a nova obra na livraria Siciliano.Ele considera policiais heróis. Mas o que preferiria Rogério Grecco: ir para guerra ou ser policial nas ruas brasileiras? “Acho que iria preferir ir para guerra. Pelo menos você sabe onde está o inimigo. No Brasil você não sabe”, responde, de pronto.

Grecco não poupa críticas a falta de cumprimento das leis punitivas para os criminosos de classe média. O professor é contundente ao afirmar que os genocidas estão “soltos”: “Precisa de um combate sério. O corrupto é um genocida. O corrupto é aquele cara que você está tirando foto dele nos melhores restaurantes de Natal, mas ele está lesando o erário em milhões e milhões. É esse cara que não deixa chegar o remédio na farmácia, é esse cara que não deixa o idoso ter um atendimento digno, esse é o genocida”, diz, em tom de desabafo, Rogério Grecco.O convidado de hoje do 3 por 4 é um professor que dá uma lição de cidadania, um promotor defensor dos policiais, um escritor que fala como mestre, um cidadão simples e simpático ao espectador.

Com vocês, Rogério Grecco:

Júnior SantosPromotor Rogério Grecco esteve em Natal lançando novo livroPromotor Rogério Grecco esteve em Natal lançando novo livro


Os policiais hoje causam mais medo do que segurança na população. O que levou a essa inversão de valores?
A ditadura teve uma influência muito forte com relação a isso. Havia muito abuso, muito arbítrio e depois da Constituição de 1988, depois que o Brasil se transformou em uma democracia começou a haver renovação nos quadros da polícia. Essa renovação tem sido muito importante, muito útil. Hoje os estudantes que prestam concurso de forma geral gostam da atividade policial. O único problema que ainda vê na atividade policial é a questão da remuneração que faz com que as pessoas migrem para outras profissões. Eu, por exemplo, sou do Ministério Público, mas meu concurso era para delegado de Polícia Federal. Não fiz porque não surgiu oportunidade naquela época. A função policial é muito bonita. Tem havido renovação, mudança de mentalidade na polícia. Uma polícia que respeita o direito do cidadão. Mas infelizmente a imagem que ficou foi a antiga, da polícia truculenta, que gosta de bater nas pessoas. Mas não é assim que a coisa acontece.

Mas há também os casos de corrupção dentro da polícia. O senhor credita isso a questão de caráter ou questão de falta de incentivo para esses profissionais?
Questão de caráter. Sabe por que? Porque se você for no Congresso Nacional quantos são corruptos? Graças a Deus que as coisas têm mudado. Mas quantos juízes, quantos desembargadores envolvidos, quantos ministros envolvidos em problema de corrupção? Agora o contingente policial é maior, quanto mais gente maior, proporcionalmente, a corrupção. Não é que exista só na polícia. Em todos os setores tem corrupção.

O tratamento destinado às Polícia Civil, Militar e Federal é diferente. A Polícia Federal usufrui de uma estrutura melhor. O senhor tem essa mesma percepção?
Tenho porque a estrutura é diferente. A estrutura da Polícia Federal é diferente. Quando você lida com a União a estrutura é sempre melhor. Mas isso está modificando nos Estados. As Polícias Civil e Militar são o front da batalha. Eles que recebem a primeira vítima, o indiciado, o primeiro acusado. Acho que a política de remuneração da polícia, a estrutura principalmente da Civil e Militar, deveria melhorar muito.

O policial brasileiro hoje é um predestinado, um herói por trabalhar em condições tão adversas?
É sim. Eu tenho contato muito grande com a turma do BOPE do Rio de Janeiro. Eu vejo ali aqueles policiais, o amor que eles têm pela profissão. Em nada eles são mais remunerados que os outros. São altamente especializados, são pessoas que introjetaram dentro deles esse amor, esse gosto pela atividade policial. Quando se fala de policial do BOPE, qualquer policial tem orgulho de ser do BOPE. Agora ao passo que nas outras polícias já há aquela resistência de sempre reclamando, sempre murmurando. Claro que o policial do BOPE quer ganhar mais, mas isso não faz com que ele seja corrupto. Tem outras polícias importantes. No meu Estado, em Minas Gerais, tem uma polícia boa, mas ainda está longe de ser o ideal. A gente tem que valorizar. Acho que o principal é que a gente tem que aprender a não falar mal da polícia. O policial se sente desprestigiado, desmerecido, ele se sente com vergonha de ser policial. Ao invés de ter orgulho ele fica envergonhado. Eu ensino meus filhos a gostarem da polícia. Meu filho já chegou a pedir autógrafo ao policial. Acho que um bom relacionamento é o que está faltando.

A sociedade é injusta com a polícia?
É. Ser policial não é para qualquer um. Fácil eu ser entrevistado aqui por você, em um hotel, enquanto outras pessoas estão tomando tiro de fuzil. É difícil a atividade policial. A sociedade precisa entender que são pessoas diferenciadas, que tem amor pelo que fazem. Veja que sou do Ministério Público não sou da polícia. Vejo por exemplo você fazer uma incursão na favela, todo dia no Rio morre um policial. É difícil, tem que valorizar o policial.

Se o senhor fosse um policial preferia ir para guerra ou fazer segurança nas ruas do Brasil?
É difícil, pergunta difícil. Mas acho que iria preferir ir para guerra. Pelo menos você sabe onde está o inimigo. No Brasil você não sabe.

Enveredando agora especificamente pela lei, como o Direito Penal pode evoluir para coibir efetivamente os crimes?
Não pode. Essa não é nossa finalidade. É porque as pessoas vendem o peixe errado no Direito Penal. Nosso problema não é jurídico, nosso problema não é legal, nós temos lei demais, nossa lei é boa. Precisa de um ajuste e outro, mas não é isso que as pessoas estão alardeando. Elas falam que tem que rasgar o Código completo. Isso é conversa. Isso não existe. O que tem que acontecer é o Governo implementar políticas públicas. Se não houvesse desigualdade social o índice de crimes contra o patrimônio seria quase nenhum. Por que no Japão o crime de índice contra o patrimônio é quase zero? Será que no Japão as pessoas sabem melhor que não podem furtar? Não! É porque lá eles têm uma qualidade de vida que é condizente com o não querer praticar crime contra o patrimônio. A medida que você vai implementando medidas sociais você vai diminuindo criminalidade. Eu estive em uma favela com a turma do BOPE no Rio de Janeiro. Uma favela pequena lá tem 30 mil pessoas. A Rocinha tem 250 mil pessoas. De que adianta entrar a polícia se não entra saúde, educação, lazer, habitação? Isso não funciona. Muitas cidades aqui do Rio Grande do Norte não devem ter 30 mil habitantes. Em Minas trabalhei em cidade com 10 mil habitantes. O Estado polícia tem que vir, mas também o Estado serviço social. Precisa investir em escola, saúde. Na minha opinião, o problema do Brasil se chama corrupção. No dia em que houver um combate efetivo sério a corrupção as coisas vão melhorar mais. Precisa de um combate sério. O corrupto é um genocida. O corrupto é aquele cara que você está tirando foto dele nos melhores restaurantes de Natal, mas ele está lesando o erário em milhões e milhões. É esse cara que não deixa chegar o remédio na farmácia, é esse cara que não deixa o idoso ter um atendimento digno, esse é o genocida. Ele é que precisa ser combatido. Se combate esse cara primeiro o resto fica fácil.

O senhor é apontado como um dos mentores dos estudantes de concurso público. Qual seu olhar sobre o cenário de milhões de estudantes de Direito estudando para concursos públicos?
O concurso hoje virou um grande filão. Precisa do concurso porque os cargos estão aí, existe a questão ainda da segurança, a questão do status profissional. O concurso reúne todos os atrativos e cada vez mais faz com que as pessoas saíam da economia privada.

O cenário aponta que o estudante quando está concluindo o ensino médio tende a procurar o Direito já pensando em emprego público.
Sobre o Direito ele é o que lhe dar mais alternativas em termos de concurso. Aí você pode fazer concurso no país todo, você não está limitado a sua cidade, seu Estado. Ele (o curso de Direito) abre muitas portas. Você é um engenheiro mecânico, químico tem uma vaga ou outra no concurso. Mas o Direito é uma profissão que é uma carreira que dá muitas alternativas. Essa é uma coisa boa do Direito.

O que faz uma pessoa ser aprovada em um concurso?
É muito estudo, muito. Eu, por exemplo, quando fiz concurso estudava 12 ou 14 horas por dia. Os concursos são muito seletivos. No Ministério Público de 4 mil candidatos passam 15 ou 20. Não existe ensino de excelência nas universidades. Porque quanto mais universidade maior tem que ser o corpo docente e isso prejudica muito. Por isso que os estudantes correm para os cursos (perparatórios) porque eles tem a nata dos professores. As pessoas vão migrando para os cursos.

continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários

  • ADILSONMOHAMMAD

    Querido Ir .\'. profesor Dr. ROERI GRECCO . Sinalize-me um atalo para estudos a quem ,no meu caso quer se enverdar para carreira do MP/ Sou negro (afrobrasileiro ) , motorista de ônibus coletivo,graduando ainda no 3* ano em DIREITO,face às resistências e intolerâncias que , infelizmente esse Brasil ainda , assiste. Confesso que NÃO É FÁCIL ESTUDAR NO MEIO DO BERÇO ESPLÊNDIDO ,pois que NÃO t~em compromisso e comprometimento com o DIREITO E VISÃO DE MUNDO DE JUSTIA SOCIAL mas, vou superar e NÃO SUCUMBIR o meu projeto de vida educacional e profissional na área juridica . Por favor auxilie-me no que for possível com essas tuas sinalizações pela experiência e vivência acadêmica e profissional. Os promotores recem emposads ,estão mais procupados com as vaidades que com aplacar a dor daqueles que necesitam guarida do MP-SP e desdenham . . . desdenham bastante ,principalmente, na triagem. AH! É FAVELADO MESMO E, POR AI VAI Um forte e FRATERNAL abraços, estendidos a todos que lhes são caros. _______Adilson \'____ santo andre -SP

  • fabiogrego

    Está de parabéns o promotor Rogerio Grecco, gostaria que os demais fizessem o mesmo, vindo a público admirar o trabalho polícial. Isso motiva e muito nos policiais. Parabéns Promotor.

  • justin.justinsadedeus.s5

    Gostaria de frisar que a inversão de valores comentada pelo ilustre promotor não está ocorrendo apenas na carreira de policial, ou seja na segurança, está também na educação, saúde, e em todas as secretárias a nível de prefeituras e governos estaduais e a responsabilidade por isso é dos chamados \"cargos comissionados\" que são colocados pelos corruptos (genocidas) com uma unica finalidade: Desviar o erário. Com certeza o Sr. Rogério Grecco deve ser chamado de \"LOUCO\" por seus colegas de trabalho pela coragem de falar assim. Precisamos de uma multiplicação de pessoas assim, vamos começar por nossos filhos!

  • pedroaugusto1000

    Encontrei um cara que pensa exatamente igual a mim. Na minha concepção, a corrupção deveria ser considerado um crime hediondo. Os desonestos que subtraem o erário público são os principais responsáveis pela falta de recursos nos serviços básicos que o estado tem obrigação de prestar. A falta de qualidade na educação, a saúde pública precária, a segurança insuficiente, só têm dois responsáveis: o corrupto e o corruptor. Enxergo o trabalho do policial com os mesmo olhos que o professor Rogério enxerga. Colocam a culpa de todos os problemas de uma segurança pública desassistida e sucateada, nas costas do desprestigiado e mal pago policial e uma uma injustiça sem tamanho. Parabéns, professor, pela sua criticidade e coragem!!!

  • marcia-dantas22

    Segue o curriculo resumido do Professor Rogerio Greco, e fica aqui os meus parabéns pela excelente matéria da Tribuna do Norte. * Procurador de Justiça, tendo ingressado no Ministério Público de Minas Gerais em 1989. * Foi vice-presidente da Associação Mineira do Ministério Público (biênio 1997-1998) e membro do conselho consultivo daquela entidade de classe (biênio 2000-2001). * É membro fundador do Instituto de Ciências Penais (ICP) e da Associação Brasileira dos Professores de Ciências Penais. Membro eleito para o Conselho Superior do Ministério Público para os anos de 2003, 2006 e 2008. * Professor de Direito Penal da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ); * Professor convidado da Fundação Escola Superior do Ministério Público do Distrito Federal (FESMPDF); * Professor convidado da Escola da Magistratura do Rio Grande do Norte (ESMARN); * Professor convidado da Escola da Magistratura do Espírito Santo (EMES); * Professor do Curso de pós-graduação em Ciências Penais da PUC-BH. * Professor do Curso de pós-graduação em Ciências Penais da Fundação Escola Superior do Ministério Público de Minas Gerais * Mestre em Ciências Penais pela Universidade Federal de Minas Gerais. * Especialista em teoria do delito pela Universidade de Salamanca (Espanha). * Doutorando pela Universidade de Burgos (Espanha). * Assessor Especial do Procurador-Geral de Justiça de Minas Gerais, junto ao Tribunal de Justiça. Membro titular da banca examinadora de Direito Penal do XLVII Concurso para ingresso na carreira do MInistério Público de Minas Gerais * É autor das seguintes obras: Direito Penal (Belo Horizonte: Cultura; Estrutura Jurídica do Crime (Belo Horizonte: Mandamentos); Concurso de Pessoas: (Belo Horizonte: Mandamentos); Direito Penal ? Lições (Rio de Janeiro: Impetus); Curso de Direito Penal ? Parte Geral e Parte Especial (Rio de Janeiro: Impetus); Direito Penal do Equilíbrio ? uma visão minimalista do Direito Penal (Rio de Janeiro: Impetus); Código Penal Comentado (Rio de Janeiro: Impetus); Vade Mecum Penal e Processual Penal (Rio de Janeiro: Impetus);Virado do Avesso ? Um romance histórico-teológico sobre a vida do apóstolo Paulo (Rio de Janeiro: Nahgash). * Embaixador de Cristo. Fonte: www.rogeriogreco.com.br

  • lukscosta

    Querida Ana Ruth, uma pequena correção: o Prof. Rogério Greco é Procurador de Justiça do Estado de Minas Gerais. Mero detalhe, sem qualquer influência no brilhantismo da matéria. Parabéns pela entrevista!