O desenho universal de Filipe Bulhões

Publicação: 2019-01-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Augusto Bezerril*
Especial para o Viver

Se o mapa do Rio Grande do Norte tem a forma de um elefante em ponto para redesenho, os designers potiguares tem cumprindo, com esmero, a missão de posicionar o criativo potiguar sobre as formas no mapa do design no Brasil. Ao desembarcar para final do ano em Natal, Filipe Bulhões trouxe na bagagem vitórias expressivas no disputado mercado paulistano. Potiguar de nascimento, o arquiteto e designer de produtos fechou o ano destacando-se entre os nomes consideradores dos promissores da nova geração do design e arquitetura do Brasil. A revista Kaza listou nomes, em texto cujo título lia-se Jovem Guarda, listou  jovens profissionais que fizeram diferença. Quem lá estava?  O potiguar Filipe Bulhões, fotografado ao lado já icônico do Vesica Mirror. O espelho tem borda laqueada e acabamento de latão, "parece flutuar" e, sim,  reflete o olhar geométrico do designer. A peça é inspirada na Vesica Piscis - modelo montado a partir da sobreposição de de dois círculos com o mesmo diâmetro.

Filipe Bulhões em foto da revista Kaza como um de seus trabalhos, o Vesica Mirror, espelho que parece flutuar da parede. O Cruzeiro de Pipa, inspirado no monumento praiano, e a escultura Faces
Filipe Bulhões em foto da revista Kaza como um de seus trabalhos, o Vesica Mirror, espelho que parece flutuar da parede. O Cruzeiro de Pipa, inspirado no monumento praiano, e a escultura Faces

O Banco Cruzeiro tem inspiração na praia de Pipa. "Muitos dos projetos de mobiliário vem através da necessidade de alguns de nossos projetos de arquitetura e de arquitetos parceiros, como é o caso do banco Cruzeiro de Pipa. O banco Cruzeiro foi criado a partir de um projeto de arquitetura realizado  na praia de Pipa, no Rio Grande do Norte. A estrutura do banco teve uma forte influência de uma cruz centenária da cidade e todos os materiais foram escolhidos levando em consideração a disponibilidade da mão de obra dos artesãos locais, desde a madeira maciça à palha natural trançada à mão. Esse perfil de materiais naturais e mão de obra local segue o escolhido para o projeto arquitetônico do espaço, que utilizou desde o piso feito no local à madeiras e mármores regionais", explica o designer.

Apesar da visibilidade, Bulhões mantém-se o pés bem firmes (como se mostra descalço da foto que ilustra reportagem) ao mesmo tempo que vislumbra horizontes inspiracionais,  experimenta diferentes materiais, técnicas de produção e compartilha de ideias com profissionais igualmente talentosos. A luminária Lazlo - destaque edição da DW! de 2018 - é uma peça multifuncional, criada em parceria com a designer de acessórios Luiza Dias.

Filipe Bulhões nasceu em Natal. Morou na capital potiguar até os 14 anos, para depois ir estudar no Arizona, Estados Unidos. Além do ambiente criativo da escola onde se formou, o potiguar conheceu o trabalho do artista Rick Westcott. Ao 16 anos, Bulhões tinha clara a aproximação com arquitetura. "Voltei para Brasil e entrei na universidade em Natal. Aos 21 anos estava formado e, aos 23 anos, fui estudar design de produtos em São Paulo". Antes de migrar para Sampa, Bulhões estagiou no Escritório de Arquitetura Renato Teles. A admiração entre os dois profissionais é recíproca. "Eu trabalhava com um profissional que me dava muita liberdade", diz.

Mas foi nesse instante que percebeu ter um sonho. Não sabia exatamente o caminho. Presumia, no entanto, a necessidade de, caso fosse necessária à realização, migrar. É o impulso para cursar o Design de Produtos.

Suas criações se aproximam do artesanal e dos cenários familiares
Suas criações se aproximam do artesanal e dos cenários familiares

Assim como na arquitetura, o designer se mostra intensamente interessado pela escolha de materiais. A precisão de técnica alia-se ao sutil do artesanal numa trajetória autoral capaz de fazer o consumidor autor. O processo vai além da fabricação, mas do uso que se faz a partir da mediação e apropriação do objeto.

As peças são criadas entre consumidor e design mediante uma experiência criativa que tem dado resultado. E muito alinhada ao desejo atual autoral na recepção e uso do objeto, seja design ou artístico. Bem como, no caso da arquitetura, do fundamento sobre o qual se concebe o viver uma casa.

Um dado manifesto no trabalho do jovem Filipe: atenção aos mais diversos vetores de influência. Vale abrir um parenteses o fato de Bulhões ter tido pais incentivadores da imersão em artes, ética e história. "Tenho referência de muita coisa no meu trabalho, não sei se conseguiria definir, ou talvez prefira não tê-la definida. É um universo muito particular que tento completar com tudo aquilo que chama minha atenção - que envolve desde as soluções de construção seca dos australianos, ao mobiliário italiano e paisagismo brasileiro. Quando pequeno, meus pais, mesmo sem querer, me incentivaram muito a ter interesse por arte e história da arquitetura, sempre me mostrando museus, prédios e esculturas".

O universo de Filipe é pura imersão criativa. Victor, irmão caçula, é artista plástico. Rafael, o irmão mais velho, é músico. Em São Paulo, os irmãos se uniram à criadores de moda, artes visuais e música. De Natal, passando por Arizona, Pipa e São Paulo, o horizonte instiga experimentações de formas e representação. Depois de um ao tão intenso. Filipe pretende se dedicar, agora em 2019, em projetos de casas de lazer, se dedicar ainda mais às esculturas, buscar novos materiais. "Sou muito jovem e tenho pouquíssimo tempo de carreira, mas, durante esse tempo que passei a me dedicar à criação e produção dentro desses três universos do meu trabalho (arquitetura, escultura e produto), entendi que essas três etapas às quais você se refere funcionam como um tripé e uma precisa da outra para se sustentar. Procuro ser questionador e estabelecer filtros para entender melhor as necessidades do projeto", diz Filipe. Ao que parece,  2018 é um esboço de um futuro. 

*Augusto Bezerril é colunista de moda na Tribuna do Norte


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