O deserto exportando água

Publicação: 2021-01-23 00:00:00
Ronaldo Fernandes
Engenheiro Agrônomo

O título parece estranho, mas o fato é verdadeiro. Graças a ciência, tecnologia e vontade de um país e de seu povo, em superar sua principal limitação – a deficiência hídrica. Israel, a pequena nação do Oriente Médio (22.145km²), dona de um território extremamente seco, vem dando um exemplo na obtenção e gerenciamento da água. É evidente que suas condições peculiares, sobretudo no que tange a tamanho, educação e povo consciente foram fatores essenciais. Em livro que li recentemente, “Faça-se a água” do escritor Seth M. Siegel, é descrito como a nação israelense resolveu seu principal problema e hoje tem água em abundância, inclusive, abastecendo vizinhos palestinos e a Jordânia para quem fornece anualmente 53 bilhões de litros. 

No que pese os permanentes problemas políticos, em cerca de 70 anos foi construído um país desenvolvido e militarmente forte. Sem dúvida, é digno de registro, a ajuda americana que nunca faltou. Na verdade, é um ponto estratégico do mundo ocidental, face aos países árabes. 

Voltando ao livro, vale a pena conhecer o que nos diz o autor. Um importante aspecto refere-se a educação. As crianças aprendem em casa e na escola que água é um bem escasso e fundamental. A quantidade de água à poupar não é medida em metros cúbicos, nem litro. “Trata-se de economizar gotas e reutiliza-las tantas vezes quanto possível”. Esse conceito fixa-se na mente da pessoa para toda a vida. Outra medida decisiva foi a legislação aprovada, determinando que a água é propriedade do estado com controle centralizado. (Lei das Águas, 1959). Conforme avulta: “Nenhuma das decisões dos pioneiros sionistas e do jovem Estado de Israel, teve maior impacto a cultura hídrica israelense que a decisão de fazer da água propriedade comum de todos”. Ao mesmo tempo, é inegável os trabalhos de pesquisa, desenvolvimento e instrumentos de execução. Existe em funcionamento uma Transportadora Nacional de Águas que além do abastecimento urbano, permite a irrigação de áreas no deserto. Outras realizações elencadas são as usinas de beneficiamento de água salgada e de esgotos, e sua reutilização. O autor mostra ainda que o país conseguiu uma conquista inédita... “Considera a água importante demais para ser deixadas a volubilidade dos políticos... Foi criada uma estrutura reguladora tecnocrática com autoridade centralizada. Dessa maneira, Israel blindou-se deixando a política fora das decisões envolvendo a questão hídrica”. 

É de conhecimento geral, que a maior pressão por água é feita pela agricultura irrigada em todos os continentes. Deve-se a ciência israelita, a tecnologia da irrigação localizada, capaz de economizar até 60% em comparação com os métodos tradicionais de inundação ou infiltração. O livro em tela narra em detalhes como tudo aconteceu e vale a pena se conhecer. De forma resumida, foi assim: “Ao visitar uma fazenda para supervisionar a escavação de um poço, o engenheiro hídrico Israel Simcha Blass percebeu uma anomalia em uma fileira de árvores plantadas ao longo de uma cerca. Uma das árvores era muito mais alta que as demais e todas elas eram da mesma espécie e expostas a iguais condições. Perguntou-se: “Porque uma cresceu tão robustamente¿”. Dando volta ao redor da árvore, Blass achou um pequeno vazamento em um cano metálico de irrigação perto da base da árvore. Suspeitou que essas gotas pequenas, mas contínuas de água, caiam nas raízes da árvore, sendo possivelmente a causa do crescimento superior”. Pelo exemplo, uma observação de campo originou uma tecnologia de grande eficiência para reduzir o consumo e tornar a água mais eficiente. Somente décadas depois do ocorrido, que se deu no início nos anos 30, foi iniciada a produção e o comércio de equipamentos e dispositivos para a irrigação localizada via gotejamento. Hoje a lição narrada está espalhada onde se irriga principalmente na fruticultura. Com esse método, a água alcança as raízes em pequenas quantidades garantindo absorção, reduzindo perdas por evaporação e contribuindo para elevar o rendimento da cultura existente. Em maior ou menor grau, os produtores do RN, conhecem e usam essa tecnologia e nossas frutas estão ganhando o mundo. 










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