O dia é o que se deve salvar

Publicação: 2018-05-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Lívio Oliveira
Advogado público e escritor

É quando nasce o dia que a mente fica elétrica.
Todas as preocupações e ocupações assumem forma na algaravia interna. Preciso descer e experimentar a algaravia dos pássaros, o que me permitirá liberar os pensamentos, uma espécie de reorganização. Transferir a eletricidade do cérebro para pernas e braços. E construir a obra nova de cada dia. Repartir e comer o pão novo da esperança, tomar o café cheiroso a exalar os perfumes e ares limpos do dia ainda ameno e pacato. Alimentar-me da fé que saúda e salva as horas sagradas do dia.

Aqui perto há uma praça. E há árvores na praça e pássaros nas árvores. Os pássaros fazem festa de manhã cedo e eu me alegro. Desço e vou até a praça. E caminho. Caminho entre os pássaros, que ainda cantam. Ainda há árvores na praça, onde saltitam os pássaros de todas as cores. A praça ainda há. E me alegro. De novo.

Há algo de nervoso nesse trânsito.
Persegui, nos momentos do dia em que estive dirigindo, um sossego e uma calma impossíveis. Não adianta estar encapsulado num automóvel com ar-condicionado. O nervosismo dos demais transeuntes, motorizados ou não, contamina. É aquela coisa de correr e disputar espaços na cidade. E de chegar a lugar nenhum. Mas é porque a busca ainda não acabou e há sempre um tanque de gasolina que seca e um reservatório de experiências e esperanças que se renova e se preenche uma outra vez. Afinal, é preciso salvar o dia. Todo dia.

Contemplei, durante quase todo o dia, as mudanças das nuvens.
Esqueceram de colocar essa matéria no curriculum da escola. Acontece que os poetas lembram sempre de fazê-lo: mirar ali e acolá, na espera de um casamento entre as horas e a beleza. Os sustos são tantos, as maravilhas se multiplicam e os olhos de quem percebe mudam de cor centenas de vezes, tantas quantos forem os acontecimentos milagrosos percebidos.

Já é noite alta e recordo o que foi feito e dito.
O dia escorreu pelas mãos e seguiu em direção ao mar. Como se fosse o rio das horas, abriu a porta do oceano e escoou em direção à África e à Europa. O dia foi buscar as ancestralidades e redefinir a história da minha humana natureza. Resto, mais uma vez, aguardando o reinício cronológico da existência, para inaugurar novas vivências. Logo surgirá o dia novo. Estarei desperto e pronto para servi-lo e salvá-lo.


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