O diploma do Prêmio Camões

Publicação: 2019-10-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Ivan Maciel de Andrade                                                                                                           
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

Há uma indagação de Honoré de Balzac em “O pai Goriot” que conduz a muitas reflexões: “Que é mais triste de ver, cérebros vazios ou corações ressequidos?”. A recusa em assinar o diploma do Prêmio Camões concedido a Chico Buarque somente pode ser atribuída à hipótese de um “cérebro vazio” de informações sobre a cultura brasileira. É inadmissível negar a importância de Chico Buarque para a história de nossa música popular e para a ficção brasileira contemporânea. O fato dele ser de esquerda ou petista ou lulista não diminui em nada o valor de sua contribuição como compositor ou como romancista. Isso é óbvio. Suas posições políticas devem ser respeitadas até mesmo em nome da liberdade de pensamento, princípio fundamental de qualquer regime que se pretenda democrático.

Fatos desse tipo eram muito frequentes durante o período da história dos EUA conhecido como macartismo (de 1950 a 1957) – no auge da “guerra fria” entre Estados Unidos e União Soviética. Hoje se torna ridículo querer ressuscitar uma campanha de combate e perseguição (caça às bruxas) a comunistas. Será que existe alguma potência estrangeira interessada em implantar o comunismo em nosso país? Qual seria essa potência? A China, que é a única “potência” controlada por um partido que se diz comunista, adere gradualmente ao capitalismo. O país dos Castro não está incluído sequer entre os emergentes e tenta sobreviver a duras penas ao embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. E a Venezuela agoniza nas garras de um governo militar que mantém o ditador Maduro como testa de ferro. Nem os EUA se preocupam mais com a chamada “ameaça vermelha”. Afinal, pesa sobre Vladimir Putin a acusação de ter interferido na última eleição estadunidense para ajudar Trump. 

Chico Buarque é e deve ser motivo de orgulho nacional. Primeiro, devido a seu acervo de composições poético-musicais, que, pela letra e melodia, encantaram e continuam fascinando diversas gerações de brasileiros. Nossa genial romancista Clarice Lispector dizia que se curava da tristeza ouvindo e reouvindo “A banda” de Chico Buarque. Depois, a sua obra de ficcionista tem merecido elogios entusiásticos da crítica e vem despertando o interesse e aplauso de leitores de vários países.

Para se contrapor a uma homenagem internacional prestada ao compositor e ficcionista Chico Buarque é preciso que haja não só desinformação cultural como também insensibilidade (um “coração ressequido”, segundo Balzac). Como já diagnosticou em velhas épocas Dorival Caymmi: “Quem não gosta de samba / Bom sujeito não é / É ruim da cabeça ou doente do pé.” Inúmeras composições de Chico Buarque – ninguém em seu juízo perfeito contestará, por maior que seja a polarização mantida pelo grupo ocupante do poder – já se incorporaram ao valioso patrimônio lírico da MPB. Contra ele há o ressentimento dos defensores das torturas e dos torturadores. Não perdoam suas músicas de luta e protesto contra a ditadura de 64, como “Apesar de você” – uma espécie de hino da redemocratização.

Escritores brasileiros e estrangeiros se propõem a assinar simbolicamente o diploma do Prêmio Camões em substituição a quem deveria assiná-lo. Gesto que engrandece ainda mais Chico Buarque.   





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