O discurso e o rifle

Publicação: 2019-12-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Domingo passado transcrevi aqui trechos do discurso que Fernando de Mello Freyre, então presidente da Fundação Joaquim Nabuco, fez em Natal (dezembro de 2002) quando a instituição entregou o título de “Pesquisador Emérito” ao etnógrafo Oswaldo Lamartine de Faria, solenidade realizada na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, que este ano comemora o centenário de nascimento do homenageado.  Hoje, associando-me a estas homenagens transcrevo, para o deleite do leitor,  as palavras de agradecimento do grande Oswaldo Lamartine, nome maior de nossa cultura, um grande brasileiro, senhor de nossos sertões.
Sem maiores arrodeios, sempre arredio a solenidades e homenagens tais, Oswaldo começou o discurso, curto e direto, assim:

“Caí nessa tocaia.

Conspiração de amigos encabeçados pelo professor Fernando Freyre – gente das ribeiras do Capibaribe. Herdeiro ele é da sabença do pai que espiava pelos buracos das fechaduras nas ‘casas grandes & senzalas’. E filho de maracajá nasce pintado... É que ali havia um rei do saber, do dizer e do escrever. Sombra de gameleira que acoitava e sombreava o relento da nossa ignorância.

Lá naqueles Apipucos se arranchou o filho: entre livros, memórias e professores, gente que envelhece entre amarelados papéis arrebanhando e repartida sabedoria. Daí esse meu gaguejar de agrado em mote de cantador: “Quem beija a boca do filho / adoça a boca do pai”.

E tanto tem engenhado essa gente por esse mundão de meu Deus, que, inda agora, foi concedido a Fundação Joaquim Nabuco o prêmio multicultural do jornal O Estado de São Paulo.

Veio com ele esse ‘guerreiro do sol’, Frederico Pernambucano de Mello – moço fidalgo que se fez douto e escriba em rastejar, saber e compreender os ‘heróis e bandidos’ da caatinga sertaneja.

E de tanto engenharem me botaram agora essa tocaia: um título que é muito mais dos que me desasnaram das coisas que escreve, do que meu: do finado Pedro Ourives e do seu filho Chico Lins – nas artes do couro; do mestre Zé Lourenço em açudar águas; de Chico Julião em rastejar abelhas; de Bonato Liberato Dantas e seu irmão Ramiro nas pescarias de açude, e do vaqueiro maior do Camaragibe, Olintho Ignácio.

Já estou velho, mouco, de vista curta e de passada miúda. Daí me rendo e entrego a VCM Frederico Pernambucano de Mello, esse rifle 44, que foi de Pilão Deitado, cangaceiro do Cap. Antônio Silvino, finado no fogo da Fz. Pedreiras em 1901.

É agrado de meu sobrinho Pery Lamartine e dele sou apenas estropiado portador. Tome! Receba pelo coice! E venha de lá um abraço.

Obrigado a VCMs”.

Viva Débora!

Dica de uma boa leitura: o artigo que a professora Débora Araújo Seabra de Moura, natalense da gema para nosso orgulho, publicou esta semana na Folha de S. Paulo, edição do dia 3, terça-feira. Título: “Sou professora de crianças:  realizei o meu sonho”. Começa assim:

“Tenho síndrome de Down e 38 anos. Moro em Natal, sou professora e atuo como auxiliar de desenvolvimento infantil na educação infantil em uma escola particular.

“Fiz vários estágios buscando descobrir minha profissão, dentro do Programa de Ação Dignidade da nossa Associação Síndrome de Down. Mas foi num estágio na educação infantil que me apaixonei por esse trabalho e disse para mim mesma e para minha família: ‘É isso que quero. Ser professora de criança’.”

Débora, que já publicou um livro, é professora da Escola Doméstica de Natal.
Livro  A editora Z, de Osair Vasconcelos, lançou ontem o livro A Macaíba de cada um – antologia de crônicas. Reúne escritos de vários escritores locais, conterrâneos de Auta de Souza, só que da geração dos anos 50/60. Entre eles, Valério Mesquita, Nássaro Nasser, Cícero Macedo, Olímpio Maciel, Odileia, Paulo Leiros, Beto Josuá, Romeu   Bezerra, Batista Pinheiro, Costinha e Anderson Tavares.  A festa foi na Casa de Cultura de Macaíba.

Mais livros

Terça-feira, 10, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, a partir das 18 horas, será lançando Em busca da alma brasileira, biografia de Mário de Andrade escrita pelo jornalista e escritor mineiro Jason Tércio, autor do romance A pátria que o pariu.

Também no mesmo dia, mas agora no Bardallos, da Rua Gonçalves Ledo, Cidade Alta, acontece o lançamento Crônicas da Praia do Meio, de Antonio Stélio, edição do Sebo Vermelho. Ás 19 horas.

De Diógenes   Na quarta-feira, 11, será a vez de Diógenes da Cunha Lima autografar o seu novo livro: Natal de Zé Zus. O lançamento ocorrerá na Livraria Manimbu, rua Açu, 666, coisa das 18 horas.

Otávio

Perdemos Otávio Lamartine, que se encantou segunda-feira, 2/12, aos 84 anos de idade. Dentista, atleta, administrador, fazendeiro, um homem de bem, cordial e afetuoso. Namorador.  Era o diretor administrativo e financeiro do Hospital Varela Santiago, fundado há 102 anos pelo tio Varela Santiago e dirigido por décadas pelo pai, médico Silvino Lamartine de Faria.

Atleta, foi remador do Centro Náutico Potengi, tenista do Aero Clube do Rio Grande do Norte, jogador de futebol do América Futebol Clube (atacante). Praticou também o voleibol. Campeão em todas essas modalidades.

Tanto quanto praticar esportes, gostava da atividade rural, criador de boi na Fazenda Riacho do Cedro, vizinho de cerca da Fazenda Acauã, do tio Oswaldo Lamartine, no município de Riachuelo, as mesmas trilhas do avô Juvenal Lamartine de Faria (Fazenda Lagoa Nova). Ribeiras do Potengi.

Fomos amigos por quase 70 anos, derna das conversas da Praça Pedro Velho às esticadas ao Grande Ponto, casas da Ribeira, passagem pelo bloco carnavalesco Jardim da Infância, cuja confraria ainda, aqui e acolá, se reúne com algumas ausências (agora mais uma). Servimos ao Exército no mesmo ano, recrutas de 1955.  Tropa que marcou época naquele 16º R.I. Vou me lembrando de alguns deles: Varela Barca, Berilo Wanderley, Tota Zerôncio, Márcio Marinho, José Mesquita Filho, Ronaldo Maranhão, Aildo Gibson, Hélio Ribeiro, Walderedo Nunes, Guilherme Tinôco, Almir Paiva, José Daniel Diniz, José Erb Ubarana.

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