O diversificado sabor do crescimento

Publicação: 2010-10-31 00:00:00
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Sílvia Ribeiro Dantas
Repórter de Economia

Muita vontade, talento, dedicação e tino empresarial, acompanhados de uma boa pitada de sorte. Essa é a receita das pequenas lanchonetes, que estão tomando conta de Natal e já representam o 4º setor que mais ingressa no Programa Empreendedor Individual através do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com 205 adesões entre os meses de fevereiro e agosto deste ano.

Sanduíches são um dos principais produtos vendidos em negócios informais e é cada vez mais comum o crescimento desse tipo de estabelecimentos na capital potiguarOs produtos comercializados nesses estabelecimentos são os mais diversos. De sanduíches a açaí, passando por pastel e crepe, as calçadas da capital do estado abrigam cada vez mais microempresários, em busca de se firmar no mercado, atraindo a clientela pelo preço acessível e bom atendimento. E, assim como as pequenas lanchonetes, as histórias de sucesso também são fáceis de encontrar.

É o caso do Tanticos, que começou como um carrinho de cachorro-quente há cerca de 10 anos e hoje contabiliza quatro pontos em Natal, além de abrir uma filial na badalada praia de Pirangi durante o período de veraneio. O fundador do negócio, Francisco Alves, lembra que comprou o seu primeiro carrinho buscando uma forma de  obter renda, por estar desempregado. “Saquei meu fundo de garantia e no dia 13 de agosto de 2001 comecei a trabalhar com o carrinho de cachorro-quente, na Hermes da Fonseca, em frente a um cursinho de inglês”, destaca Francisco Alves, o Tantico.

O empresário conta que começou trabalhando sozinho, vendendo apenas o cachorro-quente  tradicional e hoje, mesmo com todo o crescimento do seu negócio, esse sanduíche continua com o posto de carro chefe da lanchonete. Para Alves, isso se deve ao fato de além de gostoso o sanduíche ser barato, já que custa R$ 2,50. “No carrinho, era apenas aquele sanduíche com pão, salsicha, carne moída, frango desfiado, milho, ervilha, batata palha e queijo ralado, além, claro, das bebidas para acompanhar. Só começamos a fazer outros tipos de sanduíche quando abrimos a lanchonete em um prédio, o que ocorreu em abril deste ano”, detalha.

Com a escolha de pontos próximos a cursinhos e faculdades, nos primeiros anos de atividade, a clientela da lanchonete era composta basicamente pelos alunos e funcionários dessas instituições de ensino, mas com o tempo o perfil foi se diversificando. Atualmente, mesmo com o forte ainda sendo os jovens, cada vez mais profissionais, de diferentes áreas de atuação, começam a frequentar o estabelecimento. “Ao longo dos anos, os pais dos nossos clientes passaram a também comprar o lanche. Acredito que isso mostra que o crescimento do Tanticos se deve à qualidade dos nossos produtos”, diz o antigo cliente e hoje sócio do estabelecimento, Felipe Góis.

Internet

Para aumentar a interatividade entre a lanchonete e sua clientela, o Tanticos entrou de cabeça na internet e hoje conta com um perfil no site de relacionamentos no Orkut e outro no microblog Twitter.

Os proprietários da lanchonete acreditam que o ingresso no Twitter, ocorrido  no início da semana passada, fez com que aumentasse consideravelmente o volume de entregas em domicílio. “O nosso público é composto por muitos jovens, sempre ligados com essas ferramentas virtuais, e os clientes mesmo divulgam a lanchonete na rede. O alcance está muito maior do que imaginávamos e já conseguimos mais de 1 mil seguidores, em apenas três dias de Twitter”, afirma Felipe Góis.
Sem dar sinais de acomodação, a dupla de sócios já planeja abrir novas unidades fora de Natal e viabilizar um site do estabelecimento em breve.

Clientes querem qualidade, com preços baixos

Entre os consumidores que frequentam as pequenas lanchonetes, em comum há a busca por produtos de preço baixo, mas sem deixar de lado a qualidade e o cuidado com a higiene.

Para o estudante Carlos Evangelista, o melhor de ir em pequenas lanchonetes é que, mesmo com a qualidade garantida, os produtos são vendidos por preços acessíveis. “Lugares com esse perfil são bons também porque os pedidos saem logo. São perfeitos para quando a gente sai das festas e está voltando para casa”, completa.

O casal Jairo e Elisa Belmonte costuma tomar açaí pelo menos uma vez por semana e diz que prefere um local pequeno, voltado a comercializar apenas esse produto. De acordo com eles, assim, o serviço fica mais especializado, sendo executado de  uma forma que preza pelo sabor e pela qualidade no serviço. “Temos esse hábito há cerca de dois anos e normalmente vamos tomar o açaí no início da noite, logo após o jantar”, contam.

Ao contrário do casal, a estudante Ana Karla França estava em uma dessas lanchonetes pela primeira vez, na noite da quarta-feira passada. Após terminar o seu lanche, ela disse que deveria voltar ao local mais vezes, já que tinha aprovado tanto o serviço, quanto o sabor do sanduíche escolhido. “Encontrei bom preço, qualidade, praticidade e um atendimento bom. Para mim, está aprovado”, conclui.

Bom momento também entre as franquias

Os bons resultados do setor de alimentação podem ser vistos também em empresas de grande porte, em todo o país. De acordo com um estudo feito pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), em parceria com a ECD consultoria especializada em food service, no Brasil as franquias de alimentação cresceram 17,4% em 2009 e a expectativa para 2010 é fechar o ano com um incremento de 18,8%. Além disso, o faturamento anual apenas das lojas de alimentação é de R$ 11,8 bilhões, representando 18,7% do faturamento do setor.

Dentro do setor, as franquias de sanduíches formam o segmento com maior faturamento médio por loja em 2010, registrando uma arrecadação mensal média superior a R$ 340 mil, bem acima da média de R$ 186 mil por loja, no geral. Em termos de participação, o segmento de sanduíches lidera com 69,8% e é o setor mais expressivo no faturamento.

Distribuição

De acordo com a pesquisa da ABF, o Nordeste brasileiro concentra 7,8% das unidades franqueadas de alimentação de todo o país, enquanto o Sul contabiliza 12% das unidades e o Sudeste, com 67,5%, tem a maior participação.

Considerando todas as regiões, o local com maior concentração desse tipo de franquia são os shopping centers, mesmo com os custos de mais altos para manter uma loja nestes estabelecimentos, em comparação com pontos de rua e galerias.

Empresário planeja expandir negócio

Mas nem só de sanduíches vive o mercado de alimentação de Natal e um dos produtos que fazem grande sucesso, principalmente entre os jovens da cidade, é o açaí.

Essa percepção levou o empresário Emerson Medeiros, mesmo sem qualquer formação específica na área, a abrir a primeira unidade do Amantes do Açaí, em 2006. “O estabelecimento foi inaugurado com quatro mesinhas na calçada e quatro anos depois já são dois pontos, empregando vinte funcionários, sendo todos registrados”, compara.

Pensando em atrair uma clientela diversificada, a casa disponibiliza grande diversidade de coberturas, incluindo algumas voltadas para os amantes do futebol. Nesse caso, há pratos confeccionados com as cores do time de preferência, sendo o do América com cobertura de morango e para os ABCdistas a cobertura é de chocolate.

Cuidados

Medeiros ressalta que, para manter o padrão dos alimentos e conquistar a confiança dos clientes, investe também na apresentação, mantendo um cuidado constante com a vestimenta dos garçons, higiene de mesas e banheiros. “Prezamos por bom atendimento, comodidade, e principalmente pela qualidade dos produtos. Costumo dizer que a qualidade dos nossos produtos depende 50% dos fornecedores e 50% da nossa equipe e, por isso, escolho sempre o melhor para o cliente”, afirma.

Mas além de vender, Emerson Medeiros também é um consumidor do principal produto das suas lojas. Ele conta que é usuário do produto há 9 anos e acredita que esta febre não se deve apenas ao sabor diferenciado, mas também às vitaminas encontradas na fruta e aos benefícios proporcionados à saúde.

Atualmente, o empresário cursa uma faculdade de administração, ao mesmo tempo em que toca as suas duas unidades, localizadas na Zona Sul da capital, que além do açaí oferece pratos como crepes e tapiocas. Em um futuro breve, ele planeja expandir seu negócio, abrindo uma unidade em Mossoró e outra em João Pessoa. “Estou na fase de procurar possíveis pontos nesses locais, mas o certo é que investirei na expansão”, garante.

» Bate-papo
» Sandra Martins
Gestora do EI no Sebrae RN

“É possível se planejar para abrir um negócio”

As pequenas lanchonetes ganham cada vez mais espaço em Natal. Tem aumentado a quantidade de microempresários desse setor que se formaliza?
Certamente. Como o programa Empreendedor Individual (EI) começou em fevereiro deste ano, não temos como fazer um comparativo com anos anteriores, mas posso dizer que até o mês de agosto um total de 205 microempresários do ramo de alimentação se inscreveram no programa, em todo o Rio Grande do Norte.
 
Com esse número, como o setor pode ser classificado? É um dos que mais formaliza?
Sim, o setor de alimentação é um dos maiores do EI e fica na quarta posição entre aqueles que têm maior adesão. Os três primeiros setores são vestuário, beleza e mercadinhos.
 
A que se deve essa multiplicação de pequenos empreendimentos do setor?
Em grande parte, isso ocorre porque a estabilização econômica do país permite um planejamento financeiro. Dessa forma, mesmo com pouco dinheiro, é possível se planejar e investir na abertura de um negócio.

Qual a vantagem de aderir ao Empreendedor Individual?
Através do programa, cabeleireiros, manicures, pedreiros, motoboys, artesãos e outros profissionais que trabalham por conta própria podem formalizar o seu negócio como uma pequena empresa. Assim, além de usufruir dos benefícios previdenciários, eles terão mais facilidades para gerir seu pequeno negócio, com orientação empresarial e acesso facilitado ao crédito.
 
Quais empresários se enquadram no perfil de Empreendedor Individual?
Aqueles cujo faturamento é de até R$ 36 mil por ano e que não participem como sócio ou titular em outra empresa.

Alimentação

Confira alguns dados do setor de alimentação do Brasil.

No Rio Grande do Norte, o total de 6.578 adesões ao Programa Empreendedor Individual realizadas entre fevereiro e agosto deste ano, 205 foram de empresários do setor de alimentação.

Em setembro de 2008, a Junta Comercial do Rio Grande do Norte (Jucern) contabilizava 2.162 empresas do setor de alimentação no estado. Já em setembro deste ano, o total de empresas registradas na Jucern era de 3.161

Entre setembro de 2008 e o mesmo mês de 2010, o volume de empresas de alimentação registradas na Jucern apresentou um crescimento de 46%

Em todo o Brasil, as franquias de alimentação cresceram 17,4% em 2009 e a expectativa para 2010 é chegar a um incremento de 18,8%, em relação ao ano passado

O faturamento anual dessas franquias em todo o paísé superior a R$ 11,8 bilhões, o que representa 18,7% do faturamento do setor.

As franquias de sanduíches formam o segmento com maior faturamento médio por loja em 2010. A arrecadação mensal média desse segmento é superior a R$ 340 mil, bem acima da média de R$ 186 mil por loja, no geral.

Fontes: Sebrae / Jucern / Associação Brasileira de Franchising (ABF)

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