O empresário das figurinhas

Publicação: 2019-11-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Houve um tempo em que colecionar álbum de figurinhas dava mais trabalho que hoje em dia. Mas também proporcionava um pouco mais de aventura e exercício lúdico, posto que existiam as chamadas figurinhas difíceis ou as desejadas “premiadas”. Uma Lei do começo dos anos 70 proibiu às editoras a circulação de álbuns com premiação e a impressão das figurinhas dificeis, que tinham uma menor quantidade de exemplares distribuídos nas bancas. Isso reduziu a graça do ritual dos trocas trocas.

Havia três grandes pontos (o trocadilho é involuntário) de encontros para as negociações das figurinhas: na calçada do Cine Rex, em frente à livraria O Templário e na cigarreira de “Seu Tributino”, nas esquinas das avenidas Rio Branco e João Pessoa.

O dia, para mim, era dividido entre o horário de aula e o horário das figurinhas e revistas em quadrinhos. Ou seja, se eu não estava na escola, estava certamente correndo de uma banca à outra, até que meu pai encerrasse o expediente numa das lojas da rua.

Um dia eu vi o moço chegando pela galeria do Edifício Barão do Rio Branco. Magro, um tanto calvo, camisa simples de algodão, uma calça de gabardine infestado e uma bolsa verde musgo debaixo do braço, daquelas com um fecho ecler de ponta a ponta.

Aquele cara, um homem que presumo tinha uns trinta e poucos anos, já com os descontos do aspecto empobrecido que envelhece as pessoas, era a figura mais importante dos meninos que se dedicavam a preencher álbuns naqueles anos.

Jamais soube seu nome, todos chamavam apenas de “Peixinho”. Talvez ele nunca tenha percebido, mas naquele tempo sem globalização e sem a fama instantânea e inútil da mídia internética, sua fama ia da Rio Branco até os bairros periféricos de Natal.

Em casa, colando os cromos com o grude da minha mãe Nenzinha e com a ajuda do meu pai Luiz Cleodon, bastava descobrir que uma figurinha que faltava era difícil e o nome de “Peixinho” vinha na ponta da língua. E no dia seguinte ia ao encontro dele.

Ao contrário de todos nós, ele não colecionava álbuns, apenas comprava muitas figurinhas, na verdade um investimento para sua sobrevivência. Sem emprego, “Peixinho” vivia das figurinhas dificeis e das figurinhas carimbadas.

O seu lucro advinha das trocas, que tinham critérios bem estabelecidos. Uma figurinha que faltasse para encher página valia, por exemplo, 10 duplicatas das comuns. Se fosse para ganhar prêmio do álbum “Olé”, o valor agregado subia para 20 cromos.

Quando a adolescência impôs novos interesses, deixei de frequentar as cigarreiras da Rio Branco e nunca mais soube de “Peixinho”. Torço para que os negócios das figurinhas tenham lhe ajudado na sobreviência da sempre cada vez difícil vida.

Nos trocas trocas atuais, sem a artimanha editorial das figurinhas difíceis, não haveria espaço para gente como “Peixinho” ganhar um troco a mais. Ele é mais uma figura importante na minha formação, um cara que proporcionou emoções que fizeram a pobreza da infância menos difícil.

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