O encontro póstumo de Tico da Costa com as filarmônicas

Publicação: 2018-12-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Foi numa expedição ao lado do regente e saxofonista paraguaio Palito Miranda pelo interior do RN que o brilhante músico potiguar Tico da Costa descobriu encantado o fenômeno das bandas filarmônicas do Seridó. O ano era 2005. A efervescência musical da região fervilhou de ideias a cabeça inquieta de Tico. Infelizmente, sua morte em 2009 interrompeu os planos de parceria com as bandas do interior. No entanto, em 2018 um projeto surge para não apenas realizar postumamente a aproximação das bandas com a obra de Tico da Costa, como também para reverberar ainda mais o legado musical daquele que é um dos artistas potiguares de maior carreira no exterior.

Encantado com o fenômeno da música instrumental no interior, Tico da Costa esboçou, em 2005, a ideia de um livro de partituras
Encantado com o fenômeno da música instrumental no interior, Tico da Costa esboçou, em 2005, a ideia de um livro de partituras

O projeto em questão é o songbook “Tico da Costa para filarmônicas”, uma realização da produtora cultural Sara Fracchia, viúva de Tico. A obra é um livro de partituras e está dividida em dois volumes, totalizando 840 páginas. Estão reunidas 15 composições que evidenciam a versatilidade do músico. Há desde baião até samba, passando por ciranda, maxixe, xaxado, xote, balada, frevo e maracatu. Os textos de apresentação são do maestro Bembem Dantas (Filarmônica de Cruzeta) e do escritor e pesquisador musical Cláudio Galvão.

Cada peça traz partituras para os diversos instrumentos que compõem uma banda filarmônica. A adaptação das músicas é dos arranjadores Luiz Carlos Lima (maestro da Filarmônica de São José do Seridó e arranjador da Sesi Big Band) e Mizael Cabral (maestro da Filarmônica de Timbaúba dos Batistas). A publicação foi viabilizada pelo edital de Economia Criativa do Sebrae.

O lançamento do livro também envolve uma série de concertos com seis filarmônicas do estado em suas cidades sedes, mais uma apresentação especial em Natal, com uma banda formada por músicos das seis filarmônicas parceiras. Os lançamentos em Cruzeta e São José do Seridó já aconteceram. O próximo será em Natal, no domingo (9), às 16h, no Parque das Dunas. Ainda em dezembro, recebem o lançamento os municípios de Carnaúba dos Dantas e Timbaúba dos Batistas, nos dias 21 e 22, respectivamente. Os outros lançamentos ficam para o primeiro semestre do ano que vem.

Segundo Sara Fracchia, a maior parte das composições do livro são inéditas no RN. Mas há canções conhecidas como “Os Cumprimentos”, escrita quando Tico tinha 19 anos, e “Lagartixa”, uma metáfora sobre o homem do Nordeste. “Deixamos que as próprias bandas selecionassem as músicas. Algumas não conheciam o trabalho de Tico, então escolheram baseado nos discos [o músico tem 18 álbuns lançados, a maioria no exterior]”, diz a produtora. “Foram escolhidas as músicas que tinham mais a cara do Tico, que é uma cara alegre”.

Em dois volumes, songbook Tico da Costa reúne 15 composições com arranjos para vários instrumentos
Em dois volumes, songbook Tico da Costa reúne 15 composições com arranjos para vários instrumentos

Sara comenta que embora Tico tenha vivido muitos anos fora do país, ele nunca perdeu a identidade musical brasileira. “Tico sempre defendeu a riqueza polirrítmica do Brasil, especialmente os sons do Nordeste. Nos seus discos gravados fora do país e nas suas apresentações pelo mundo ele fazia questão de mostrar outros ritmos além do samba e bossa nova. Tocava os ritmos nordestinos, a MPB, chorinhos”, conta Sara, que também informa que dentre as mais de 2 mil composições do artista, há peças sacras, natalinas e instrumentais. “Ele compunha todo dia. E tudo ele registrava em partitura. Era ultra organizado. Mas só na música”.

Para 2019, um curta-metragem, novo livro e circulação pelo Nordeste
Em 2019 completa-se 10 anos da morte de Tico. Para lembrar o músico, Sara está preparando uma série de ações. Um dos projetos previstos é o lançamento do documentário “Curta Tico”, que traz diversos depoimentos, dentre os quais, um do renomado compositor americano Philip Glass. “Tico e Glass eram amigos íntimos. Tico sempre ficava na casa dele quando ia para os Estados Unidos. Glass chegou a dizer que Tico era uma pessoa que se adiantou ao seu tempo e que por isso ainda estava para ser descoberto”, detalha a produtora.

Ainda para 2019, uma nova versão do songbook “Tico da Costa para filarmônicas” será feita, desta vez no formato ebook, com disponibilização gratuita para bandas filarmônicas. A publicação trará partituras para novos instrumentos. “Foi uma sugestão do maestro Bembem para fazer com que a música de Tico circule melhor pelo país. Então vamos incluir as partituras para fagote, baixo acústico e oboé, que são instrumentos típicos das filarmônicas do sul do Brasil”, explica Sara. As apresentações das filarmônicas também serão continuadas em 2019.

Projeto idealizado por Sara Fracchia, viúva de Tico da Costa, foi contemplado no Edital do Sebrae
Projeto idealizado por Sara Fracchia, viúva de 'Tico da Costa', foi contemplado no Edital do Sebrae

Outro songbook também está previsto para ser lançado. Trata-se do “Choro Suíte”, só com composições instrumentais, viabilizado pelo Fundo de Incentivo a Cultural (FIC), da Prefeitura de Natal. E com base no repertório do “Choro Suíte”, um tributo a Tico da Costa circulará circulará pelos centros culturais do Banco do Nordeste.

Também previsto para o ano que vem, há uma grande montagem da peça inédita “Cenas do Rosário”, um auto sacro composto do Tico. O projeto foi aprovado na Lei Djalma Maranhão e está na fase de captação.

Serviço
Lançamento do songbook “Tico da Costa para filarmônicas”

Dia 9 de dezembro, às 16h

Parque das Dunas (Av. Alm. Alexandrino de Alencar, Tirol)

Entrada: R$ 1 (preço de entrada no Parque).

Quem
Francisco das Chagas da Costa, o Tico da Costa, nasceu em Areia Branca, em 1954. É de um família de 16 irmãos. Seu pai era um carteiro conhecido no município. A formação de Tico é de violão clássico, com estudos em Natal, Recife e na Itália, mas seu sonho nunca foi o de ser um concertista. O músico tem sido cada vez mais descoberto no Brasil, uma vez que sua carreira foi construída no exterior, entre Europa e Estados Unidos, onde fez um importante trabalho de divulgação da musicalidade brasileira. Tico morreu em agosto de 2009, vítima de câncer. Ele tinha 57 anos. Deixou como legado 18 discos lançados (6 na Itália, 6 no Brasil, 5 nos EUA e 1 no Paraguai). Seu acervo de composições soma mais de 2 mil peças (muitas inéditas), que aguardam por digitalização para não se perderem.




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