O espelho mágico

Publicação: 2020-11-21 00:00:00
Ivan Maciel de Andrade                                                                                                            
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

Ele tem um espelho mágico: quando se olha nele vê não a sua imagem, mas a de Donald Trump. Chega algumas vezes a dirigir palavras e frases à imagem de Trump: “Pode contar comigo. Até para usar pólvora, se necessário”. Outras vezes, expressa saudações de veneração ao poderoso líder mundial (“I love you”) ou estreita os laços de identidade que os une como fiéis e fervorosos adeptos da ideologia populista de ultradireita. Apesar de Trump nunca responder (a magia do espelho tem suas limitações), a interação é frequente e profícua. Através dela se estabeleceu entre o olhar e a imagem uma verdadeira simbiose. Mas a imagem começou a ficar borrada, tornando-se quase imperceptível.

O que estará havendo com o espelho mágico? Será que ele está se adaptando para projetar a imagem de Joe Biden? Inadmissível. O novo presidente dos Estados Unidos tem obsessão por política ambiental, mudanças climáticas, preservação da Amazônia. Preocupa-se exageradamente, para os padrões do populismo irresponsável de Trump, com a expansão e agravamento da pandemia. Condena a xenofobia que trata imigrantes como párias. Promete assegurar e ampliar a igualdade racial, identitária e de gênero. Exalta a liberdade de imprensa. Propõe-se a restabelecer o respeito à verdade. Submete-se às orientações científicas. É o oposto, em suma, de Trump. Por isso se elegeu.

Enquanto a imagem de Trump não desaparece completamente do espelho, nem boas notícias das eleições municipais de nosso país poderão ser transmitidas ao presidente americano em fim de mandato. Em São Paulo (capital), foi um vexame, um constrangimento: foram para o segundo turno Bruno Covas (o candidato de João Dória, tido como arqui-inimigo político do Palácio do Planalto) e o esquerdista Guilherme Boulos. Celso Russomano, com apoio declarado do presidente da República, ficou em desprimoroso quarto lugar. No Rio de Janeiro, o prefeito Crivella, com apoio explícito também do Planalto, foi para o segundo turno com Eduardo Paes. Inferiorizado, contudo, em volume de votos: a uma distância de Paes difícil de reverter. E os candidatos que utilizaram a logomarca “Bolsonaro”?

Dos 75 candidatos que tinham ou adotaram o sobrenome Bolsonaro, somente um se elegeu. Exatamente o filho do presidente, Carlos Bolsonaro, mesmo assim com 30% de votos menos do que recebeu na eleição anterior, sendo desbancado no pódio de vereador mais votado do Rio de Janeiro.

Mas a tristeza maior que o espelho mágico não mostra é a derrota de Trump nos Estados Unidos. A ascensão do partido Democrata, sob a liderança de Joe Biden e Kamala Harris, representa o clímax, o momento culminante, do movimento de contenção e refluxo da onda de populismo de extrema direita que se espalhou por vários países, como incontrolável tsunami, ameaçando afogar a democracia. A partir de agora as bravatas e fanfarronices de Trump cairão cada vez mais no ridículo.

O mundo ficará livre de Trump pelos próximos quatro anos, torcendo para que ele não volte nunca mais. Em 20 de janeiro de 2021, tomarão posse os novos presidente e vice-presidente dos Estados Unidos. Nessa data o espelho mágico, com certeza, vai se partir, se esfacelar, se desintegrar.  










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