“O esporte me trouxe fortuna”

Publicação: 2012-05-13 00:00:00
Quando fala do esporte, o pugilista Acelino Popó Freitas se mostra empolgado em todos os seus segmentos. Lembra que chegou a passar fome, dormir no chão, mas foi o esporte que lhe trouxe “fortuna, riqueza e caráter”. Aposta no poder transformador do esporte nas crianças e nos jovens. É um defensor da Copa do Mundo no Brasil, mas não esconde a cautela com o gasto público que será gerado para esse evento. O desportista Popó tem data para, oficialmente, deixar os ringues: no mês de junho fará a sua luta de despedida. Confirma que há cinco anos já não luta, mas a despedida agora é também para cumprir uma promessa ao filho de 6 anos que nunca o viu lutar e terá essa oportunidade, justamente, quando ele oficialmente deixa os ringues.
Acelino Popó Freitas: Meu sonho é integrar essa garotada em trabalhos sociais usando o esporte. Ele (o esporte) usa os meios mais sérios e contundentes para a formação de caráter de uma criança.
A empolgação com o esporte não é refletida na nova função de Popó: deputado federal pela Bahia. Ele afirma que depois de ingressar na política aumentou sua decepção com o segmento. No entanto, não pretende deixar a vida pública. Uma mostra disso são os planos que faz: pretende se reeleger como deputado federal e depois buscar uma vaga de senador.

É mais fácil ganhar uma luta ou aprovar um projeto na Câmara? Popó responde de pronto: “É mais fácil a luta, muito mais fácil. Até porque sou eu e meu adversário. Infelizmente, lá é difícil. Eu tenho um projeto desde o ano passado, que é a regulamentação do MMA como esporte e até agora não saiu”, comenta ele, que esteve em Natal participando de um jogo beneficente promovido pelo deputado federal Fábio Faria.

Popó admite que não precisa do esporte como fonte de renda. “Eu, o Romário, o Tiririca não precisamos dela [da política] para sobreviver. Não precisamos do salário de deputado para sobreviver. O esporte nos deu isso. A gente precisa dela [da política] para fazer algo para ajudar as pessoas”, destaca.

Avaliando o fato de muito atletas terem seguido o rumo da política, o pugilista credita isso a própria prestação de serviço a comunidade feita pelos desportistas.

O convidado de hoje do 3 por 4 é um político estreante, um pugilista campeão, uma pessoa de fala simples, um lutador que, pela sua própria trajetória, é testemunha da mudança promovida pelo esporte na vida de um campeão.

Com vocês, Popó:

A atual legislatura tem muitos atletas deputados federais. A que você atribui o ingresso de desportistas na política?

Primeiro eu acho que é o próprio serviço prestado do atleta para a comunidade. A alegria, as as conquistas, glórias, o suor, o sangue derramado por essa nação, pelo povo brasileiro, o reconhecimento contam muito. Eu não sou de família política, não vim de um projeto político. Eu resolvi sair (político) porque é uma época boa, de Copa do Mundo, de Olimpíada. Minha bandeira é o esporte. É o esporte como inclusão social, o esporte é a base. Minha maior preocupação é o legado que as Olimpíadas e a Copa do Mundo vão deixar aqui em termos de esporte, de trabalho social, de emprego e renda para nossa cidade. O nome o Popó como lutador facilitou muito na minha campanha (política). Onde quer que eu vá as pessoas faziam muita foto, as redes sociais ajudaram muito, logo você tirava foto com alguém em um muniípio e logo colocavam em um Facebook, no Twitter, em um Orkut, MSN. Fizeram divulgação boa. O nome, o atleta em si ajudou muito na campanha.

Como atleta você foi campeão e ganhou uma projeção. Na Câmara dos Deputados é você e outros 512. É mais dificil se sobressair nesse ambiente da Câmara do que no esporte?

É mais difícil. Cada um tem um pensamento diferente, a gente vê uma briga tremenda para votar projeto de lei, o Governo com oposição brigam muito. Tem coisas que a gente não entende, tem muita coisa muito interessante que deveria entrar em pauta e não entra. Apesar de eu não vim do lado da segurança, em termos de policiamento, eu sou uma pessoa que luto pela PEC 300 (Projeto de Emenda Constitucional 300, que estabelece o piso nacional do policial militar), que é o reajuste dos policiais, a redução da carga horária de 40 para 30 horas dos enfermeiros é outra bandeira que venho puxando. Também estou buscando regulamentar o esporte que mais cresce no Brasil, que é o MMA. Então a minha bandeira é a do esporte, das pessoas que luta pela gente, que nos protege que nos dá segurança como policiamento. São essas pessoas que eu quero apoiar e ajudar.

O seu ingresso na política tira de cena o atleta Popó?

Não. O atleta eu nunca deixei. Nunca deixei o esporte de lado. Apesar de cinco anos parado, sempre que posso eu treino. Vou fazer uma luta de despedida agora em junho. Não me atrapalha (na função de deputado federal) porque eu pego o horário de almoço para treinar e sempre faço. Sempre tem o futebol dos deputados. Tem as viagens que a gente conhece um ao outro (a promoção do jogo de futebol dos deputados federais). É muito legal essa integração com os deputados.

É mais fácil vencer uma luta como pugilista ou aprovar um projeto na Câmara?

É mais fácil a luta, muito mais fácil. Até porque sou eu e meu adversário. Infelizmente, lá é difícil. Eu tenho um projeto desde o ano passado, que é a regulamentação do MMA como esporte e até agora não saiu. Ele (o MMA) é um esporte que vem crescendo muito e está lá parado. As vezes a gente pergunta por que. É de interesse da população, o esporte muda a vida das pessoas, os três maiores campeões do mundo são do Brasil. O esporte mudou a vida dessas pessoas e você não entende porque esse projeto está parado.

Você pretende seguir uma carreira na política?

Tem horas que eu penso que não.  Quando tem essas coisas, esses atrasos em votação, votar no dia que quer. Quando é de interesse do Governo o projeto é rapidinho aprovado e tudo. Isso me deixa muito chateado. A população sofre muito com isso. Mas eu pretendo sim seguir uma carreira política até porque eu posso ajudar. Em uma simples votação minha, em um simples projeto de lei eu posso mudar a história, posso mudar a vida de muita gente.

Como é o momento vivido hoje pelo Brasil com o MMA?

Acho que sempre viveu. Desde a época do Vale Tudo. A projeção é que ocorreu agora. Nós sempre tivemos os melhores lutadores. O Vale Tudo começou aqui com os Grace. O MMA era dos Grace. E os Grace venderam na época por R$ 2 milhões. Hoje vale R$ 2 bilhões. Então começou com os brasileiros. Nós sempre fomos os melhores em termos de lutas, de esporte.

Você disse que buscou entrar na Câmara dos Deputados por ser um período de Copa. E falando da Copa do Mundo o Brasil não vai pagar muito caro por esse mundial?

Acho que se não tiver uma fiscalização vai mesmo. É preciso observar tudo isso de maneira muito perto. Até porque as vezes você faz licitação e aquele saco de cimento sai muito mais caro. As coisas têm valores absurdos. Eu vi o Panamericano aqui no Brasil, o valor era um depois foi outro completemente diferente. Acho que é preciso ter uma fiscalização, será um sucesso (a Copa do Mundo). O material humano o Brasil tem e sempre teve. Mas acho que é preciso ter uma fiscalização grande em cima de obras, em termos de empreiteiras. É preciso ter uma fiscalização grande.

Você está na política e relata, como fez há pouco, casos de corrupção na própria política. Qual o seu sentimento hoje em relação a política: decepção ou empolgação?

É de decepção. Cada dia é assim. Eu não preciso da política para sobreviver. Eu, o Romário, o Tiririca não precisamos dela (da política) para sobreviver. Não precisamos do salário de deputado para sobreviver. O esporte nos deu isso. A gente precisa dela (da política) para fazer algo para ajudar as pessoas. Quando a gente vê as pessoas se aproveitando da política, do poder, tanta corrupção, tanta coisa a gente fica triste. Mas ali a gente sabe que pode fazer algo diferente, a gente sabe que pode ajudar.

Você se vê em algum outro cargo político?

Me vejo sim. Senador, governador. O resto Deus que sabe. Mas eu pretendo sim. Acho que nas próximas eleições eu pretendo mais quatro anos como deputado e depois tentar senador.

Qual o seu projeto como atleta hoje?

Eu estou com cinco anos parado. Tenho um filho de seis anos que pediu para fazer uma luta para ele porque ele não me viu lutar. Eu comecei a treinar e prometi para ele essa luta. Como não fiz luta de despedida, parei sem ninguém saber que eu tinha parado, até hoje as pessoas perguntam quando eu vou lutar. Será uma luta de despedida, eu vou dar adeus definitivamente ao ringue.

Você dá adeus aos ringues e as boas vindas ao Congresso?

É isso mesmo. As boas vindas ao Congresso, tenho mais três anos para trabalhar.

Qual o seu sonho hoje como deputado federal?

Meu sonho é integrar essa garotada, essa juventude, em trabalhos sociais usando o esporte. Ele (o esporte) usa os meios mais sérios e contundentes para a formação de caráter de uma criança. Meu sonho é colocar essa garotada para fazer esporte. Não tem essa criança que não goste de futebol, que não goste de MMA. Mas elas procuram um espaço, uma oportunidade. Eu passei fome, dormi no chão até os 23 anos. E o esporte mudou minha vida.

Se você tivesse hoje que apostar em algum atleta quem seria?

Tem muitos e de vários Estados. Não pode dizer que é a Bahia. São muitos atletas promissores que o Brasil tem.