O eu da crônica

Publicação: 2021-02-28 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Não faz tanto tempo: tratei aqui do uso do artifício autobiográfico como forma de escrever sobre as grandezas e misérias dos outros. De algum modo, tentei justificar o ‘eu’ que de vez em quando é inevitável na crônica. Mesmo quando, antes, se passa pelo curso de jornalismo e a boa escola da redação, sempre ouvindo que a primeira pessoa pertence a quem declara e não àquele que ouve, anota ou grava as declarações das fontes. É assim, sem dúvida, até se ser cronista. 

Tanto era verdade o que disse que, agora, a pretexto de escrever sobre a sua presença na Folha de S. Paulo, em três tempos diferentes e intercalados, Ruy Castro acabou contando qual foi a condição de Otávio Frias Filho para fazê-lo colunista: “Escreva sobre o que quiser, mas de um ponto de vista pessoal”. Nascia o cronista que foi repórter, redator, biógrafo, vitorioso em tudo, e sempre garantindo a voz exclusiva do declarante. Mas, nas páginas da Folha, não mais. 

Os cronistas sempre sofrem a intolerância de um pobre vezo ou de falsa concepção da importância do confessional nas páginas dos jornais. Como se a crônica já não tivesse nascido assim. Daí ser comum o resmungo dos que se deixam condenar pelo eu narrador e esquecem a narrativa. Vale a história, esteja narrada ou não na primeira pessoa. Muitas vezes, é para salvar o gosto amargo, se por acaso parecer agressão. Eles, os leitores, que puxem ou não as carapuças. 

Bem humorado e dono de um texto primoroso, Ruy Castro confessa que já escreveu para todo tipo de veículo: “jornal, revista, livro, rádio, televisão, teatro, filme, disco infantil, letra de música, encarte de CD, catálogo de artista plástico, agenda, anuário, anúncio, discurso e, pode crer, aviso de falecimento pra ser distribuído na esquina.”. Só faltava bula de remédio, mas um dia seu próprio dentista pediu para ajudá-lo a descrever um novo procedimento a ser lançado. 

Não estou, nem delirando, no time de Ruy Castro, mas acredite: percorri toda a relação de Ruy, exceto bula de remédio. Cheguei perto. Quando meu sogro, Dr. Omar Lopes Cardoso, farmacêutico, pensou em lançar um creme de barbear para alérgicos. Nem sempre o leitor quer saber o que é viver do exercício da palavra, para lembrar o título do livro de Zila Mamede. Nem sempre o redator profissional pode escolher o assunto, os elogios ou os desaforos. Nem sempre. 

Ruy Castro disse que ainda resistiu no primeiro dia. Antes, nunca tinha sido cronista e achou ser fácil o confessional sem cair na primeira pessoa.

Conseguiu nos dois primeiros dias. Logo depois, o ‘eu’ venceu e vive até hoje se intrometendo. Da rendição, ficou um belo serviço à crônica. E é ele, Ruy Castro, no estilo simples e genial, quem confessa a lição que aprendeu como cronista: “A Folha me revelou que, por trás da bic ou do teclado, pode bater um coração”. 

AVISO - Os dias silenciosos e discretos da pandemia vão construindo, pouco a pouco, no olho político das raposas, a suspeita de que o confronto Álvaro versus Fátima será inevitável em 2022.

MACHO - Nas revistas e nas redes, o novo tipo de machão: o Macho Ornamental. O modelo foi fundado por Donald Trump, nos EUA, e já tem no Brasil, com Jair Bolsonaro. Um clone perfeito. 

COMBATE - Esta coluna avisou que mesmo com seu diploma na mão não será fácil a luta do quase deputado Fernando Mineiro para assumir o mandato. Na côrte a luta é surta e contundente. 

SENADO - Quem acompanha de perto a movimentação política do ministro Rogério Marinho, aqui e em Brasília, atesta: deseja ser senador e só disputa o governo com chance total de vencer.

ALIÁS - É como o deputado Ezequiel Ferreira: nada fascina mais a ele do que presidir o Poder Legislativo por mais quatro anos. Ele sabe que hoje é ‘o melhor e mais rico governo’ do Estado. 

JOGO - O Centro de Direitos Humanos partiu na frente, em silêncio, e garantiu o domínio dos direitos autorais das biografias de Luiz Maranhão ao longo de todo 2021, o ano do seu centenário.  

RISCO - Ninguém pode negar ao Centro dos Direitos Humanos o direito nas homenagens, mas não deixa de fazer de Luís uma propriedade da esquerda quando é maior que o campo ideológico.  

MÁSCARA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, mirando bem calmo a máscara das mulheres que passam: “Afasta a peste e revela a eloquência misteriosa dos olhos que falam’.   

VIDA - O historiador Cláudio Galvão partiu para preencher uma das maiores dívidas intelectuais do Estado: a biografia de Antônio Pinto de Medeiros. Como professor, jornalista e o maior e mais mordaz crítico literário do seu tempo. O centenário de Antônio Pinto, 2019, passou em branco. 

VALOR - Doutor em história e pesquisador meticuloso no apuro e confronto de dados, Cláudio teve o cuidado de copiar a coluna ‘Santo Ofício’, de Antônio Pinto, uma leitura referencial dos anos cinquenta e a quem coube o pioneirismo de lançar Zila Mamede e seu livro ‘Rosa de Pedra’.  

TOQUE - Na entrevista a Alex Gurgel e Lívio Oliveira, publicada originalmente na revista ‘Papangu’, quando este cronista tinha o velho dom da crônica lírica e foi instigado a responder sobre o grande segredo para penetrar a alma feminina: “É bater antes de entrar. Com a palavra”. 








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