O exemplo de São Sebastião

Publicação: 2020-01-17 00:00:00
Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo de Natal

Queridos irmãos e irmãs! No dia 20 deste mês, a Igreja faz memória do grande mártir São Sebastião. Um santo muito conhecido, padroeiro do Rio de Janeiro, cultuado entre nós na Paróquia que leva o seu nome, no Alecrim.

Celebrar um mártir significa reconhecer o testemunho valoroso, dado por ele, em honra de Jesus Cristo, por causa da fé redentora e libertadora. A Igreja proclama, na sua Liturgia: “Pelos mártires, que “confessaram o vosso nome e derramaram seu sangue como Cristo, manifestais vosso admirável poder” (MISSAL ROMANO. Prefácio dos Mártires). O poder de Deus se manifesta no testemunho de homens e mulheres que, assim como Cristo, foram capazes de dar a vida por causa da fé. Jesus mesmo disse: “Em verdade, em verdade, vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). E, ainda: “Quem se apega à sua vida, perde-a, mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna” (Jo 12,25).

O testemunho de São Sebastião, como de tantos outros mártires na história da Igreja Católica, vale lembrar também os nossos mártires de Cunhaú e Uruaçu, martirizados em 1645, foi sustentado pelo amor. É uma prova de amor. Seguindo o Mestre, o que deu a maior prova de amor, os mártires só conseguiram imitá-lo, por causa do mesmo amor: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).

São Sebastião nasceu em Narbonne, na França. Foi soldado do Império Romano e, uma vez convertido ao Cristianismo, tornou-se defensor da fé dos cristãos. Segundo os historiadores, foi morto em 286, durante a perseguição do imperador Diocleciano. Muito venerado em vários lugares, seu culto se espalhou rapidamente. Seu martírio faz parte dos grandes relatos dos santos dos primeiros séculos que, perseguidos, mantiveram a fé e morreram por causa dela.

Vale a pena, mesmo que longa, fazer aqui citação de uma catequese do Papa emérito, Bento XVI, proferida em 11 de agosto de 2010, sobre o tema do “martírio”. Bento XVI exprime a percepção da Igreja sobre o testemunho dos mártires e seu valor para nós: “Onde se fundamenta o martírio? A resposta é simples: na morte de Jesus, no seu sacrifício supremo de amor, consumido na Cruz, a fim de que nós pudéssemos ter vida (cf. Jo 10,10). Cristo é o servo sofredor de que fala o profeta Isaías (cf. Is 52,13-15), que se entregou a si mesmo em resgate por muitos (cf. Mt 20,28) ...; de onde nasce a força para enfrentar o martírio? Da profunda e íntima união com Cristo, porque o martírio e a vocação ao martírio não constituem o resultado de um esforço humano, mas são a resposta a uma iniciativa e a uma chamada de Deus, são um dom da sua graça, que torna capaz de oferecer a própria vida por amor a Cristo e à Igreja, e assim ao mundo. Quando lemos a vida dos mártires, ficamos admirados com a tranquilidade e a coragem com que eles enfrentaram o sofrimento e a morte: o poder de Deus manifesta-se plenamente na debilidade, na pobreza daquele que se confia a Ele e deposita a sua própria esperança unicamente n'Ele (cf. 2Cor 12,9). No entanto, é importante ressaltar o fato de que a graça de Deus não suprime nem sufoca a liberdade daqueles que enfrentam o martírio mas, ao contrário, enriquece-a e exalta-a: o mártir é uma pessoa sumamente livre, livre em relação ao poder e ao mundo; uma pessoa livre, que num único gesto definitivo entrega toda a sua vida a Deus, e num supremo gesto de fé, de esperança e de caridade, abandona-se nas mãos do seu Criador e Redentor; sacrifica a própria vida para ser associado de maneira total ao Sacrifício de Cristo na Cruz. Em síntese, o martírio é um grande gesto de amor, em resposta ao amor imenso de Deus”.