O exemplo do Chile

Publicação: 2019-11-09 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ivan Maciel de Andrade                                                                                                           
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)                                      

Formou-se o consenso de que, algumas décadas depois da ditadura sanguinária e corrupta de Augusto Pinochet (1973-1990), o Chile se tornou um modelo de estabilidade política e econômica a ser admirado e imitado pelos demais países latino-americanos. Mas essa situação era ilusória, falsa, fictícia. Um aumento recente da passagem do metrô deflagrou manifestações que levaram um milhão de pessoas à praça Itália na cidade de Santiago. Devido a cenas de vandalismo, o presidente Sebastián Piñera declarou que o Chile tinha mergulhado numa guerra (no entanto, um general teve a hombridade de negar que houvesse guerra): colocou as Forças Armadas nas ruas, decretou estado de emergência e impôs toque de recolher. Resultado: as manifestações cresceram e se multiplicaram.

Diante da ocorrência de mortes e do grande número de manifestantes presos, Piñera recuou e assumiu uma atitude humilde, de autocrítica, ao reconhecer que havia razões para os protestos. Pondo de lado os delírios de forjadores e divulgadores de teorias da conspiração de extrema direita que atribuem à influência de Cuba e da Venezuela o que está acontecendo no Chile, é forçoso reconhecer o fracasso do pretenso legado construído através da tortura, da violação de direitos humanos, de campos de concentração e do holocausto de milhares de chilenos pela repulsiva ditadura Pinochet.

Entendo, na contramão de diagnósticos que circulam na mídia e em estudos acadêmicos, que a democracia não está nos estertores: ela pode e deve renovar-se, comprometida cada vez mais com a inclusão social, a redistribuição de renda e a redução das desigualdades. O capitalismo que sobreviveu à crise de 2008 à custa de trilhões de dólares e euros dos contribuintes terá também de se reinventar.

O que se sabe é que há uma classe média no Chile profundamente insatisfeita, um segmento pobre numeroso e uma elite que acumula cada vez mais privilégios, através da concentração de renda e patrimônio e se mostra insensível às crescentes desigualdades sociais. Os estudos da socióloga e pesquisadora chilena Kathya Araujo anteciparam “os sinais da crise que vinham se acumulando há tempos” – sendo a majoração da tarifa do metrô um mero estopim. Disse Kathya numa entrevista à BBC que “os salários não aumentaram, o endividamento é muito alto, e não é um endividamento do consumo de luxo, mas para sobreviver”. Destacou que “a elite e os políticos chilenos exageraram no arrocho da população”, através de políticas ultraliberais. O metrô, para ela, é uma “metáfora do que ocorre na sociedade”, pois “o metrô, enfatiza a socióloga, é o lugar onde nos tratam como animais”.

A Previdência chilena “está provocando uma onda crescente de suicídios no país”, dada a forte “redução do valor das aposentadorias e pensões”. Por essa razão é que o Chile ocupa hoje o primeiro lugar em suicídios de pessoas maiores de 70 e de 80 anos em todo o mundo. E foi essa Previdência que serviu de modelo para a nossa “Nova Previdência” – que deixou de ser social – recém-aprovada.

  A ditadura chilena e seu legado são execráveis. Como o são as ameaças de reimplantar no Brasil o terror do AI-5. Ameaças insanas, que ofendem o decoro parlamentar e afrontam a democracia. 




continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários