O filho, Mauro Ventura, envereda na militância silenciosa da cidadania

Publicação: 2017-11-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Para compor a Mesa Redonda “Zuenir, o escritor militante”, quem vai fazer as honras e acompanha-lono bate-papo é o filho e também jornalista Mauro Ventura.

O filho de Zuenir, Mauro Ventura
O filho de Zuenir, Mauro Ventura

Ele atualmente escreve a coluna “Dois Cafés e a Conta” para o jornal O Globo, e diz que dá “voz para pessoas que desenvolvem trabalhos sociais e tem pouco espaço na mídia”. Para ele, a coluna funciona como “contraponto ao desânimo e como antídoto em momentos de desesperança”.

 “Busco histórias inspiradoras de homens e mulheres criativos, generosos e solidários, que enfrentaram - e ultrapassaram - todo tipo de obstáculo e transformaram suas vidas e a de muitas outras pessoas. Histórias de resiliência e superação que emocionem, alegrem, confortem, motivem, fortaleçam e restituam a fé no ser humano. São exemplos de vida”, diz ele.

Mauro ficou sabendo através da reportagem do Letras & Ideias, de uma matéria da BBC Brasil sobre a diminuição de penas através do interesse pela literatura, já que uma vez lendo e fazendo um resumo sobre títulos, os presos conseguiam redução de horas de suas penas. Dessa maneira, um apenado condenado por homicídio teria afirmado que ao ler o seu livro “O espetáculo mais triste da Terra” entendeu a dor de quem perde um familiar.

“Não sabia! Fico feliz. Quando escrevi o livro eu tive medo, porque tratei de um tema muito delicado e traumático, e não sabia como os personagens reagiriam ao ver exposta uma história que eles nunca haviam contado, muitas vezes nem para os parentes. Como jornalista, estou acostumado a ver os entrevistados se assustarem quando sai impresso em jornal o que falaram em voz alta. Imagine num livro. Mas o retorno foi o melhor possível”, relembra ele, admitindo que não tinha ainda conhecimento de um retorno como esse da reportagem da BBC Brasil.

 Ventura, inclusive, compartilha algumas frases que ouviu de sobreviventes e médicos que participaram do resgate e do atendimento às vítimas: “é uma verdade radical a que você contou"; “é uma dívida que se tinha e que você está ajudando a pagar"; “o livro vai ajudar a gente a morrer um pouco menos, porque o esquecimento é uma segunda morte".

Aproveitando o ensejo, perguntou-se o que ele acha sobre a redução de penas: “A Lei de Remição de Pena Através da Leitura tem resultados práticos. A coordenadora do setor de educação do Departamento Penitenciário do Paraná - estado onde o projeto está mais avançado - diz que a reincidência no crime caiu de 60% para 20% entre os presos que participam do programa. O preso tem longo tempo ocioso na cadeia. E a leitura tem um potencial transformador, pode abrir horizontes, aumentar a sensibilidade, criar empatia, ensinar a conviver com a diferença, qualificar e instruir, reduzir o tédio, fazer com que o detento repense seus erros e tenha perspectivas de um futuro diferente entre muitas outras possibilidades. 

Indagado sobre se a reportagem “Tribunal do tráfico” foi um forte alerta para a “justiça” feita pelos traficantes nas favelas e como foi lidar com uma situação de tanta brutalidade, Ventura explica que se considere um jornalista da área cultural e que não tinha planejado fazer uma reportagem sobre o tribunal do tráfico. “Eu havia iniciado um livro – que acabei não concluindo - sobre a força das igrejas evangélicas nas favelas. Cheguei a essa história como parte da pesquisa para esse livro. O jornal nem sabia que eu estava lá. Mas, após a situação acontecer, vi que poderia fazer uma matéria e sugeri ao jornal.

Hoje, o jornalista reconhece que foi “ arriscado”. “Mas acho que me deixaram acompanhar porque muitos dos traficantes são evangélicos, a exemplo do pastor que eu acompanhava, e, sobretudo, não se importam em aparecer como os ‘justiceiros’. De qualquer forma, após o caso Tim Lopes e com a falência das UPP´s,  os jornais estão muito mais cuidadosos com relação à segurança dos jornalistas. Isso é fundamental. A denúncia dos abusos, das injustiças, das atrocidades não poder ocorrer às custas da integridade do profissional”, completa.

Como filho do homenageado, Ventura diz que os ensinamentos de seu pai “extrapolam a literatura e o jornalismo”. “Ele me ensinou a arte de ouvir e de me interessar pelas pessoas anônimas, a ter humildade, a respeitar os personagens, a buscar a diversidade, a não transigir com a ética e a ter uma permanente curiosidade”, conta.

Sendo filho de Zuenir,  ele não consegue quantificar o número de ensinamentos que teve com o pai. O jornalismo e a literatura são elementos que parecem mais evidentes. Mas o legado do pai enquanto pessoa vai muito mais além. Ventura, que é uma pessoa cordata e sensível no trato com os outros, inclusive repórteres,  diz que essa postura vem muito de seu pai, que lhe deu, principalmente lições para a vida.

FLIN 2017

Tenda dos Autores

Mesa 3 - “Zuenir, o escritor militante”

Hora: 21h

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