O forró atravessa gerações

Publicação: 2018-06-05 00:30:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

É quase impossível passar o mês de junho sem ouvir um forrozinho. Símbolo do Nordeste, o estilo musical dita o ritmo do São João, embala arraiais e baladas, toma conta das rádios, é lembrado na TV, tocado nas ruas, em lojas, nos fones de ouvido do povo. Mas o forró está tão massificado quanto miscigenado.

Zé Hilton diz que falta diálogo das gerações mais antigas: “Eles não dão moral aos novos”
Zé Hilton diz que falta diálogo das gerações mais antigas: “Eles não dão moral aos novos”

O trio sanfona, triângulo e zabumba foi incorporado à instrumentos eletrônicos, ganhou elementos da música pop, do axé, tecnobrega e do sertanejo universitário. Os temas rurais deram lugar ao universo urbano. E os shows se tornaram enormes espetáculos, com grandes bandas, tecnologia de ponta e dançarinos. O forró tradicional, pé-de-serra, resiste como um segmento de raiz cultural, enquanto que o chamado forró estilizado se mostra mais como um ritmo novo, cujo forró é apenas um elemento e não a base musical. Sobre esse cenário, o VIVER ouviu músicos potiguares de diferentes gerações para saber como está atualmente o circuito forrozeiro, as vertentes desse ritmo, as delícias e dificuldades da carreira.

Um dos integrantes da Usina de Hits – coletivo de compositores responsável por alguns sucessos de Wesley Safadão, cuja vertente é mais estilizada –, o sanfoneiro Zé Hilton vê como positiva a evolução do forró, embora reconheça que há muitas bandas no mercado cujas músicas estão tão misturadas que fica difícil classificar.

“Tem gente por ai que usa o termo forró por uma questão comercial, por ser um nome forte. Mas as músicas estão mais para uma mistura de ritmos”, diz o músico potiguar. Com 40 anos, e sanfoneiro desde a adolescência, ele tem como base o forró tradicional, mas suas composições surgem sem preocupações formais. “Quando me junto pra compor não nos preocupamos com essas classificações. A ideia é fazer algo limpo, bom de soar nos ouvidos e de dançar”.

Forró pé de serra não tem espaço fora do São João, acredita Deusa do Forró
Forró pé de serra não tem espaço fora do São João, acredita Deusa do Forró

Zé Hilton vive 100% da música, seja com show, venda de composições e ministrando aulas de sanfona. Suas músicas mais recentes pela Usina de Hits são “Arrepio da Pele”, gravado por Benil, e “Máquina Turbinada”, lançada por Mano Walter. Para o sanfoneiro, a geração do forró pé-de-serra perdeu espaço para o estilizado por não saber se atualizar ao dinâmico do público.

Falta diálogo
“O segmento do forró estilizado promove mais festas, tem uma noção de comercial muito maior, se preocupa em se atualizar dentro da música, em lançar trabalhos novos com frequência”, explica. “A gente compõe com a turma do Ceará porque eles sabem fazer negócio, enquanto que as gerações mais antigas, do forró tradicional, não se interessam, não querem dar moral, nem gravam muito”.

Aposta no tradicional
Com 11 anos de trajetória, o grupo As Nordestinas defende o forró tradicional com uma agenda de shows que extrapola o período junino. Mas a tarefa não é nada fácil. “Depois das festas de São João a demanda por shows praticamente cai pela metade”, diz Deusa do Forró, a vocalista da banda. “Não importa se você tem um repertório bem montado, figurino especial, promova festas, o poder público e as rádios só dão visibilidade para o forró eletrônico”.

Deusa tem 20 anos de carreira no forró. Antes d'As Nordestinas ela integrou o grupo As Potyguaras, formado só por mulheres e que fez sucesso regional no início dos anos 2000 – o grupo acabou em 2009. Na semana passada ela esteve em Brasília participando de uma audiência pública no Senado Federal que discutia a possibilidade de transformar o Forró em Patrimônio Imaterial, da mesma forma que foi feito com o Frevo. 

Com 20 anos, Carol Benigno abraçou o forró pé de serra, mas prefere não falar em separação de estilos: é escolha estética
Com 20 anos, Carol Benigno abraçou o forró pé de serra, mas prefere não falar em separação de estilos: é escolha estética

“O forró tradicional, o forró legítimo, da raiz sanfona, triângulo e zabumba, que é pra toda a família ouvir, é um símbolo do Nordeste e ajuda a manter viva nossa identidade. Esse reconhecimento vai chamar a atenção para a necessidade de valorização desse ritmo original, que não é nem de perto essa coisa misturada com paredão, sertanejo, que tem aquelas letras apelativas”, comenta a artista.

Novíssima geração aprofunda estudos
A sanfoneira Carol Benigno é o que se pode chamar de novíssima geração do forró potiguar. Embora esteja morando em João Pessoa desde o ano passado, a artista de 20 anos de idade ainda mantém uma agenda de apresentações no RN. Sua raiz no forró é tradicional, pé-de-serra, mas ela prefere ver as diferenças dentro do ritmo nordestino mais como resultado da evolução natural da cultura, do que como cisões. Ela também integrou o grupo potiguar que participou da audiência pública no Senado.

“A cultura é dinâmica. As coisas vão evoluir, tomar novos caminhos ao longo dos anos. Não há problema nisso. Mas é evidente que algumas tradições precisam ser preservadas para que não se percam. Tornar o forró patrimônio imaterial seria, nesse sentido, uma formalização importante para salvaguardar casas de forró e artistas que preservam essas raízes”, argumenta a jovem musicista. “Muita música que se toca hoje com o nome de forró está mais para outra coisa. Tem letras apelativas que falam de consumo e ritmos muito diferentes. Mas não são todas assim. É possível encontrar em muitas canções que são sucesso elementos do pé-de-serra”.

Carol foi para João Pessoa em busca de aperfeiçoamento no instrumento que tanto ama. Ela cursa licenciatura em Música, com habilitação em Sanfona, na UFPB. No pouco tempo que está na Paraíba, ela sente uma valorização do forró tradicional maior que no RN. Algo percebido também pelos outros músicos ouvidos pela reportagem, todos com agendas no estado vizinho.

“Sinto um espaço mais aberto para o forró na Paraíba. Existe uma preocupação de preservação da história do forró paraibano, o que não é forte no RN. A própria habilitação em sanfona no curso de Música da UFPB, algo raro no Brasil, já mostra o quanto há um cuidado com a música nordestina”, reflete.

Suzete Sales já formou gerações forrozeiros potiguares. Aos 66 anos, é uma das maiores referências no estado
Suzete Sales já formou gerações forrozeiros potiguares. Aos 66 anos, é uma das maiores referências no estado

Veterana da sanfona ainda ensina acordeon
Com 66 anos de carreira, a sanfoneira Suzete Sales formou várias gerações de forrozeiros potiguares. Por exemplo, fundou o grupo “As Potyguaras”, do qual saiu a cantora Deusa do Forró, e como professora, deu aulas para centenas de alunos, inclusive Carol Benigno. Afastada dos palcos por um tempo, mas seguindo com suas aulas, ela é taxativa ao afirma que não existe forró sem sanfona.

“A sanfona não é um instrumento brasileiro, mas foi adotado por nós. Faz parte da cultura nordestina. Nos anos 90, com o teclado, o baixo e a guitarra ela quase chegou a sumir das bandas. Tanto que muitas fábricas fecharam. Mas se percebeu a importância do instrumento”, comenta a mestre. “Nesse artistas novos, para não se distanciar do forró, você vê que eles mantém a sanfona”.

Suzete lembra de quando começou com o instrumento, ainda com 10 anos, tocando na feira do Alecrim, nos arraiais de rua em Natal, ou em cima de uma carroça em percurso pelos bairros. Hoje ela conta que o interesse pelas aulas de sanfona ainda é grande, apesar dos altos e baixos do forró ao longo de várias décadas. “Dou aula para crianças, adultos e idosos. Muita gente tem vontade de aprender algo típico de suas raízes”, diz. Mas ela vê que também há aqueles que querem aprender rápido para se lançar no palcos. “Tem gente achando que vai aprender a tocar entre abril e maio pra sair fazendo show no período junino. Não é assim. Tocar São João é difícil. É mais acelerado, cheio de energia. Tem que ter experiência”, conta.

Debates sobre Patrimônio estão em fase inicial
Um grupo de artistas e pesquisadores de várias partes do Brasil defende tornar o forró patrimônio imaterial do país – a exemplo do que foi feito com o frevo. Um audiência pública para debater a questão foi realizada no Senado no dia 23 de maio, com presença dos potiguares Roberto do Acordeon, Iranilda Santana (Deusa do Forró) e Carol Benigno. O reconhecimento seria uma forma de proteger as matrizes do forró, oferecendo condições de se materializar políticas públicas para o setor, estimulando a economia no Nordeste.

O processo passa pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que não dispõe de recursos para a pesquisa e fundamentação do pedido. Segundo o coordenador de projetos do Iphan, Deyvesson Israel Alves, é necessário R$1,3 milhões para o estudo. A senadora Fátima Bezerra e o deputado federal Luiz Couto já destinaram, cada um, emendas no valor de R$ 100 mil, para que a pesquisa seja iniciada.

No dia 14 de junho, a Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado debaterá o tema na Assembleia Legislativa do RN. Debates também serão realizados em Brasília (agosto), Bahia (setembro) e Ceará (novembro).


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