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O futuro incerto do Afeganistão
Publicado: 00:00:00 - 15/09/2021 Atualizado: 23:18:03 - 14/09/2021
Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal, professor de direito constitucional da UFRN, procurador federal e advogado 

Com a retirada militar dos Estados Unidos do Afeganistão, o mundo acompanha com apreensão, qual será o futuro de um dos países mais pobres do mundo (dois terços de sua população vivem com menos de dois dólares/dia).  Agora, os Talibãs voltaram ao poder, logo após posição correta do Presidente Biden, que teve respaldo no acordo firmado em fevereiro de 2020, quando o então presidente Trump se comprometeu a retirar as tropas, em maio de 2021. Hoje, o ex-presidente critica a sua própria decisão. A ascensão do Talibã transformou o Afeganistão, no centro da disputa geopolítica mundial.

Por incrível que pareça, os talibãs surgiram na década de 80, como milícia armada fundamentalista, recebendo total apoio e ajuda dos Estados Unidos, na luta que durou 10 anos contra a ocupação da União Soviética no território afegão. Os americanos treinaram e deram equipamentos aos talibãs, que tiveram origem em seminários religiosos, com a promessa de ordem e segurança para governar o país. Em 1996, com a saída dos russos, os talibãs assumiram o poder, apoiados pela Casa Branca.

Os Estados Unidos ocuparam o Afeganistão, após os ataques às Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001. O governo americano culpou a rede terrorista Al Qaeda e declarou guerra ao Talibã, onde Bin Laden, líder do grupo, teria encontrado refúgio. A consequência foi a “Operação Liberdade Duradoura”, lançada com o objetivo de implantação da democracia no Afeganistão. 

Nessa época, constatava-se verdadeiro trucidamento das mulheres afegãs, que a partir dos 10 anos, já não podiam sair à rua sem ser acompanhadas por um homem de sua família e sem a cobertura de uma “burca (veste que oculta o corpo inteiro, exceto por uma abertura na altura dos olhos). Existia o apedrejamento por adultério, amputação de membros por roubo, proibição da criança estudar além da escola primária. Viviam na dependência dos homens para limpar, cozinhar e satisfazer seus apetites sexuais. Sem nenhum contato com o exterior. Não havia internet e os talibãs proibiram até a televisão e aboliram toda a expressão cultural (cinema, música, televisão). 

Depois de 20 anos de ocupação, trilhões de dólares gastos, 2.448 mortos, 20.772 feridos e milhares de outros, os americanos voltaram às suas casas com traumas, que afetam até a saúde mental. Para a população afegã, a presença americana não significou melhoria da qualidade de vida local. Ao contrário, aumentaram os índices de pobreza e cresceu o sentimento popular antiamericano, que perdura até hoje. Os afegãos mantêm cooperação com o Brasil nas áreas de energias renováveis, mineração, educação e tecnologia eleitoral.

A grande questão atual vem do choque de interpretação entre o Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos) e a “sharia” (“legislação’, em árabe), que rege desde contratos comerciais e o modo de fazer negócios até a herança de viúvas. No Oriente Médio e outras regiões onde prevalece a fé islâmica, países muçulmanos deixaram de interpretar de forma rígida a lei islâmica, adotando a separação entre a religião e a vida civil.

O temor é que o controle Talibã imponha a interpretação ortodoxa da “sharia”, inclusive com a criação da polícia moral, que fiscaliza o comportamento da população.

Observa-se um esforço entre os muçulmanos, no sentido de estabelecerem diferenças entre a “rigidez” da “sharia” (aceita pelos talibãs) e o verdadeiro Alcorão.  A “sharia” aprova a poligamia, permite que os homens se casem com meninas de nove anos, aprovam o divórcio. Já o Corão vincula à garantia para as órfãs, aconselha a monogamia e dá como exemplo, o profeta Maomé, que se casou com Cadija a primeira mulher muçulmana na história. Ela foi duas vezes viúva, 15 anos mais velha e ele não voltou a se casar, enquanto ela estava viva. Viveram 25 anos.

Cabe observar, que o Afeganistão é formado também por minorias étnicas muçulmanas, que não aderem aos códigos ortodoxos de opressão das mulheres.  Cerca da metade da população, incluindo quase 10 milhões de crianças, precisa de ajuda humanitária. Mais da metade de todas as crianças com menos de 5 anos está desnutrida. A ONU estima que quase 400.000 afegãos foram forçados a deixar suas residências até agora, sendo que 300 mil pessoas perderam suas vidas.  Esse é mais um problema global grave, a ser conduzido, no período após a pandemia. 







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