"O governo não gerenciou bem a economia", diz analista

Publicação: 2018-10-07 00:00:00
A balança do poder global não se move somente a partir das decisões econômicas das principais potências. O exemplo mais recente é o caso do Brasil, cuja polarização política reflete diretamente nas projeções de crescimento das riquezas produzidas no país, nos índices de confiança e de capacidade de investimentos e, principalmente, a desvalorização do real frente ao dólar.

Créditos: Júlia FerreiraProfessor e analista de Relações Internacionais. Oliver Stuenkel disse que enário econômico adverso internacional e nacionamente não foi bem gerido pelos governos Dilma e TemerProfessor e analista de Relações Internacionais. Oliver Stuenkel disse que enário econômico adverso internacional e nacionamente não foi bem gerido pelos governos Dilma e Temer
Professor e analista de Relações Internacionais. Oliver Stuenkel disse que cenário econômico adverso internacional e nacionalmente não foi bem gerido pelos governos Dilma e Temer

De passagem por Natal para o lançamento do livro “O Mundo Pós-Ocidental” a convite do Curso de Relações Internacionais da Universidade Potiguar (UnP), o professor Oliver Stunkel concedeu uma entrevista exclusiva à TRIBUNA DO NORTE na qual analisa o atual momento econômico e político do País, a nova configuração do comércio mundial e os riscos do protecionismo norte-americano às relações comerciais com o Brasil.

Na entrevista a seguir, o especialista destaca as necessidades de mudança no modo de relacionamento comercial internacional do Brasil, assim como o risco de se perpetuar como exportador de matérias-primas para a Ásia e , principalmente, o processo de desindustrialização nacional. Acompanhe.

Do seu ponto de vista, o que provocou a mais recente recessão na economia nacional? Há saída e possibilidade de retomada de crescimento, como?
Eu acho que há dois fatores principais. O primeiro, é o fator externo. Ou seja, o ambiente macroeconômico global piorou muito. O Brasil é uma economia que se dá bem quando o preço das commodities e matérias-primas é alto, quando os juros dos Estados Unidos baixa. Isso foi o caso depois de 2003 e 2004, sobretudo, até 2012 e 2013. E depois disso o cenário piorou bastante. Então, a economia foi bastante afetada por isso. Agora, também notadamente, teve um fator interno. O Brasil não se preparou adequadamente para essa nova realidade e houve uma intervenção excessiva no mercado  piorando essa situação. Piorando ainda mais, por assim dizer, a crise pela qual o Brasil passou em função da situação externa. A gente vê que outros mercados emergentes sofreram menos do que o Brasil. O Brasil foi o País que mais sofreu com a recessão. Certamente, houve tanto o ambiente externo como o ambiente interno com um governo que não gerenciou bem a economia, o que contribuiu para essa situação.

A política nacional em curso permite formação de novos blocos econômicos ou o País precisa revisar a legislação vigente em prol da abertura comercial?
Não há dúvidas de que o Brasil precisa se abrir para prosperar. É uma economia ainda bastante fechada. O Brasil assinou poucos acordos comerciais nos últimos anos. O governo Temer tentou reiniciar várias negociações, mas são negociações muito complexas e eu tenho dúvidas em relação à viabilidade de um acordo entre o Mercosul e a União Europeia nos próximos meses. Eu acho, inclusive, que pode chegar a não acontecer no ano que vem. Mas, sim, é absolutamente crucial que o Mercosul aumente a sua inserção através dos negócios de valor e, inclusive, que passe e o que me parece fundamental, por uma aproximação maior com a Aliança do Pacífico, que é composta por países que já estão mais abertos e com maior participação no mercado global.

De que forma o Brasil pode atuar para que assuma uma postura efetiva nessa nova ordem comercial mundial?
Me parece que, o que de fato atrapalha hoje em dia, o que dificulta a tentativa de qualquer governo de buscar uma maior inserção, são grupos de interesse dentro do País que tem muitos privilégios. Privilégios de mercado relativamente fechado e que irão resistir a uma abertura maior e eu não acho que o próximo presidente ou a próxima presidente terá condições de implementar essas mudanças mais amplas. O Brasil tem um grande desafio pela frente: o sistema multilateral está bastante ameaçado. Cada vez mais, a gente vai ver acordos regionais que estão coordenados, que estão sendo negociados. Então, infelizmente nesse cenário, as oportunidades são muito limitadas. Eu espero que o próximo governo possa continuar esse processo de, pelo menos, iniciar negociações que a gente viu ao longo do últimos dois anos.

Quais são os riscos da política protecionista anunciada por Donald Trump ao comércio Norte-americano? Ela pode refletir na relação com o Brasil?
Certamente. Tanto que recentemente o presidente norte-americano (Donald Trump) anunciou que estava interessado em repensar a relação comercial com o Brasil. É um grande risco para a economia brasileira que depende de regras e normas claras do comércio global. É um péssimo sinal. E a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China não vai beneficiar o Brasil. Pode até haver certos benefícios temporários em alguns setores. Mas, dificilmente, será positivo para a economia como um todo.

Qual a importância, qual o posicionamento da Ásia no cenário atual comercial e como isso interfere no Brasil?
A Ásia é hoje a região mais importante para o Brasil. A China é o principal comprador de matérias-primas do mundo e a relação comercial com a China é a mais importante no Brasil desde 2009 é dominada por matérias-primas. Isso gera uma relação de dependência. Traz benefícios mas, também, perigos. É preciso que a relação do Brasil com a Ásia faça parte de uma estratégia mais ampla que o próximo governo vai ter que articular. Não há uma consciência ainda na sociedade, da importância que a China hoje tem na economia e quão fundamental ela é para o próprio debate para o desenvolvimento do País (Brasil).

Em quais setores o Brasil deve concentrar esforços para retomar a geração de empregos e, principalmente, mantê-los?
O Brasil passa por um processo de desindustrialização há bastante tempo e isso tem consequências para o mercado de trabalho. Mas a culpa disso não é da China, dos atores externos. A culpa disso é da produtividade limitada da economia brasileira. E já não é tanto mais uma questão de setores, mas muito mais de investimentos nas áreas de Educação e Infraestrutura para solucionar esse problema. Reduzir o custo Brasil, é preciso simplificar a burocracia para tornar o Brasil mais competitivo. A longo prazo, o Brasil dificilmente pode só depender de vendas de matérias-primas para a Ásia. Precisa também se integrar em outras áreas. Inclusive eu acho que, um país como a China pode, a história da China e como ela conseguiu oferecer produtos, produzir produtos de valor agregado pode ser interessante como um caso a se estudar e verificar quais lições poderão ser aplicadas aqui no Brasil. 

O Brasil perderá investimentos em decorrência da atual situação política? Por quais razões?
Existe uma incerteza eleitoral e isso, a princípio, é negativo. O investidor quer saber mais ou menos qual será a estratégia econômica adotada pelo próximo governo. Então, muitos investidores, nesse momento, aguardam uma definição do cenário eleitoral antes de tomar uma decisão.

Quais os riscos para a economia nacional em decorrência da polarização relativa à corrida presidencial?
É um grande risco porque, em sociedades polarizadas não se discutem projetos nacionais. Se discute qual projeto é pior. Os eleitores do Bolsonaro tem muito medo do PT. Os eleitores do Haddad tem medo do Bolsonaro. Nesse cenário extremo, de uma ausência de um diálogo substantivo, há pouquíssimo espaço para, de fato, pensar para onde o país vai, para onde deve ir e como a sociedade como um todo pode lidar com os maiores desafios. Então, isso é um péssimo sinal para a política e, também, a economia do país.

Na sua ótica, quais deverão ser as medidas mais urgentes a serem adotadas pelo próximo presidente da República e por que?
Eu acho que não há dúvidas de que é preciso olhar para as reformas que são necessárias e precisam ser feitas, como a reforma da Previdência, sem a qual não poderá se governar. Não haverá espaço para gastos além do pagamento obrigatório, do gasto obrigatório. A não ser que o Brasil aprenda a lidar com isso, a gente pode encarar uma situação perigosa e reduzindo o espaço para a implementação de qualquer projeto estratégico. Infelizmente, com o sistema, com o cenário eleitoral que a gente tem, muito provavelmente o próximo presidente será pouco popular, terá altíssima taxa de rejeição e não terá maioria no Congresso. Em função disso, é questionável se o próximo presidente irá conseguir fazer. Sem a reforma da Previdência, não me parece inviável falar sobre os próximos passos.

Quem
Oliver Stuenkel escreveu artigos de opinião para jornais como o New York Times (EUA), Financial Times (Inglaterra), Global Times (China), Today’s Zaman (Turquia), Mail & Guardian (África do Sul), Times of India, The Asian Age, The Hindu (Índia), Folha de São Paulo, Valor Econômico, O Globo e O Estado de São Paulo.

Foi professor visitante na Universidade de São Paulo e na Escola de Estudos Internacionais da Universidade Jawaharlal Nehru (JNU), em Nova Deli. Fez parte da delegação brasileira nos encontros “track II” em Nova Deli, Chongqing e Moscou em preparação para a quarta, a quinta e a sétima cúpula do grupo BRICS.

Tem graduação pela Universidade de Valência, na Espanha, Mestrado em Políticas Públicas pela Kennedy School of Government de Harvard University, onde foi McCloy Scholar, e Doutorado em Ciência Política pela Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha.