O humor de Zé Areias

Publicação: 2020-08-09 00:00:00
Diógenes da Cunha Lima  
Escritor, advogado e presidente da ANL

Espirituoso, humorista nato, poeta popular, o boêmio José Antônio Areia Filho (1901-1972), conhecido como Zé Areias, por décadas, fez rir e encantou Natal, improvisando com absoluta espontaneidade e, por isso, muito querido.

Numa véspera de carnaval, comemorando com colegas estudantes de Direito no Bar da Tripa, Zé Areias cantava “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”. Lamuriou-se dizendo ser o verdadeiro Rei Momo de Natal, mas colocaram Paulo Maux porque era rico. A turma fez uma coroa e escreveu em uma camiseta “Rei Momo Único” (na frente) e o “Rei de Natal” (nas costas). Levei-o no meu jipe das Rocas ao Alecrim. Aplaudido, bebeu muito. Na volta, desiquilibrou-se e caiu desacordado. No pronto socorro, ao ser examinado por um estudante com estetoscópio, ele abriu os olhos e soltou a piada: “Ô cara feia danada! Prefiro ficar desmaiado”.

Veríssimo de Melo salvou boas sátiras e epigramas de Zé Areias, nosso equivalente ao cearense Quintino Cunha e a Paula Nei. Ele herdou do pai o nome, o bom humor e a habilidade profissional. Barbeiro da Casa de Detenção, durante a Segunda Guerra Mundial, foi contratado pela Base Aérea para atender aos soldados norte-americanos. Aproveitou esse trabalho para vender aos norte-americanos galinhas e papagaios. Foi acusado de vender urubu depenado dizendo ser uma pequena espécie de peru.

Natal era considerada tão estrangeira que o Governo Federal designou um cônsul para relacionar-se com os norte-americanos. Por mais de uma vez, ele foi chamado a intervir nas ações do nosso Zé Areias. “Você vendeu uma galinha de dois por dez dólares?”, perguntou. Ouviu como resposta: “Eu apenas perguntei: tem dólares? O my friend foi generoso”.

Conta-se que o cavalheiro Zé Areias estava na Peixada da Comadre, nas Rocas, para almoçar. Reagiu com firmeza em defesa de uma “dama” que estava sendo expulsa do local. Ela se sentou em sua mesa e alguns aplaudiram o herói, que, na hora, fez uma quadrinha que abalou seu heroísmo: “Embora tudo aconteça / De valente não me gabo / Do peixe que era cabeça / Da mulher prefiro o rabo”.

Cancão, motorista do engenheiro Roberto Freire, era seu amigo. Demitido, disse estar sem dinheiro, não tinha onde morar. O nosso comediante emprestou-lhe um quarto. O hóspede sentiu-se com todos os direitos. Acordava tarde, sentava-se à mesa para almoçar, tirava uma sesta e saía. Voltava tarde e triscado. Uma noite, a chave não entrava mais na fechadura e sua mala estava do lado de fora com o guarda-chuva por cima. Na parede, um cartaz: “Cancão mudou-se”.

Ao completar trinta anos de serviço ao Estado, nosso poeta popular requereu aposentadoria. O governador Walfredo Gurgel negou o pedido, alegando o inquérito que apurava o abandono de funções. Zé Areias defendeu-se dizendo que os detentos estavam barbeados e de cabelos cortados, ele apenas havia terceirizado o serviço. Por fim, enviou um bilhete ao governador: “Monsenhor Walfredo, mande me aposentar, que eu prometo viver só mais dois anos”.

Câmara Cascudo registrou a importância de Zé Areias e anotou a sua pilhéria do fim da vida: “Mulher feia! Quero morrer em teus braços!”.