O humor e suas circunstâncias

Publicação: 2019-10-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Escritor

01) Corria o ano da graça de 1992. O então deputado federal Fernando Freire convoca ao Rio os deputados estaduais Nelson Freire, José Adécio e Carlos Marinho para uma importante operação de reengenharia política: transferi-los do PFL para o PDS. O trabalho de persuasão ficara a cargo do envolvente mister Paulo Maluf que saíra de São Paulo, sozinho, incógnito, a bordo de um Eletra da Varig para o Aeroporto Santos Dumount, aonde já o esperava Fernando. De lá para a casa de Freire, uma escala de Maluf no Copacabana Palace a fim de registrar-se e deixar a pasta de viagem. Ao caminhar até o apartamento o líder paulistano é surpreendido pela voz rouca e amistosa de um velho servidor do hotel: “Doutor Maluf, que prazer o senhor aqui”. Enfim, aquelas palavras amigáveis dos profissionais de hotel com os velhos conhecidos. Confiando e permitindo-se a mais intimindades, o decano recepcionista aventurou-se: “Doutor Paulo, se o senhor quiser companhia à noite é só falar comigo. Sou muito discreto e guardo segredo de tudo”. Maluf fez que não ouvia. Mas, o velho carioca estava com a corda toda: “Ademar de Barros, Juscelino, Carvalho Pinto sabem que sempre preservei o sigilo”. Maluf apenas riu e apressou-se a entrar no carro dirigido pelo deputado potiguar. Confessou que aprendera ali, que, tanto na política como nos hotéis, nada mais constitui segredo. E foi jantar, conversar e tocar piano até tarde para convencer e embalar Nelson, Adécio e Cacau. Só que os deputados potiguares não se renderam nem a Chopin revivido entre vinhos francesesatravés das mágicas e malufadas mãos do dr. Paulo.

02) Avelino Matias, vulgo “Meu Pai”, é uma das melhores figuras folclóricas da política potiguar. Dentre muitos causos de que foi protagonista, colhi um, ocorrido aqui em Natal. Estava em uma reunião fechada com mais umas dez pessoas ligadas à ex-Funabem quando, de repente, a sala foi invadida por um poluente, ou seja, um silencioso gás intestinal. Todos se entreolharam e procuraram disfarçar tapando discretamente o nariz. Mais alguns minutos, novamente, nova bufa sorrateira incomodou os presentes. E veio aquele constrangimento muito próprio nessa situação. Mas, aquela reunião em sala fechada parecia fadada à sabotagem. Com pouco tempo surgiu o terceiro e terrível flato ainda mais podre. De repente, ante os perplexos e circunstantes funcionários, levanta-se Avelino e sentencia em voz alta e pesarosa: “Meu pai”, “minha mãe”, eu sou um homem doente. Para não trazer mais problemas eu vou me retirar”. O alívio foi geral.

05) Disputava mais uma eleição para deputado estadual. Em casa do vereador Sinval em Coronel João Pessoa, almocei um peru com tanta graxa e colesterol de fazer arrepiar qualquer cardiologista. À tardinha, comecei a passar mal. Vômitos constantes e diarréia me tiraram de tempo. Pedi para abreviar a programação de visitas e comícios. Queria voltar pra casa. Sentia-me semimorto. À noite desci a Serra de São Miguel, deitado no assento traseiro do aguerrido Del-Rey, pilotado por dois motoristas que se revezavam. No trajeto não parava de vomitar. Ao chegar a Mossoró, já madrugada, os motoristas foram tomar um café, enquanto, no posto, o carro era abastecido. De novo, os vômitos voltaram. Com a porta traseira aberta, de bruços, eu era a própria imagem esquelética de candidato em fim de linha. O bombeiro ao lado, abastecendo, olhou-me com tanto desdém e careta, que gritou para os motoristas: “Ei, rapaz, tira logo esse “bebo” daqui, pois tá sujando o posto todinho!!!”. Wellington, um dos motoristas, zelando pelas prerrogativas imaginárias do seu candidato enfermo, respondeu indignado: ”Rapaz, respeite aí o deputado Valério Mesquita de Macaíba!!”. Aí foi que a saudade doeu.

04) Antenor Rocha, ex-vereador macaibense, é mais conhecido como Agenor da Tripa. Certa noite, num comício em Cajazeiras, distrito de Macaíba, Agenor havia concluído o seu discurso quando foi procurar um local para urinar. Em muitas casas do interior a latrina é no quintal. Ao penetrar no escuro pela lateral do terreno, teve logo a má sorte de receber um banho d’água servida proveniente da cozinha, lá nos fundos da casa. Molhado mas consciente de que não foi casual, encontrou a “casinha” fechada. Como a vontade apertava entrou sítio adentro. Num local escuro começou “a verter a água do joelho”. De repente, quase morreu de susto: uma mulher estava agachada no mesmo serviço. ”Cabra sem vergonha, vá mijar a puta que pariu!!”, gritou a mulher desesperada. Agenor saiu às carreiras para o local do comício. Assustado e todo mijado, me confessou gesticulando nervosamente: “Doutor, eu pensava que era um jumento, mas era uma “véia” braba como os seiscentos diabos”.




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