O Implacável do vinil

Publicação: 2019-06-02 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Ele é amante das imperecíveis bolachas pretas e conhecedor incontroverso de música, ele é Fernando Wanderley, o Fernandinho, o DJ, o “Implacável do Vinil”, uma das figuras que tem embalado o Beco da Lama e adjacências com repertórios inimitáveis.

Foi em Candelária que Fernandinho, aos 13 anos, virou locutor de carro de som.
Foi em Candelária que Fernandinho, aos 13 anos, virou locutor de carro de som.

Embora seja visto com frequência pelo Centro Histórico, Fernandinho tem raízes em outro reduto: Candelária. Ele não mora mais no bairro (sua casa é em Cidade da Esperança), mas visita sempre o lugar, até porque muitos dos momentos mais marcantes de sua vida foram lá.

Foi em Candelária, por exemplo, que Fernandinho, aos 13 anos, virou locutor de carro de som. Mas ele mesmo novinho já queria mais. Passou a acompanhar o que de mais atual tocava nas rádios populares para tocar nos intervalos das mensagens de anunciava nas locuções. Dessa experiência ele deu mais um salto na carreira. Montou um estúdio de gravação de fitas k7. Os clientes chegavam com os pedidos e ele dava seus pulos para conseguir os LPs e gravar as músicas solicitadas. Fez fama assim. Até que chegou o CD e lascou com tudo, levando Fernandinho a mudar completamente de área. Se formou em Geografia pela UFRN e foi ser professor, o que é até hoje.

Mas de uns anos pra cá a paixão pelos LPs e o conhecimento musical o levaram novamente para a música. Agora ele divide seu tempo entre as salas de aula e os bares da cidade, onde discoteca, só com vinil, seu diferencial.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o Implacável do Vinil conta um pouco de sua trajetória, lembra histórias de Candelária, fala de sua paixão pelos discos e outros assuntos.

De pacato à inseguro
Cheguei em Candelária em 1976, quando a segunda etapa foi entregue. Cheguei com nove anos de idade. Fui estudar na Escola Luís Antônio. A turma ficava até meia noite na rua, jogava bola no campo. A gente andava tranquilo no bairro. Morei em Candelária até 1997. Foi um tempo maravilhoso. Hoje não moro mais no bairro. Passo lá porque tenho amigos. Na verdade meus amigos casaram e moram em outros bairros, quem ficou foram os pais deles. Infelizmente esse pessoal está trancado em casa por causa da insegurança. Você não encontra mais criança na rua.

Locutor de carro de som
Meu pai tinha uns carros de som. A gente fazia propagandas na rua. Meu pai é Lindemberg Wanderley, é da família de Sandoval Wanderley, Berilo, Estela. Família de poetas assuenses. Mas meu pai enveredou pelo caminho do rádio. Foi locutor da Rádio Poty, Trairy, Cabugi, Nordeste. Eu aprendi a ser locutor com ele. Eu tinha 13 anos quando comecei a acompanhá-lo nos carros de som. Eu já gostava de música, era antenado com o que se tocava na época. Já meu pai não. Então eu propus a ele de gravar umas fitas k7 pra tocar depois das locuções.

Famigeradas fitas k7
Gravando essas fitas eu comecei a ficar fissurado pelo toca-fitas, tape decks, equalizadores. Falei pra papai do meu sonho de ter uma gravadora. Ele foi comprando uns equipamentos aqui e ali, até que em 87 eu já estava com uma boa estrutura. Aquilo foi tipo uma indenização pra mim, porque trabalhei muitos anos nos carros de som com ele (risos). As pessoas não pediam disco de um artista. Elas pediam um tipo de música. Por exemplo, pediam uma fita de MPB. Ai eu dava uns discos pra pessoa escolher as músicas e montava a fita.

Mataram o vinil
Isso durou 10 anos. Passei esse tempo escutando cerca de dez horas de música por dia. É muita coisa. Mas ai o CD me derrubou. A gravadora foi para o beleleu!Quando vendi minha gravadora tinha dois mil vinis. E dois equipamentos de gravação. Tinha funcionário. Nessa época eu já cursava Geografia na UFRN. Então virei professor, profissão que exerço até hoje.

Discotecagem
O estúdio se chamava Propag Som. Nessa época eu tinha o equipamento de gravação e uma discoteca. Então eu já fazia discotecagem. Me contratavam para todo tipo de festa. Até na minha festa de formatura da ETFERN eu toquei. Eu tava com 22 anos, por ai. Mas eu ainda não discotecava com vinil. Deixava os LPs em casa. Só usava tape deck.

O vinil nunca morre
Passei uns 20 anos afastado disso. Mas ai deu um estalo de uma hora pra outra. Fiz festa na casa de amigos. Ai o pessoal lembrou. Fabinho, um amigo meu do Beco da Lama, foi quem disse para fazer uma discotecagem no bar da Raimundinha. Fazer a tarde do Vinil. Bora fazer! Ai Célia, uma amiga minha, foi para essa festa, me viu e disse: “você é implacável”. Brinquei com ela, dizendo que era “O implacável do vinil”. O apelido pegou. E comecei a ser convidado para tocar cada vez mais. O Bixiga [Rua Vigário Bartolomeu, Cidade Alta] é onde apareço mais. É um restaurante que um sábado por mês se transforma na discoteca do Bixiga. É onde as pessoas estão gostando de ir.

Candelária, em todo lugar
Mas toco em todo lugar. Já toquei em Candelária também, recentemente, num lugar chamado Raimundo's Pub. Esse bar hoje é de Pedro Neto, filho do Seu Raimundo, proprietário do antigo “O Skinão”. E quem inaugurou esse bar em 1982, fazendo a própria locução de inauguração fui eu, com 16 anos de idade, eu mais meu pai. Já fiz duas festas lá. Espero voltar de novo.

Conhecimento vasto
Meu repertório é muito de rock'n roll, principalmente anos 80, 90, nacional e internacional. Mas também tenho acervo de Jovem Guarda. E muita coisa de forró. Tenho meus Beto Barbosa, Eliane, Alcimar Monteiro. As pessoas têm gostado, falado bem do meu conhecimento musical. Eu não gosto muito de contar meu segredo não. Deixo as pessoas se surpreenderem.






continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários