O irmão da Violeta

Publicação: 2021-01-16 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Quando minha geração começou a ouvir as canções da chilena Violeta Parra em meados dos anos 1970, ela já estava morta desde 1967 ao cometer suicídio, exatamente um ano depois de compor o clássico “Gracias a la Vida”. Suas canções viraram hinos – “Volver a los 17” também era hit obrigatório nos idílios estudantis da minha juventude – a embalar sonhos e ensaios de lutas.

Violeta tinha quase uma dezena de irmãos, padrão das famílias camponesas da América Latina em princípios do século XX. Um deles, Nicanor Parra, foi fundamental para sua carreira artística, que além da música se destacavam também a poesia, o artesanato e a pintura. Ele foi o porto seguro quando ela se mudou da residência paterna no interior para a capital Santiago.

Três anos mais velho que a irmã, Nicanor nasceu em 1914 e faleceu em 23 de janeiro de 2018 aos 103 anos, depois de viver os últimos anos num balneário próximo da capital chilena. Sua morte abriu um vácuo profundo nos contextos literário e acadêmico do Chile. Ele foi um dos seus maiores personagens.

A literatura o apanhou a partir dos anos 1930, apesar de uma relação mais estreita com os números do que com as letras, posto que era formado em matemática. O primeiro livro de poemas foi “Cancionero sin Nombre”, que lhe estimularia a confeccionar outros e a estabelecer o azimute de novos conceitos. Viveu anos entre os EUA e a Inglaterra e retornou ao Chile em 1951.

Se para muitos, aquela era a década dourada, assim também o foi para ele, que disparou a publicar livros de poesias, tendo em “Poemas y Antipoemas”, de 1954, a obra mestra em que desenvolveu a criação do seu conceito de “antipoesia”. “Em poesia tudo é permitido”, disse uma vez como a deixar a conclusão “inclusive nada”.

Em 1969, quando o fantasma da irmã Violeta flutuava nas passeatas e nas plenárias universitárias cantarolando as canções em outras vozes, Nicanor conquistou o primeiro galardão literário, o Prêmio Nacional de Literatura de Chile com o livro “Obra Gruesa”. E outros muitos vieram, inclusive na velhice com os prêmios Cervantes, Rainha Sofia, finalista no Príncipe de Astúrias e algumas indicações ao Nobel de Literatura.

A seguir a estrofe final do antipoema “O Homem Imaginário”: 
E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que o brindou com amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar o coração
do homem imaginário.

A máquina de escrever de Nicanor Parra, uma extensão do seu enorme talento, foi colocada por ele num plano de seguros, sob o número 1.552, com a ordem expressa de permanecer custodiada no Instituto Cervantes, na Espanha, até o dia 5 de setembro de 2064, quando se fará 150 anos do seu nascimento. 

Créditos: Divulgação

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