O jornalismo investigativo

Publicação: 2019-12-28 00:00:00
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Ivan Maciel de Andrade                                                                                                            
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)
           
O escritor português Miguel Torga anotou em seu “Diário” uma reflexão sugestiva e instigante. Escreveu: “Se você não quer ser covardemente um acomodado tranquilo, seja corajosamente um homem inquieto” (Coimbra, 1995, IX-XVI). A inquietude conduz a uma atitude crítica em relação às concepções estabelecidas, encarna um desejo de mudanças, encoraja dúvidas e questionamentos. É comum associar-se a inquietude a um certo estágio da vida: os jovens são naturalmente inquietos e insatisfeitos, contestam os valores de sustentação do “status quo” e lutam algumas vezes por causas que colidem com interesses socioeconômicos estratificados – como a proteção do meio ambiente e a redução das desigualdades. Mas a inquietude não constitui privilégio de um segmento específico.  

Transcendendo fatores histórico-culturais, o que seria do conhecimento humano, filosófico e científico, sem os impulsos da inquietude? São eles que abrem espaço para novas ideias e teorias, para estudos e pesquisas que desfazem dogmas e preconceitos, para descobertas científicas e tecnológicas que surpreendem a imaginação dos futurólogos mais audaciosos (como é o caso da internet). No campo da arte, a inquietude é responsável pela revitalização e expansão da criatividade. Os cânones artísticos estão sempre diante de uma alternativa ameaçadora – esclerose ou ruptura.  

O jornalismo investigativo, em particular, corresponde a uma inquietude sob forma de obstinada busca da verdade – camuflada ou sonegada para ocultar atos ilícitos ou negócios escusos. É o que acontece quando a imprensa sente que não basta reproduzir a notícia e a versão dos fatos do jeito como chegam à opinião pública. Há uma percepção de que é preciso ir além, para checar a veracidade do que foi divulgado ou desvendar o que está sendo encoberto pelo silêncio para garantir uma possível impunidade. O jornalismo investigativo exerce papel fundamental na preservação da ética no setor público, assegurando, em última análise, a credibilidade do próprio regime democrático. Pressupõe, é óbvio, ampla liberdade de expressão, pois é um jornalismo que incomoda e desafia os governantes.

Uma imprensa acomodada é um péssimo sinal: ou está sufocada por um governo autoritário ou perdeu totalmente a dignidade. Em qualquer dessas hipóteses, torna-se uma falsa imprensa. A aptidão investigativa, pode-se dizer, é uma característica inerente à atividade jornalística. Do contrário, ela se burocratiza ou se robotiza (já existem robôs executando tarefas na imprensa) e perde não só o encanto do ofício como o foco da missão que deveria cumprir. Daí resulta que quanto maior a atuação investigativa, mais elevado o padrão do jornalismo. Mas para que essa capacidade investigativa possa produzir os seus melhores frutos, a imprensa precisa dispor de independência, ainda que conquistada a duras penas, de vez que se sabe que os fatores econômico-financeiros são fortes condicionantes.

Trump criou um modelo de relacionamento com a mídia que tem como tônica o descrédito e a desvalorização do poder investigativo da imprensa. As matérias que lhe são desfavoráveis recebem a pecha de “fake news” e a imprensa é acusada de facciosa. Trump tem fiéis imitadores aqui e alhures.





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