O médico das letras, na Academia

Publicação: 2017-11-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Daladier da Cunha Lima carrega consigo três vertentes onde quer que esteja: a de médico, escritor e educador. Nesta terça-feira, ele passa a ocupar a cadeira de número 3 da Academia Norte-Riograndense de Letras como imortal da literatura do Estado e pretende levar, para mais um espaço, a bagagem que tanto o identifica. Com 78 anos, são quase 52 de medicina, trajetória de professor e reitor pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, crônicas escritas e dois livros publicados. A sessão de posse acontece às 20h na sede da Academia e será presidida pelo seu irmão e também imortal Diógenes da Cunha Lima.

Leitor desde a infância vivida em Nova Cruz, Daladier da Cunha Lima abraçou a medicina mas nunca se desligou das letras. Na biblioteca da Uni RN, ele lembra suas referências literárias, de Câmara Cascudo a Moacyr Scliar
Leitor desde a infância vivida em Nova Cruz, Daladier da Cunha Lima abraçou a medicina mas nunca se desligou das letras. Na biblioteca da Uni RN, ele lembra suas referências literárias, de Câmara Cascudo a Moacyr Scliar

O médico sucede o acadêmico José de Anchieta Ferreira, falecido há um ano, depois de ser eleito em abril com 31 votos. Amigo pessoal de Anchieta, a morte deste foi o principal motivo para lançar a candidatura para ocupar a cadeira. “Ele também foi médico e professor e fomos bons amigos em vida. Eu era muito próximo a ele e decidi lançar a candidatura depois da sua morte, também como uma forma de homenagem”, conta.

O patrono da cadeira a qual irá ocupar é o escritor e educador Otto Guerra. Daladier também o conhecia, mas tinha uma relação mais distante e de admiração. Em 28 de junho de 2012, o médico escreveu uma crônica em homenagem ao centenário do educador nas páginas da TRIBUNA DO NORTE e ressaltou os feitos de Otto na consolidação da UFRN. “Feliz o Rio Grande do Norte por ter no panteão da sua história o nome de Otto de Brito Guerra, para que as novas gerações possam mirar-se em líderes e heróis forjados na vida simples e sem arroubos, mas pródiga de exemplos dignificantes e sempre na busca e na prática do bem”, registrou à época.

O escritor se junta a Iaperi Araújo e Armando Negreiros como os médicos da Academia de Letras do RN. Ele pretende seguir os preceitos e programação da academia e pensar atividades que mostrem a confluência da medicina, educação e literatura. “A Academia é muito importante para a nossa literatura e está sempre em renovação. É importante levar novas ideias para conservar a memória dos escritores, considerados imortais pela obra que fizeram em vida”.

Literatura na infância
A relação de Daladier com a literatura existe desde a infância. Nascido em Nova Cruz e filho de comerciantes, o pai do escritor impunha uma disciplina que se dividia em estudos, trabalho e lazer. Este último momento era a hora de  aproveitar a literatura que tinha em casa. Logo criou afinidade com os livros. A profissão que queria para a vida, no entanto, já era a medicina. “Sempre gostei de ler, mas também sempre quis ser médico. Na infância, o meu irmão (Diógenes da Cunha Lima) foi quem se dedicou mais aos livros. Mas eu escolhi a medicina para a minha vida e consegui unir as duas vertentes. Sou apaixonado e muito interessado pela literatura de escritores médicos”, conta.

A paixão e o tempo dedicado a medicina é o embrião dos escritos de Daladier. Este é o principal tema das crônicas publicadas há 14 anos quinzenalmente na TRIBUNA DO NORTE. “A literatura e a medicina estão vinculadas. O médico escreve desde o tempo de estudante as histórias dos doentes e está ligado com os sofrimentos e dramas humanos. Tudo isso contribui para uma aspiração literária. No Brasil, temos grandes escritores médicos que são referências para mim, como Moacyr Scliar”.

Educação
A educação é outra vertente que o compõe e, consequentemente, está registrado na sua obra. Começou a ser professor ainda nos tempos de medicina, quando deu aula de ciências para as escolas básicas de Natal. Depois, ingressou na UFRN e foi o primeiro reitor eleito após a ditadura militar, cargo que exerceu entre 1987 e 1991. Aposentado,  esteve à frente da implantação do ensino superior da Liga de Ensino do RN – instituição fundada em 1911 que agrega as rotinas educacionais da Escola Doméstica, da escola Henrique Castriciano e da Uni-RN. O resultado desta relação foi a biografia sobre a educadora potiguar Noilde Ramalho, lançada em 2004.

Apesar de sempre ter a literatura ao lado, a ideia de se dedicar a escrita surgiu nestes tempos em que ocupou cargos administrativos. “Eu me apaixonei pela literatura de verdade quando um professor me apresentou Machado de Assis, depois conheci outros, mas só me dediquei a entender técnicas de escrita e estudar isso quando estava em uma idade já avançada”, conclui. As principais influências são o poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1582- 1616), o romancista brasileiro Machado de Assis (1839-1908), o historiador e antropólogo potiguar Câmara Cascudo (1898-1986) e o médico já citado Moacyr Scliar (1937-2011).


Crônica: O gênero mais próximo
A obra literária de Daladier da Cunha Lima é marcada pela crônica. Os 14 anos de publicação na TRIBUNA DO NORTE estão recortados temporalmente e reunidos no livro Retrato da Vida, o qual publicou em 2015 com 86 textos. No prefácio do livro, o professor de literatura João Maria de Lima escreve que “a crônica entrou em sua vida de tal forma que o homem se confunde com sua obra” para resumir a ligação entre o médico e o gênero.

A crônica conta com inúmeros escritores reconhecidos no Rio Grande do Norte. Na Academia Norte Riograndense de Letras, Daladier se une a cronistas como Sanderson Negreiros, Vicente Serejo, Woden Madruga (ainda não tomou posse), Armando Negreiros e o irmão Diógenes da Cunha Lima. Outros,  como Ticiano Duarte e Newton Navarro, já passaram pela instituição. Para o médico escritor, o que justifica a popularização do gênero no Estado é a influência de Luís da Câmara Cascudo.

“Todos da minha geração olham Câmara Cascudo como grande referência. Ele publicou crônicas no jornal A República por muito tempo e tivemos esse contato. Ele foi historiador, antropólogo, jornalista, mas também um grande cronista”, declara. “Eu acredito que esse seja o grande motivo para termos tantos grandes cronistas no Rio Grande do Norte”, conclui.

Os próximos trabalhos de Daladier continuarão, por hora, dentro da crônica. Ele pretende aprofundar a questão da medicina e da literatura nos textos e, quem sabe, publicar um livro com mais uma reunião de crônicas.


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