O míope

Publicação: 2020-10-21 00:00:00
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

A coluna dedicará suas crônicas esta semana a Pelé, a eternidade em 80 anos carnais celebrados mundo afora. Ele nasceu a 23 de outubro. Extraterrestre, vive para além da paranormalidade. O primeiro texto é este: 
Ele jogava apenas por prazer. Por lazer. Recebera, meses antes daquele 26 de setembro de 1973, lacrimoso telegrama do general-presidente Emílio Garrastazu Médici, “rogando-lhe “a volta à seleção brasileira para a  Copa do Mundo de 1974.  

Polidamente, mas com firmeza, Ele(com E maiúsculo), recusou o apelo de quem não costumava pedir, mas ordenar, também em mensagem dos Correios: “Não posso enganar o povo. A seleção brasileira terminou para mim em 1971”. 

Pelé comandava um Santos de lampejos e distância do timaço que encantou o mundo na década anterior. Craques, além dele, O Intangível, havia Carlos Alberto Torres, Clodoaldo e o mágico canhoto Edu, em frevos dribladores pela ponta-esquerda. 

Entediado, desceu em Natal para enfrentar o América. Jogara antes na cidade em 1971, contra o próprio time rubro no velho Estádio Juvenal Lamartine, quando marcou, de falta, o gol da vitória no amistoso vencido pelo Peixe por 2x1. No ano seguinte, Pelé enfrentou o ABC e marcou um dos gols da vitória por 2x0(Edu fez o outro), em jogo do Campeonato Nacional. 

A chegada de Pelé a Natal em 1973 gerava ebulição na tranquilidade aldeota de uma cidade que tomava conhecimento da posse do novo presidente da Federação das Indústrias(Fiern), Expedito Amorim, solenemente comandada pelo Delegado do Ministério do Trabalho, Derval Bezerra Marinho. 

O Hospital dos Pescadores, nas Rocas, fechava suas portas por falta de recursos de um convênio federal, conspirava-se sobre a sucessão do governador Cortez Pereira, no tempo em que sentava na cadeira o indicado pelos militares.

O  Supermercado Minipreço, o mais famoso, destacava a promoção de um duvidoso uísque da marca Branfort. O ABC, suspenso de competições nacionais por escalar três jogadores irregulares em 1972, excursionava pela Europa e África. 

Pelé e o Santos, nesta ordem, se hospedaram no Hotel dos Reis Magos, cujos escombros foram derrubados em janeiro de  2020. O Rei foi instigado pela imprensa radiofônica e chamado de míope e superado.Um grupo de abecedistas vestiu-se de América e provocou Pelé. Ele  faltou a um programa de entrevistas com estudantes universitários, o Xeque Mate, da TVE e alegou desencontro: 
“Depois de 20 anos de carreira como jogador de futebol, sempre com aquela imagem de atender bem, não seria agora, quando estou abandonando a carreira, que daria essa de grosso. Além do mais porque sou cidadão natalense e respeito os estudantes de jornalismo”, declarou Sua Majestade ao jornal Tribuna do Norte. 

O América estava invicto e era o melhor time do Norte/Nordeste, conquistando a Taça Almir, referência ao polêmico artilheiro assassinado naquele ano. Seu astro era o zagueiro central Scala, companheiro de Pelé na seleção brasileira nas Eliminatórias da Copa de 1970. Em 1969, as Feras do jornalista João Saldanha encantaram o planeta. 

O jogo foi numa quarta-feira à noite e o Castelão(depois Machadão), recebeu um dos maiores públicos de sua história: 41.736 pagantes. O estádio tremia e o América sentiu o peso da fúria de um monarca provocado. 

Pelé driblou, lançou, correu, chutou, cabeceou e gingou como o menino de 17 anos em gramados suecos em 1958. Fez três gols, dois deles no primeiro tempo, que acabou 4x0. Santa Cruz descontou para o América. 

Hermes fez 5x1 e Pelé deu o tiro de misericórdia aos 45 minutos do segundo tempo, fazendo o sexto em jogada pessoal. Foi sua última partida em Natal e o 6x1 doeu na alma americana. Com Rei, ninguém mexe. 

Súmula 
AMÉRICA 1X6 SANTOS 
LOCAL: CASTELO BRANCO(CASTELÃO)
JUIZ: LUIS CARLOS FÉLIX(RJ)
AUXILIARES: NELSON LUZIA E AFRÂNIO MESSIAS(RN).
RENDA: Cr$ 240.831,00
PÚBLICO PAGANTE: 41.736 
GOLS: Pelé, Mazinho, Eusébio, Pelé, Santa Cruz, Hermes e Pelé. 
América: Ubirajara;Mário Braga, Scala, Djalma e Chico; Afonsinho, Careca e João Daniel(Santa Cruz); Almir(Bagadão), Hélcio Jacaré e Gilson Porto. Santos: Cejas; Hermes, Carlos Alberto Torres(Bianchi), Vicente e Zé Carlos; Clodoaldo, Léo Oliveira(Brecha) e Pelé; Mazinho, Eusébio e Edu
Créditos: Divulgação

Ruim 
Foi ruim  o jogo ABC 1x0 Frei Paulistano(SE). Diá está fazendo milagres com os desfalques sofridos. O gol foi um achado pois o resultado o time não engrenou. Importante foram os três pontos. 

Giva 
Machucado no ABC. Tiro errado. Tempo curto. 

Desabafo 
A vitória do América sobre o Salgueiro fora de casa serviu como desabafo silencioso do técnico Paulinho Kobayashi às críticas de quem defende reserva de mercado, somente o uso de jogadores locais com radicalismo.

Goleiro 
A barração do goleiro Everton não foi justa e Kobayashi pode ter ajudado a queimar um dos nomes de futuro promissor do futebol potiguar. Só se tira do time quem está jogando mal. 

Robinho 
Sob todos os aspectos, Robinho é um canalha. Participou da agressão à mulher albanesa junto com outros cinco pústulas. Sentimento de impunidade. Na Itália é diferente.










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