O mapa musical do maestro é a rua

Publicação: 2019-04-28 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Tomar aquele banho de mar no pé do Morro do Careca, sentar para uma cervejinha gelada à tarde no Parque dos Coqueiros, comer uma buchada às 4 da madrugada na Feira de Lagoa Seca são prazeres que Francisco Bethoven Michielon da Silva desfruta com a satisfação de quem acabou de mandar um solo de sax arrebatador no salão. Francisco, no caso, é Chico, Chico Bethoven, um dos músicos que mais toca na noite natalense.

Chico Bethoven, Instrumentista, maestro
Representante da tradição centenária de bandas de música do interior, o saxofonista Francisco  Bethoven Michielon da Silva, o Chico Bethoven, transita pela cidade, do Parque dos Coqueiros ao  largo do Atheneu,  com o mesmo entusiasmo com que passeia por distintos gêneros musicais como o choro e o reggae

Representante da tradição centenária de Bandas de Música do interior, esse saxofonista transita pela cidade com entusiasmo semelhante ao que atinge ao passear por tão distintos gêneros musicais. Para se ter uma ideia da versatilidade do cara basta prestar atenção nas quatro bandas que ele toca atualmente: Perfume de Gardênia (de ritmos latinos), Frevo do Xico (de ritmos carnavalescos), Choro do Elefante (chorinho) e Alphorria (reggae) – esta, por sinal, está com disco pronto pra ser lançado no segundo semestre.

Se existe um mapa musical, é certo que no de Bethoven não há muros, apenas ruas livres pelas quais o artista atravessa com seu sax dourado, um sax que já foi ouvido em vários quantos do Brasil, seja quando o músico integrou o naipe de sopros do Cidade Negra, ou quando fez parte da banda de Beto Barbosa, ou na fase solo da forrozeira Walkíria Santos (Magníficos).

Mas o músico não atua só no palco. Ele também é professor de música e arranjador com destacado trabalho de produção musical no estúdio Beju Produções, mantido ao lado do irmão Jubileu Filho (guitarrista). Pelo estúdio, que está completando dez anos de atividades, já passaram os principais compositores que hoje vem movimentando o circuito de samba de Natal – tanto os mais novos, como os veteranos, a exemplo da Velha Guarda do Samba das Rocas. “Gosto dos ritmos que estão na raiz da música brasileira”, diz o artista, que nesta entrevista lembra vários momentos dos seus mais de 30 anos de carreira.

Banda de interior
Venho de Banda de Música, em Currais Novos, a Banda Maestro Santa Rosa. Ela é centenária. Eu tinha 13 anos. Minha formação foi ali. Minha e do meu irmão Jubileu. O ano era 1984. A escola de música no interior é a banda de música. É lá que a gente troca figurinha  quando encontra com outra banda, faz cópia de partitura. Nessas bandas, além de tocar dobrado, valsa, esses ritmos europeus, a gente também toca choro. O choro é como se fosse uma música de estudo pra gente. Foi um aprendizado muito rudimentar o que tive, mas no meu primeiro ano eu já estava fazendo minha primeira apresentação, tocando trombone de válvulas, na festa de reveillon de Currais Novos. Depois, no carnaval, foi a mesma coisa. Desde então não parei mais.

Banda baile 
Cheguei em Natal em 89. Vim para tocar N'Os Terríveis, uma banda baile famosa naqueles tempos. Já cheguei tocando no carnaval. Toquei quatro anos na banda, sax e percussão. O Dorgival Dantas passou por lá no meu tempo. Compositor e músico sensacional. Solange (ex Aviões do Forró) também passou por lá, mas eu já tinha saído. Sai pra montar o Alphorria.

Reggae
Montei a banda em 94, com Silvinho, Julian, Carlos Suassuna, Dudu Taufic, Júnior, Rildo. Banda de reggae mesmo. No ano seguinte gravamos um disco e fomos convidados para sair em turnê com o Cidade Negra. Dessa aproximação entrei no estúdio para gravar o “O Erê” com o naipe de sopros do grupo. A gravadora gostou e me colocou na banda. Passei dois anos no Cidade Negra. Fiz a turnê “Quanto mais curtido melhor”.

Lambada e forró
Do reggae foi para a lambada, tocar com Beto Barbosa naquele revival dele. Depois toquei com Valquíria Santos, que vinha de uma carreira de sucesso com a Magníficos, fiquei cinco anos com ela. No forró também cheguei a participar tocando sopro nos discos das banda Cavaleiros do Forró e Circuito Musical.

Música Latina
A inspiração pra montar essa banda veio quando eu estava em turnê com o Cidade Negra nos Estados Unidos. Numa das aberturas do nosso show tocou o Elvis Crespo, um cantor de merengue. Vi aquilo e achei que ia combinar muito com o clima de Natal. Quando voltei montei a banda com meu irmão. Fomos pioneiros aqui no Nordeste, depois surgiu Capim Cubano, Cuba Livre. Hoje o Perfume de Gardênia está com 18 anos e tem quatro cds lançados.

Chorinho
O RN tem uma tradição forte de choro. A começar por K-ximbinho. Ano passado lançamos um disco em homenagem a ele, “Eternamente K-Ximbinho”. Foi composto por um coletivo de artistas que atua no choro aqui na cidade. Gravamos seis composições do artista e seis nossas. Priscila Mattos, Laryssa Costa, Choro Real, Choro Bom, Família Pádua, essa turma.

Samba
Estamos fazendo esse trabalho de registro do samba autoral da cidade. Começamos em 2010, com o primeiro disco do Arquivo Vivo. Depois veio o Debinha Ramos e a partir dele chegamos nos mestres das Rocas. Zorro, Seu Aluísio, Poeta Souza e Seu Evilásio. Além deles gravamos também Andiara Freitas, Dodora Cardoso, Carlos Brito, Marcos Souto. Nos 10 anos da Beju já gravamos mais de 400 sambas autorais.

Raiz Brasileira
Eu gosto de tudo. O reggae é paixão das antigas, filosofia que está na minha formação pessoal. O choro também é incrível. É a mistura, está no sangue do brasileiro. Tem os batuques africanos com a música que veio da Europa, o sistema tonal. Se bem que Hermeto Pascoal já quebrou esse paradigma ai. O frevo também, adoro. Comecei a tocar frevo em Currais Novos. Cara, Sempre gostei de música de raiz, da raiz brasileira.









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