O Memorial Oriano de Almeida

Publicação: 2020-07-26 00:00:00
A+ A-
Claudio Galvão
Sócio do IHGRN


Já é tradicional e consagrado o ato de se dedicar um local público onde se recorde a vida e venere a memória de alguém que, por seus méritos, venha a merece-lo.

O pianista Oriano de Almeida, nascido no Pará, teve sua infância e formação musical em Natal, daqui evoluindo para o sul do país e, posteriormente, para o exterior. Era considerado um dos maiores conhecedores da vida e obra de do compositor Frédéric Chopin tocando, de memória, todas as suas composições, feito poucas vezes alcançado por um pianista. Inúmeras foram as suas audições e cursos que ministrou em Natal, no país e até no exterior (Lausanne, Suíça, em francês; abril/maio de 1972). Famoso foi o episódio de sua participação em um programa na nascente televisão paulista (“O céu é o limite”), onde respondia perguntas sobre a vida e obra de Chopin, havendo obtido o maior prêmio até aquele momento dado a um concorrente.

Problemas saúde levaram Oriano a abandonar o piano. Tinha apartamento montado no Rio de Janeiro, mas decidiu viver em Natal, sozinho em um hotel, já sem as visitas anteriormente constantes dos “amigos”, que sempre se afastam nas horas difíceis. Foi, então, que decidiu desocupar o apartamento no Rio de Janeiro e trazer todo o seu acervo de livros, documentos e fotografias para Natal. Alugou um apartamento no hotel onde morava para alojar suas lembranças. O seu piano foi doado a uma instituição de caridade. Os livros foram doados à biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico mas o acervo de fotos, documentos, recortes de jornais, cartazes de audições, mereciam uma destinação especial. Assim, nasceu a ideia da instalação de um memorial na sala principal do anexo da instituição.

O presidente Enélio Petrovich, amigo pessoal e admirador de Oriano, conseguiu recursos em doação e os expositores foram confeccionados sob medida. A organização e montagem ficou a cargo do autor deste texto. Além da parte em exposição, possuía outra para a guarda do material recebido, muito mais numerosa que a que foi destinada à visualização dos visitantes. Toda a doação foi cuidadosamente relacionada e recebida pelo presidente da instituição, com cópia arquivada.

Assim, no dia 17 de julho de 2001, foi inaugurado o Memorial Oriano de Almeida. Muitos velhos amigos e alguns admiradores ali estiveram. Momentos de muita emoção. O presidente Enélio Petrovich leu um texto escrito por Iris Bianchi, (esposa separada de Oriano, residente no Rio de Janeiro), em que recordava momentos felizes da vida do casal. O homenageado não suportou e caiu no choro. Todos se emocionaram. Depois, descerramento de placa e tudo voltou ao que era antes. Oriano faleceu em 11 de maio de 2004.

As mudanças feitas pela atual administração do presidente Ormuz Simonetti na estrutura do Instituto Histórico levaram à conclusão de que um memorial de um artista não estava ali instalado como sendo o local ideal. Contatos com a direção da Escola de Música da UFRN concluíram com a transferência de todo o acervo para aquela escola, local acertado e ideal para um grande artista que foi, também, professor daquela escola. Uma rápida contagem registrou: cartazes: 7; diplomas: 11; livros diversos: 78; livros sobre Chopin: 18; cartazes: 10; partituras: 49; outros: casaco, smooking, flâmulas, discos diversos (78 rpm, LPs, compactos).

Efetuada a transferência, aguarda-se agora a inciativa da Escola de Música de instalar, condigna e definitivamente, as lembranças de Oriano de Almeida em um local apropriado, onde o afluxo de professores, alunos e o numeroso público que ali comparece a recitais e outros eventos possa recordar, conhecer reverenciar a vida e grandeza da arte de Oriano de Almeida.

Natal, 15 de julho de 2020, aos 99 anos do nascimento de Oriano de Almeida.