O menestrel

Publicação: 2020-08-09 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação



Todo mundo arrasta um mundo. Pequeno ou grande. Rico ou pobre. Tanto faz. Um mundo feito das lembranças que foram ficando pregadas nas paredes, como se a memória, com o tempo, construísse um velho casarão e nos seus salões de silêncios arqueados a saudade também fosse pendurando os retratos do passado. Alguns, às vezes, sequer deixaram os nomes, numa estranha galeria de rostos que nos traços das suas fisionomias contam a memória anônima de cada um.   

Faz parte desse mundo um personagem do tempo que morei no alto da ladeira da Rio Branco, olhando o sono da Ribeira nas tardes de domingo. Era um velho tanoeiro que teimava em viver nos escombros que restavam do incêndio que devorou, num espetáculo de chamas, o antigo mercado da Cidade Alta. Ali, onde depois foi feita a então majestosa sede do Banco do Brasil, inauguração festiva que iria cobrir como repórter do Diário de Natal, tão morto e tão vivo.  

Ficou nos olhos, se não é um exagero comparar, como o Quasímodo, personagem de Victor Hugo no grande romance ‘Notre-Dame de Paris’. Arrastava uma perna, desde nascença, como dizia. O jeito andrajoso parecia compor um cenário de fantasmas prisioneiros daquelas muralhas escuras, espantando a imaginação dos vizinhos. Uma noite, as labaredas iluminaram com suas chamas a escuridão daquelas ruas quietas diante de uma multidão cheia de espanto. 

Seu nome era Joaquim. Vivia na carcaça de um carro grande, abandonado na calçada do mercado, e era lá que fazia as suas tinas e barricas. Serrava as tábuas, arredondava as aspas e ia emendando com cravos de ferro que esmagava com fortes marteladas. As tiras de madeira eram molhadas e depois aquecidas na chama do fogareiro que ardia do lado de fora da carcaça do carro para que fossem envergadas, se é possível dizer assim, realizando os seus pequenas milagres.  

Era, sem exagero, como um artesão medieval. Pronta, com as tábuas presas nas cavas que abria nas extremidades dos tampos redondos, enchia-as de água e deixava ali. Se a água vazava, apertava mais numa vez as aspas até seu lacre perfeito. E saía, certos dias, com as barricas numa carroça, em busca do Alecrim. Era por lá que entregava a um comerciante que comprava para revendê-las. Seu Joaquim vivia desse seu ofício que dizia ter herdado do seu pai, em Macaíba.  

Nas tardes de domingo ele gostava de cantar canções. E inundava com um dó de peito as ruazinhas vazias que cercavam o silêncio dos escombros do velho mercado, tisnado pelas chamas desenhando fantasmas nos paredões. E sempre cantava o mesmo samba-canção de Lupicínio Rodrigues, como um Nelson Gonçalves, enlouquecido de saudade, feito um velho menestrel da solidão: “Você parece uma brasa / toda vez que eu chego em casa / dá-se logo uma explosão...”. 

ALVO - São fortes as especulações de que Álvaro Dias é o alvo das críticas veladas disparadas pelo ex-prefeito Carlos Eduardo Alves. Queixas e queixumes que esta coluna avisou bem antes.

RAZÃO - Mas não seriam por veto de Álvaro Dias ao nome da advogada Aila Ramalho, prima da mulher de Carlos. Uma fonte garante que nunca houve veto: “Carlos deve ter outras razões”. 

ÁGUA - Há espinhos que espetam o silêncio entre Carlos e Álvaro. O marketing de Dias teme a perda do apoio de Alves e joga água no foco de lenha. Mas há também quem sopre a chama. 

EFEITO - Uma coisa os dois lados, sem que um reconheça diante do outro, combina no ponto: Aila Ramalho, como vice, joga na luta feroz o ex-prefeito. No risco de correr a derrota pessoal.

PREGA - Todo o campo político em torno da sucessão de Natal tem consciência de que Álvaro pode ser candidato a governador. Neste caso, Aila assumiria a Prefeitura, fortalecendo Carlos.   

ALIÁS - Neste momento, ainda há quem não tire os olhos do deputado Hermano Morais como a alternativa de Carlos Eduardo. Como um crupiê invisível a avisar: ‘Senhores, façam o jogo”. 

SILÊNCIO - Já o deputado Hermano Morais - pelo sim, pelo não - cercou-se de um silêncio de ferro. Quem insinua qualquer tipo de especulação, Morais solta o gás paralisante e nada afirma. 

PECADO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ouvindo queixumes na vidinha política aldeã: “Álvaro, além de deixar rusgas no passado, superou como sucessor de Carlos”.  

MORTE - Uma pesquisa feita pelo Centro de Ensino Superior do Seridó - Ceres - da UFRN, constatou que 55 quilômetros quadrados da caatinga arbustiva seridoense sofre uma profunda degradação, o que talvez dentro de alguns anos se transforme num processo de desertificação.

ANTIGO - Os primeiros sinais de degradação da caatinga foram identificados ainda na década de oitenta, pelo agrônomo Vasconcelos Sobrinho, ao relatar a situação do Nordeste na reunião internacional que traçou o mapa da desertificação no Brasil. Hoje já são 55 Km2 só no RN. 

ONDE - Pelos primeiros dados da pesquisa, uma das faixas hoje mais atingidas fica na região do município de Jardim de Piranhas. A seca natural, com a práticas inadequadas de agricultura e criação de gado, aceleram a degradação. Antes, foi a cultura algodoeira, hoje quase extinta.


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