O Mito Diego Maradona

Publicação: 2020-11-29 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com


Meu mano ca√ßula Rubinho Lemos contou sexta-feira em sua coluna que um dia, nos anos 1980, adentrou o caldeir√£o de La Bombonera e foi acometido pelo desejo de sequestrar o craque Maradona, √≠dolo do Boca. Deve ter se contagiado, de forma avessa, das a√ß√Ķes das barra-bravas quando no passado sequestravam ministros de governo por meros interesses clubistas. Em 2015, fiz algo do g√™nero ao tentar convencer cidad√£os argentinos da superioridade individual de Lionel Messi e de Di Stefano em rela√ß√£o ao √≠cone da na√ß√£o.

A Copa Am√©rica estava rolando nos est√°dios do Chile, principalmente os hist√≥ricos Sausalito e Nacional, onde a magia de Man√© Garrincha foi absoluta e mostrou ao mundo como era poss√≠vel um craque ganhar uma copa praticamente sozinho. Ali√°s, o feito do nosso anjo torto era um dos argumentos que eu ouvia em favor de Dieguito, o cavaleiro solit√°rio que enfrentou as tropas coreanas, italianas, b√ļlgaras, uruguaias, belgas, inglesas e alem√£es em 1986.

Créditos: Divulgação

Nos bares, cafés, livrarias, lojas e nos táxis, eu travava debates, procurando manter um tom pacífico quanto às genialidades dos grandes craques hermanos. Não houve uma vez só que um portenho concordasse comigo.

Circulei nos arredores do estádio La Bombonera, tomando cerveja e comprando souvenires, e invariavelmente a paixão por Maradona era algo intangível para o meu argentino preferido. Aliás, até Carlitos Tevez o superava.

Eu sei, pelo que já li e pelo que vi, que nenhum povo se compara ao argentino no fanatismo pelo futebol. Na Argentina, o esporte bretão só chega na mente depois que passar pelo coração. Nada se compara à rivalidade Boca x River.

Mas naquele meio de ano de 2015, havia um clima estranho no ar, era visível alguma indiferença nos bares com os jogos da seleção albiceleste. A presença de Messi não conseguiu suprir a decepção nacional pela ausência do Tevez.

Mesmo quando o time chegou na final, contra o Chile (e repetiria a mesma final no ano seguinte nos EUA), os √Ęnimos dos portenhos ‚Äď pelo menos pra mim ‚Äď n√£o era aquela coisa empolgada, maluca, irracional que a gente v√™ em copas.

Voltando a Maradona, sua morte e a comoção mundial foram esclarecedoras para que eu separe o craque do mito quando voltar a compará-lo com seus compatriotas Messi e Di Stefano. Porque o ídolo é algo maior que os gênios.

Concordo com o nosso gênio Tostão quando diz que no quesito regularidade Maradona não alcançou a grandiosidade que Messi exibe ao mundo desde 2005; nem teve as glórias de anos seguidos que Di Stefano teve na Espanha.

O saudoso jornalista Armando Nogueira, que me deu a honra de ter escrito seu √ļltimo pref√°cio para uma colet√Ęnea que lancei em 2002, dizia que Garrincha era o jogador mais genial no seu tempo e Pel√© era o mais fant√°stico atleta.

√Č nesta separa√ß√£o entre a lenda e o craque eu sempre listei Maradona atr√°s do quinteto (pela ordem) Pel√©, Messi, Cruijff, Di Stefano e Garrincha. E nunca uso o peso da Copa, pra n√£o ser injusto com Zico, Eus√©bio, Puskas e George Best.

Maradona como jogador faz parte do panteão aonde estão todos estes, e como ídolo pertence à eternidade das mitologias. Se para mim e muitos Messi é o maior craque argentino, ele já é o maior símbolo do país, virou uma bandeira.

A morte apenas confirmou o que já era e não queríamos afirmar diante da História: Maradona é o maior emblema da Argentina, acima de Evita, Gardel, Borges, Fangio, Perón, Guevara, tango, o futebol e as mães da Praça de Maio.


Aparelhos

Chega a ser hilário assistir o contorcionismo verbal e o cinismo estético dos apresentadores da GloboNews e CNN a serviço da candidatura de Guilherme Boulos, mas tentando disfarçar como se repercutir o Datafolha é só jornalismo.

Desperdício

Com audi√™ncia zero desde que Lula a inventou, a TV Brasil √© uma usina de gastos e um grande cabide para jornalistas sem espa√ßo no mercado privado. √Č subordinada √† EBC, estatal desnecess√°ria que hoje tem 1.877 funcion√°rios.

N√ļmero 1

O que já é normal na imprensa argentina, até mesmo em países europeus, de que Maradona foi o maior de todos os tempos provocou polêmica ontem com a matéria do jornal O Globo comparando Diego e Messi com o próprio rei Pelé.

Magia

Da jornalista Mar√≠lia Ruiz, da Band Sports: ‚ÄúAssisto √†s mat√©rias dos colegas sobre Maradona e choro, enfim, choro copiosamente pela perda daquele que me apresentou √† m√°gica da Copa do Mundo, o maior espet√°culo da Terra‚ÄĚ.

√ćcone

Hoje o ator Francisco Cuoco faz 87 anos, um dos monstros da dramaturgia nacional quando existiam grandes astros na TV. O vi em 1966 e 1968 nas novelas Redenção e Legião dos Esquecidos, na fraca sintonia da TV Excelsior.

Mais poesia

As brasileiras Jéssica Iancoski, Daniele Santos e Andreia Moema bombando com o projeto Podcast de Poesias Declamadas Toma Aí um Poema, um espaço digital de divulgação de poesia em português e de literatura lusófona.

O projeto

No podcast das três amigas, todos dias é declamado um poema de autores brasileiros, portugueses e outros, sejam os famosos ou os novos. Poetas interessados devem enviar textos para www.forms.gle/vxZTo6nC4sU7RuPT8

Domingo FC

Olho na TV para Southampton x Manchester United, Chelsea x Tottenham, Arsenal x Wolverhampton, Barcelona x Osasuna, Lazio x Udinese, Milan x Fiorentina, Napoli x Roma e Boca Juniors x Newell’s pela Copa Maradona.