O monstro silencioso da depressão

Publicação: 2021-02-26 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Por décadas, o retrato natural de Natal exposto lá fora tem sido o Morro do Careca. Mas de uns anos para cá, nossa capital apareceu na mídia nacional estampada na imagem artificial e metálica da Ponte Newton Navarro, depois que foram se multiplicando os números de suicídios e tentativas, ao ponto de ser estabelecido no local o plantão de um verdadeiro batalhão de soldados armados de amor e paciência na missão de apascentar almas desesperadas.

Em junho de 2008, publiquei crônica no saudoso O Jornal de Hoje em memória da primeira vítima de depressão que se suicidou na Ponte Newton Navarro, inaugurada por Wilma de Faria no ano anterior. Uma coincidência me estimulou a narrar o fim trágico da jovem chamada Zaine Heyla. No dia anterior, eu assistira num desses canais tipo Discovery o documentário “A Ponte”, de 2006, que abordava os incontáveis suicídios na Golden Gate de São Francisco.

Jornalisticamente, o texto cumpria o papel de registro histórico em contar a primeira morte por suicídio na nova ponte de Natal. E literariamente, prestava uma reverência a uma cidadã que perdia a vida para o monstro da depressão.

Aliás, foi esse mesmo monstro que matou minha mãe, senão por suicídio, mas com outra forma de tortura que só ele aplica e que dificilmente o doente consegue tempo e razão para compreender e resistir. Ele é dono da tristeza.

Foi somente ali, no processo de desânimo da minha mãe, que aprendi que depressão nada tem a ver com questão psíquica ou ausência de humor e alegria. É uma doença química que afeta o corpo sem dar chances ao espírito.

Quando percebi a incapacidade de minha mãe de se interessar em viver, após a partida do meu pai, seu marido por 54 anos, entendi que estava diante da mais maldita das doenças, a mais traiçoeira, pronta para pegar qualquer um.

E o pior é que o observador nem pode avaliar sintomas a partir do nível de alegria ou tristeza, já que até nisso a depressão não dá dicas. Acho que ela leu Leon Tolstói, para quem a tristeza pura é tão impossível como a alegria pura.

É medonho dizer isso, mas num depressivo muita alegria e muita tristeza podem ser exatamente a mesma coisa: um pedido de socorro acanhado, um apelo envergonhado de alguém que está aprisionado dentro de si mesmo.

Ontem, li uma resenha sobre o novo livro do escritor basco José Ignacio Carnero, um romance chamado “Homens que Caminham Sozinhos” (tradução livre), que aborda exatamente a depressão nesses tempos de mundo digital.

E o centro da sua narrativa é que nada é mais letal para o depressivo do que o seu silêncio alargado pelo silêncio alheio, e nada são mais necessários como possíveis lenitivos às suas dores internas do que a atenção e a companhia. 

Ele destaca entre alguns problemas as incertezas impostas pelas relações sociais na época das redes sociais, dos falsos vínculos do Tinder e da tentativa de extinção do modelo de masculinidade que o homem carrega na mochila.

Essa ilustração masculina é porque o protagonista do livro é um homem chamado Joseph, dividido entre dois mundos que já não se interagem na profusão de conflitos íntimos, sociais, ideológicos e financeiros tão presentes.

Carnero dá uma dica sociológica que pode ser uma chave para que o depressivo não caminhe só, nem caia no silêncio geral. Ele diz que a pessoa depressiva geralmente deixa de produzir e, muitas vezes, para de consumir. 

E o nosso sistema de vida está montado há mais de século no dois pilares que são produção e consumo; e nisto a depressão não atende a nenhum dos dois padrões. Ou seja, o depressivo não apenas é invisível, mas também mal visto.

Créditos: Divulgação

Ivermectina
O jornal britânico Daily Mail destacou na edição de ontem uma reportagem sobre vários estudos comprovando eficácia do vermífugo em reduzir contágio e letalidade do Covid-19. Os estudos serão publicados em uma revista científica.

Melhorias
Um trecho da matéria diz que “mais de 30 ensaios em todo o mundo descobriram que a Ivermectina causa melhorias repetidas, consistentes e de grande magnitude nos resultados clínicos em todos os estágios da doença”.

Leitos
Como diria Dorian Jorge Freire, “menas a verdade” sobre fechamentos de leitos no RN. É fato que não houve durante a pandemia, mas também é que antes foram fechados 84 leitos de enfermaria e 16 de UTI no Ruy Pereira.

São Paulo
O estado mais rico do País nunca sofreu um golpe tão terrível quanto o lockdown decretado por João Dória. Parar São Paulo entre 22h e 6h é paralisar o período mais produtivo de todo o abastecimento, principalmente na capital.

Conservadores
Muitas vezes o que parece coincidência é sintomático. No ranking de seguidores no Twitter entre ministros do governo, os líderes são Damares Alves (1,2 milhão) e Ernesto Araújo (773 mil). O ex Weintraub tem 1 milhão.

Conluio
Na quarta-feira, quatro redes de TV dos EUA combinaram não noticiar nos seus jornais noturnos (horário de pico) a denúncia de assédio sexual do governador de Nova York, Andrew Cuomo. São elas CNN, CBS, NBC e ABC.









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