O mundo blue de Renato

Publicação: 2020-07-29 00:00:00
A+ A-
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com 

Quando a notícia chegou, peguei os velhos LPs e iniciei meu ritual solitário de adeus e louvação ao agora saudoso Renato Barros, falecido ontem. Ouvi cada canção, cada hino que embalou minha adolescência lembrando dos inesquecíveis “assustados”, aquelas baladas residenciais de aniversariantes, me arrepiando nas memórias de um tempo que moldou o homem que sou hoje. A cada trago de cerveja, derramei uma lágrima, como aquela da velha música.

As gerações das décadas de 60 e 70 carregam impressas na alma, em tatuagens dançantes, as canções de Renato e Seus Blue Caps, a mais longeva banda pop em atividade no mundo. No batente e nos palcos há mais de 60 anos, desde a apresentou na Rádio Mayrink Veiga, no programa “Hoje é Dia de Rock”. O grupo se formou quando o rock chegou ao Brasil e quando a Bossa Nova saía do casulo do samba e do jazz para se tornar um gênero nacional.

Quando a beatlemania invadiu o Brasil e arrastou toda uma geração de músicos para o movimento Iê, Iê, Iê, Renato e seus amigos mergulharam fundo na onda e se tornaram referência musical, uma marca da então Jovem Guarda.

E se Roberto Carlos organizou o movimento, Renato botou os brotos para dançar. Suas canções e, mormente, as versões dos Beatles, se popularizaram tanto que o grupo virou cativo no programa de Roberto e Erasmo, na Record.

Foi exatamente com as versões dos Fab Four que Renato deu a grande virada para se tornar a melhor banda do Brasil naqueles anos 60. Tudo começou quando Carlos Imperial entregou um compacto para que ele cantasse na TV.

Num lado do pequeno disco dos Beatles tinha a canção “I Shound have known better”, que Renato reescreveu em português, sem qualquer relação com a original, e arrebentou no programa de Imperial, Brotos no Treze, da TV Rio.

Foi aquele programa que a adolescente carioca Sílvia Lília chamou seu amigo natalense Gileno Wanderley para assistir in loco, graças aos ingressos que ela pegou com o namorado, Renato, que logo juntaria a dupla como Leno & Lilian.

A versão dos Beatles batizada de “Menina Linda” foi um dos maiores sucessos do País e nunca mais parou de tocar em rádios e festas. Compôs o terceiro álbum do quarteto inglês, A Hard Day’s Night, e o filme homônimo, de 1964.

Bob Dylan achava que os anos 1950 acabaram por volta de 1965, e provavelmente o poeta maior da cultura pop estava certo. Foi um ano de explosão em todos os sentidos, da Guerra do Vietnã e do tecido sócio-cultural.

As passeatas por direitos civis arrastaram multidões após as mortes de Malcolm-X e do jovem Jimmie Lee Jackson; Lyndon Johnson tomou posse diante de um público só superado pela posse de Obama, 44 anos depois.

Os Rolling Stones gravaram “Satisfaction”; Os Beatles dominam as paradas e lançam Help e Rubber Soul; 3,5 mil mariners chegam ao Vietnã; The Byrds lançam “Mr. Tambourine Man” e Bob Dylan grava o hit “Like a Rolling Stone”.

No vulcão de acontecimentos do ano, no Brasil a geração da Jovem Guarda balança como nunca o esqueleto com o LP “Isto é Renato e Seus Blue Caps”, um disco que dará a real dimensão do maior conjunto de baile de um povo.

Recheado de versões dos Beatles, como “Feche os Olhos”, “Meu Primeiro Amor”, “Eu Sei” e “Sou tão Feliz”, o álbum consagrou o carisma da banda e embala desde então a geração que agora verte lágrimas na partida de Renato. 

O disco já tinha dez anos quando eu fiz 16 anos, em 1975, e me larguei no rock britânico, como o guri capeta de “Escândalo”, o hit que abalou de Norte a Sul.

Nos anos 90, tive o prazer de conhecer o ídolo na confraria do Cuxá. A imagem viva de quem colaborou com minha formação cultural e afetiva. Um cara que pintou de azul minha juventude. Um totem em carne e osso. Que os seus familiares e fãs tomem essa crônica como uma oração. Renato Barros continua vivo em todos nós.

Créditos: Divulgação


Biografia
No ano passado saiu sua biografia, “Renato Barros – um Mito, uma Lenda”, da escritora paulista Lucinha Zanetti. Meu mano Graco Medeiros dá um depoimento sobre o lado pioneiro dos Blue Caps, anterior às bandas inglesas.

Renato e Natal
Tinha muitos amigos na cidade desde os primeiros anos quando aqui se apresentou. Embalou as festas de aniversário de Ximbica nos 50 e nos 60 anos, e estava combinado de animar os 70. Vinha às vezes só pra passear.

A economia 
Na semana que o Manual da Folha aditou a palavra “despiora” como forma de reconhecimento disfarçado dos avanços econômicos do governo federal, o auxílio emergencial reduziu a extrema pobreza no País a índices dos anos 80.

Corona do B
Não me acostumo a ver a esquerda de Pindorama jogando a favor. A origem chinesa da Covid-19 impôs aos vermelhinhos reagir com ira a quem não teme o vírus. Se aparecer uma praga dos EUA, então veremos de novo em combate.

Lacração
O mundo conhece o tamanho estelar do tenor Andrea Bocelli. Imagino que ele esteja sem dormir depois que o dublê de escritor Gustavo Nogy publicou no Twitter uma dessas piadinhas com trocadilho a respeito da cegueira do artista. 

Vacinas
Das 163 vacinas em desenvolvimento pelo mundo afora, as três com maiores chances de rápida aplicação são a de Oxford, a da Pfizer e a da Sivomec. As patentes pertencem, respectivamente, a Bill Gates, aos Rothschild e ao PCC.

Exército 
O coronel do Exército, Erland Paiva, participou ontem da sessão virtual do Conselho Estadual de Cultura, onde expôs o posicionamento da instituição no projeto de urbanização de toda a área em torno da Fortaleza dos Reis Magos.