O mundo de Jacy já não cabe mais numa bolsa

Publicação: 2017-03-31 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França - Repórter
Colaborou: Cinthia Lopes - Editora

O grupo natalense de teatro Carmin completa sua primeira década de labuta nos palcos, com vários motivos para comemorar. Ano passado, circulou por 18 estados brasileiros, fez recente temporada no Sesc Pinheiros de São Paulo, e desde 2015 acumula elogiosas críticas da imprensa especializada, dos grandes veículos à crítica teatral, graças especialmente ao espetáculo “Jacy”, que em apenas quatro anos pôs o grupo num patamar elevado da dramaturgia local e nacional. Nada mais justo que “Jacy” fosse a peça escolhida para celebrar a ótima fase através de uma longa temporada, durante todo o mês de abril, aos sábados e domingos na Casa da Ribeira. O mundo de Jacy não cabe mais numa bolsa.
A força de uma história local e universal, que conquistou plateias e críticos
As dez apresentações seguidas de “Jacy” - um desafio para as tímidas agendas natalenses - refletem a persistência do grupo, segundo o ator e diretor Henrique Fontes. “Pra gente é um marco chegar aos 10 anos na ativa, fazendo teatro em Natal. Nesse tempo todo, fomos beneficiados só por dois editais públicos. Então vivemos mesmo da bilheteria, contando totalmente com o público para ir em frente. Essa temporada é um retorno para ele, o nosso público de Natal”, diz ele, que divide o palco e as histórias com Quitéria Kelly e Pedro Fiúza.

Vida de Jacy

“Jacy” é um passeio por diversos temas, que vão da história sentimental de uma mulher até a história de Natal, entremeados com política, abandono, romance e melancolia. A trama é contada através de cartas e documentos de uma velha frasqueira achada no lixo. Havia um lenço, próteses dentárias, uma radiografia, o cartão de um motorista de táxi, alguma correspondência comercial, recibos de postagens nos correios. Nascida na década de 1920, numa família rica do interior, Jacy atravessou a Segunda Guerra Mundial, a Ditadura Militar, esteve no centro de um importante conflito da política no Rio Grande do Norte, viveu um amor estrangeiro e terminou seus dias sozinha na capital potiguar, falecendo aos 90 anos.

O acaso que possibilitou “Jacy” é também um dos encantos dela. “O achado nos impactou muito porque a gente já vinha pesquisando sobre o processo de envelhecer. Era a prova que as histórias dos idosos costumam ser descartadas, e isso gerou todo o processo de investigação que levou à peça”, diz. O caminho escolhido foi o do teatro documentário, o mais adequado para costurar a dramaturgia  de uma pessoa real, baseada num estudo de sua vida pessoal. “Esse relato documental de Jacy permitiu que vários outros temas fossem ligados à trama”, conta. Os filósofos Pablo Capistrano e Iracema Macedo deram formato à narrativa escrita.

A repercussão da peça atingiu o público local e o de “fora” com um impacto parecido, o que gerou surpresa entre os atores. “Jacy nos trouxe um público incrível ao longo do tempo. A gente fala de coisas daqui, de sobrenomes, histórias e ruas que todo mundo conhece, então o texto bate forte pra quem mora aqui. A gente tem adolescentes e idosos na plateia, o que é algo impressionante para o Carmin”, explica Quitéria Kelly. Pedro Fiúza ressalta que também veio o interesse de plateias ligadas  à educação, devido a porção histórica da peça. “Alguns momentos são quase didáticos, por isso os professores adoram levar 'Jacy' para seus alunos”, diz.
No estúdio da TN, elenco reflete sobre a trajetória do espetáculo
Já as reações em outros estados também foram surpreendentes para o elenco. “No começo achávamos que, por ter uma história muito localizada, dificultaria a percepção do público de outros lugares. Mas não, porque as estruturas políticas da América Latina em geral são bem parecidas, então nossa história não causou estranhamento. A gente não mudou nada”, afirma Pedro Fiúza.

Quanto à crítica, que em geral amou a peça, Henrique acredita que a quebra de estereótipos causaram a surpresa e a boa impressão. “Nós não oferecemos a estética regionalista que muita gente espera do Nordeste. Passamos longe disso. Logo mostramos que a peça oferecia uma pesquisa séria, com uma camada dramatúrgica interessante. Também tem a linguagem documental, que não é muito forte no Brasil, é mais popular na Argentina. É uma peça urbana sobre uma bela história real”, diz. As críticas na grande imprensa e veículos especializados foram todas positivas. O Estado de São Paulo a indicou como um dos 10 melhores espetáculos do Brasil em 2015 e a Folha de S. Paulo.

O jornalista Paulo Henrique Amorim, que assistiu a peça espontaneamente, gostou tanto que convidou o grupo para uma entrevista. “Ele adorou a referência ao Walter Benjamin, um dos pensadores favoritos dele”, diz Henrique.

Comentários
"O achado nos impactou muito porque a gente já vinha pesquisando sobre o processo de envelhecer. Era a prova que as histórias dos idosos costumam ser descartadas, e isso gerou todo o processo de investigação
que levou à peça”


Henrique Fontes - Ator e diretor

"Jacy nos trouxe um público incrível ao longo do tempo. A gente fala de coisas daqui, de sobrenomes, histórias e ruas que todo mundo conhece, então o texto bate forte pra quem mora aqui. A gente tem adolescentes e idosos na plateia, o que é algo impressionante”

Quitéria Kelly - Atriz

"No começo achávamos que, por ter uma história muito localizada, dificultaria a percepção do público de outros lugares. Mas não, porque as estruturas políticas da América Latina em geral são bem parecidas, então nossa história não causou estranhamento.”

Pedro Fiúza - Direção cinematográfica

O que

Temporada de Jacy – 10 Anos do Grupo Carmin. Apresentações sábados e domingos de abril, às 20h, na Casa da Ribeira. Entrada: R$40 (inteira). Tel.: 3211-7710.


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