O nome é 'Riachuelo do Baldo'

Publicação: 2020-09-06 00:00:00
Ivan Lira de Carvalho
Sócio do IHGRN

Por muitas vezes tive que corrigir interlocutores afoitos ou desavisados acerca do topônimo de uma região da capital potiguar, posta na confluência de bairros mais abastados (Tirol e Barro Vermelho), com outro de feição mais histórica (o da Cidade Alta) e mais outro de cariz nitidamente popular, carente de infraestrutura, o Passo da Pátria, assim mesmo, grafado com “s” dobrado, por querer de Olinto Meira, Presidente da Província de 1864 a 1870,  em homenagem aos recrutados para a Guerra do Paraguai, que por ali passavam para o embarque rumo ao controvertido conflito internacional. Mas, voltemos ao nome, que decorre do Riacho do Baldo e não “Riacho do Balde”, como dizem os inscientes, associando a massa aquática a um utensílio de cozinha ou de pedreiros. E qual a razão de assim ser dito? Vamos aos fatos.

A origem do ribeirão é a Lagoa de Manoel Felipe, coração antigo do Tirol (outrora Cidade Nova), um baixio que hoje tem o nome burocrático de Cidade da Criança. Sangrando essa lagoa, que tem nascenças próprias, segue o curso rumo ao Potengi, escorregando para o poente, despejando-se no grande rio. Não é longo, pois mede cerca de mil e seiscentos metros de uma ponta a outra. Na metade dessa jornada tem o reforço de um tributário ainda mais modesto, criado com sobras hídricas internas da antiga Lagoa Seca, que se juntam ao fruto de outros pequenos olheiros; o conúbio ocorre na Avenida Juvenal Lamartine, sob as bênçãos do frescor do mangueiral do Parque Ney Marinho, cercanias de onde no século dezenove estava o sítio do Vigário Bartolomeu Fagundes de Vasconcelos, o Padre Memeuzinho, conforme registra Câmara Cascudo (História da Cidade do Natal, 1947, p. 212).

E qual a razão do nome Riacho do Baldo? Pois sim. O curso d’água, em si, é arcaico a se perder de vista. Foi dos primeiros bebedouros da gente que instalou Natal, 1599, no quadrilátero que hoje é a Praça André de Albuquerque, aliado à Bica da Santa Cruz, ali pertinho, limite sul da cidade e da Bica de São Tomé, do outro lado, no rumo da Ribeira. Tanto que as vias que iam do casario às fontes, atuais Rua da Conceição e Rua Santo Antônio, eram conhecidas apenas como “Caminho do Rio de Beber” ou “Caminho da Água de Beber”. Nos anos primevos, antes de jogar-se ao Potengi, o riacho fazia estágio de mansidão em um empoçado, no sítio nominado Oitizeiro. Lavagem de roupa e retiradas do precioso líquido daquele brejo inclinaram a administração provincial a edificar um equipamento público constante de um paredão, dando segurança hídrica aos usuários. Construiu-se o que a engenharia nomina baldo, ou seja, a parte mais alta de uma barragem. E o riacho que alimentava esse reservatório outro nome não poderia ter: Riacho do Baldo.

A propósito, essa benfeitoria secular – o Baldo – não mais existe. À míngua de outros locais de lazer e considerando que no início do século vinte o banho de mar ainda não era uma prática recreativa (lembre-se que Dom João VI usava as imersões na água marinha somente para curar sarnas e outras micoses advindas da sua sujeira), a população natalense acorria ao Baldo para convescotes e farrinhas. Foi o que bastou para que o médico Antônio China dirigisse carta à Inspetoria de Higiene, pedindo fosse arrasado o Baldo, apontando-o como criadouro de doenças, espalmando em sua missiva que o local se transformara em um “centro de immoralidades atravessado na principal entrada desta cidade”, por ser espaço “em que se banha constantemente desde o indivíduo portador da dermatite e da ulcera syphiltica até o animal gafeirento” (A República, 15 de junho de 1991).
Como desejado pelo discurso moralista do médico, o paredão foi destruído. Mas restou o nome, para o riacho e o seu entorno. Em tempo: é Baldo e não “balde”.

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