O novo suingue d’a Cor

Publicação: 2018-04-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Isaac Ribeiro
Repórter

A Cor do Som durou cinco anos, mas seus tons nunca deixaram de reverberar na música brasileira. Herdeiros diretos da musicalidade dos Novos Baianos, começaram como grupo instrumental e mais à frente introduziram vocais em seus temas, conquistando de vez crítica e público. Tornou-se clássica! Formada por Armadinho, Dadi, Mú Carvalho, Gustavo Schroeter e Ary Dias, a banda está lançando um disco que marca os 40 anos de sua trajetória brilhante, reafirmando o passado e apontando para o futuro.

Armandinho Macedo, Dadi e Mú Carvalho, Ary Dias e Gustavo Schroeter voltam ao estúdio para gravar disco comemorativo, lançado em versão digital e em breve, no formato vinil
Armandinho Macedo, Dadi e Mú Carvalho, Ary Dias e Gustavo Schroeter voltam ao estúdio para gravar disco comemorativo, lançado em versão digital e em breve, no formato vinil

São cinco composições novas e sete regravações de grandes sucessos d’A Cor, no pacote comemorativo de quatro décadas da inusitada e potente fusão sonora de pop, choro, trio elétrico e rock progressivo proposto pela banda no final dos anos 70, que a fez a grande surpresa musical daquela época.

O disco conta com participações especiais de Gilberto Gil (voz e violão em “Abri a porta”), Roupa Nova (em “Alto astral”), Samuel Rosa (voz em “Zanzibar”), Lulu Santos (voz em “Swingue menina”), Djavan (voz em “Alvo certo”), Moska (violão e voz em “Magia tropical”), Flávio Venturini (órgão e voz em “Eternos meninos”) e Natiruts (em “Semente do amor”). Entre as novas estão “Somos da cor”, “Sonho de Carnaval” e “Sou volúvel”, parceria de Dadi com Arnaldo Antunes e Marisa Monte.

Como grupo instrumental, gravaram os discos “A Cor do Som” (1977) e “Ao vivo no Festival de Jazz de Montreux” (1978). Já com Armadinho, Mú e Dadi nos alternando-se nos vocais, “Frutificar” (1979),: “Transe total” “(1980), “Mudança de estação” (1981), “Magia Tropical” (1982), “As quatro fases do amor” (1983), “Intuição” (1984) “O Som da Cor” (1985), “Gosto do Prazer” (1986), “A Cor do Som ao vivo no Circo” (1996) e “A Cor do Som Acústico” (2005).

Capa do álbum A Cor do Som
                                                       Capa do álbum A Cor do Som

O tecladista Mú Carvalho conversou com a reportagem do VIVER e relembrou algumas passagens do passado, analisou a influência da banda nos rock dos anos 80 e 90 e ainda comentou a falta de entrosamento com novas tecnologias em tempos de views e likes nas redes sociais.

Como você classificaria esse retorno da Cor do Som ao disco?
Mú Carvalho: Eu acho que, na verdade, 40 anos é uma data, um tempo de um grupo que eu sempre achei que não devia deixar passar em branco. Na verdade, a gente tem feito eventos shows esporádicos, algumas coisas, desde que a gente parou lá atrás. Por exemplo, em 2005 a gente gravou o “Ao Vivo no Canecão”, um DVD, também com convidados. Mas cada um tem sua vida, outros trabalhos. Eu mesmo estou na TV Globo desde 1994, fazendo música original pra novela; tenho meu estúdio, enfim. O Armadinho também tem a vida dele como artista solo. O Dadi com a Marisa Monte, Tribalistas. Então, juntar A Cor do Som de uns anos pra cá ficou uma coisa menos intensa de como era antigamente. Claro, pois antes a gente era só A Cor do Som.

Quando definiram o reencontro?
Há uns três anos, a gente teve a ideia de começar a gravar músicas novas para um possível disco. A gente vinha gravando no meu estúdio coisas inéditas… Quando chegou no ano passado, a gente viu que não ia terminar nunca aquilo. Com nós mesmos produzindo, a coisa nunca ficava pronta. Sempre que tinha de mexer alguma coisa. Um leva o HD pra casa pra gravar uma guitarra, outro vai fazer um violão. Sabe aquela coisa que não acaba nunca? Então foi quando a gente decidiu convidar o (Ricardo) Feghali (do Roupa Nova) para produzir. Ele adorou, ficou super-feliz, porque rola uma admiração mútua e uma história de uma época em que existiam praticamente três bandas no cenário, que eram A Cor do Som, Roupa Nova e 14 Bis. Então a coisa andou com Feghali e conseguimos terminar. A gente conseguiu realizar um trabalho muito bonito. Tivemos a felicidade de ter a presença de tantos cantores ilustres: Djvan, Gil, Lulu Santos, Flávio Venturini, Roupa Nova, Samuel Rosa, Natiruts, Estamos felizes e vamos seguir fazendo shows. Semana que vem a gente já tem Sesc Pinheiros, em São Paulo. Aos poucos estamos fazendo uma agenda, de acordo com as possibilidades.

E tem mais material que ficou de fora? Podemos esperar um novo disco?
Nós fomos bem objetivos; escolhemos as músicas, fechamos com elas e não sobrou material não. Quer dizer, ideologicamente nós temos material para fazer um volume dois tranquilamente. No disco, são cinco músicas inéditas e as outras foram hits, sucessos nossos daquela época com arranjos novos. Mas tem muita coisa que a gente não gravou ainda, que a gente poderia gravar num volume dois até, quem sabe…

O início da banda está totalmente ligado aos Novos Baianos, de quem vocês herdaram parte da musicalidade...
A história dos Novos Baianos em relação a gente é nítida, porque a gente vem do mesmo quintal. O Dadi, meu irmão, baixista da Cor do Som, foi primeiro baixista dos Novos Baianos, e a Cor do Som nasceu com a saída do Dadi dos Novos Baianos. Quando eles foram gravar o primeiro disco do Moraes, ali já tinha o embrião da Cor do Som; o Dadi, o Gustavo, o Armandinho e eu, o Ary ainda não estava. A relação com os Novos Baianos é importantíssima com a gente. É uma coisa muito forte. É como estivéssemos dando prosseguimento àquela coisa de misturar Santana e Jimi Hendrix com uma levada brasileira de baião, misturando com influências de Dorival Caymmi, João Gilberto.

Você acha que A Cor do Som influenciou outras bandas do rock brasileiro que vieram depois de vocês?
Com o rock que veio depois, o dos anos 80, eu não vejo relação nenhuma com a Cor do Som. O que eu posso dizer é que a maioria dessas bandas estavam ali na plateia da Cor do Som, eram super fãs da gente. Se for conversar com o pessoal dos Paralamas, com o Herbert, com o Bi, se falar com o Frejat, toda essa galera, Kid Abelha, pode ser que a gente tenha dado um gás em alguma coisa neles. Mas eu acho que, musicalmente, a gente não tem muito a ver com o movimento de rock dos anos 80.

Mas e com relação aos anos 90, com o Manguebeat, misturas de rock com samba?
Ah, eu acho que aí sim! Se for falar em Manguebeat, eu acho que pode ter uma historinha aí, porque é meio isso, uma coisa mais brasileira, com uma pegada de rock e tem a ver com a Cor do Som nesse sentido. Não exatamente a levada deles, mas esteticamente eu acho que sim, porque eles faziam uma coisa que não é um rock puramente rock, que poderia ser de qualquer nacionalidade. Não, eles têm uma coisa ali de quem tem um pé forte no Brasil.

Você sempre foi o cara dos teclados, moogs, timbres, tecnologia, o lado progressivo da Cor do Som...
Sobre essa coisa de teclados, aquela coisa progressiva da gente, realmente eu tive uma influência forte daquelas bandas progressivas inglesas, alemãs, o Yes, tinha a coleção inteira, ouvi demais Jethro Tull, Emerson, Lake & Palmer. Isso tudo influenciou demais a minha formação, juntando com as coisas que eu ouvia minha mãe tocando no piano, como Ernesto Nazareth, choro brasileiro… Eu pensava assim quando chegava no piano pra fazer uma música; as minhas músicas já nasciam meio progressivas.

Como vê a produção e o consumo de música hoje. Vocês acabaram de lançar o disco em todas as plataformas, mas vai ter CD, outras mídias?
Sobre as plataformas digitais, isso aí mudou completamente. Estou tentando ainda entender, porque eu sou das antigas (risos). Sou da época em que as pessoas compravam disco. E eu até hoje compro. Então eu estou tentando entender como funciona isso, como é que é pago isso, como fica o Ecad, como o dinheiro vem parar em nossa mão, quantos cliques e views precisa ter pra gerar alguma coisa, um retorno. Isso, eu estou engatinhando ainda, mas o fato é que CD físico está morrendo. É o que dizem. Eu não sou nenhum profeta pra saber disso. Não me sinto nem confortável pra falar sobre isso, mas diante do que eu fico ouvindo do que falam, eu fiquei mais animado de lançar fisicamente em vinil no segundo semestre. CD eu não sei se a gente vai fazer. O que tinha antigamente é que o cenário era muito menor, alguns artistas eram contratados das poucas gravadoras e a visibilidade era muito grande quando você tinha um contrato com uma gravadora. Hoje em dia não é mais gravadora. Você nem precisa ter gravadora. Você tem o Youtube pra subir um vídeo seu que pode gerar milhões de views ou não, mas o mundo inteiro está ali digitalmente.

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