O ouro de Sérgio Sampaio

Publicação: 2017-04-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Era 1991, o bar Casablanca em Ponta Negra recebia ótimo público para o show da noite. No entanto, no meio da apresentação, irritado com alguns tagarelas, o artista convidado larga o microfone e chama a produtora no canto: “Quero meu cachê agora”. A produtora entrega os 600 (dólares!) combinados e diz pra ele voltar para o palco: “Não sei como você vai trocar esse dinheiro por aqui, cara. Mas agora termina esse show!”. Antes de ir ele bate o pé: não vai cantar “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, seu maior sucesso.

No dia 13, Sampaio completaria 70 anos e a data será festejada com música e histórias em Natal
No dia 13, Sampaio completaria 70 anos e a data será festejada com música e histórias em Natal

O episódio lembrado pela produtora Danielle Brito é uma das muitas histórias da passagem do cantor e compositor Sérgio Sampaio por Natal, entre os anos 1991 e 92. Capixaba de Cachoeiro de Itapemirim (mesma cidade de Roberto Carlos), parceiro de Raul Seixas no disco a “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”, autor, dentre outras canções, de “Velho Bandido” e “Que Loucura”, o artista é um daqueles escanteados pela indústria da música que acabam ganhando a pecha de “malditos”.

Falecido em 1994 (em decorrência de uma crise de pancreatite), Sampaio completa no dia 13 de abril 70 anos de nascimento. Se em sua época ele não teve o esperado reconhecimento, hoje ele é cultuado não apenas por novos artistas de seu estado de origem, mas também peça cena musical de Natal. É o caso de Yrahn Barreto, que há quatro anos realiza apresentações especiais com o repertório do cantor. Nesta quinta-feira (13), a ocasião será ainda mais especial com a estreia da “Semana do Sampaio”, série de shows que se inicia em Natal, às 20h, no Teatro de Cultura Popular (TCP). Ingressos a R$ 20 e R$ 10.. No sábado, Yrahn se apresenta em João Pessoa, ao lado do percussionista Escurinho, e, no domingo, ao estilo voz e violão, o show acontece em Olinda.

“Sampaiófilos”
A apresentação em Natal será com banda e pontuada por intervenções poéticas de Civone Medeiros, exposição do acervo “Sampaiófilo” do poeta Antonio Ronaldo e bate papo com o próprio, que lembrará da estadia de Sampaio em Natal.

“Em 92, na segunda passagem dele por Natal, ele ficou cerca de 15 dias hospedado no meu apartamento. Eu passava o dia no trabalho e só nos víamos à noite, quando descíamos para algum bar”, recorda Antônio. Ele conta que naquela época Sampaio tinha pouco público, mas quem conhecia suas músicas era fã. “O Sergio tinha essa coisa de underground, de gueto. Seus shows em Natal foram em lugares pequenos, mas de bom público”.

Antônio lembra de dois outros shows, em Natal. Um no CCAB Sul, por ocasião da campanha política de Henrique Alves, e outro na cobertura de um prédio. “Ele vinha sem banda. Se apresentava voz e violão. Mostrou pra gente músicas novas que iria gravar no próximo disco, 'Cruel'”, diz. Sampaio faleceu antes de terminar o álbum. Foi o maranhense Zeca Baleiro que recuperou o material e o lançou em 2006. “Sergio era muito enérgico, genioso, ariano. Bebia e fumava muito. Eu ia dormir e ele ainda ficava bebendo, ao telefone. Era um artista de muita leitura, bom papo. Suas músicas são cheias de referências”, conta Antônio. “Da pequena convivência que tivemos, ele chegou a demonstrar uma preocupação comigo. Me alertava para não beber demais”.

Registros locais em vídeo e a lembrança de época

Alguns momentos da passagens de Sergio em Natal foram registradas em vídeo por Florizel Bicão Jr, amigo de Augusto Lula (marido de Danielle Brito) e estão disponíveis no Youtube. Bicão filmou o artista em ambiente informal, enquanto bebia com os colegas natalenses e tocava violão. Foram dois registros, um em 1991 e outro em 92 (desta vez já com o cabelo cortado). “Em 91 eu quem peguei o Sergio no aeroporto. Liguei antes para saber como eu ia o identificar. Ele disse que não seria problema. Ele seria o mais magro a descer no avião”, recorda Lula.

“O show no Casablanca não deu prejuízo nem lucro. O Sérgio ainda tinha mais três dias na cidade. A gente estava sem grana pra bancar as refeições dele. Então a gente o levava para casa de amigos”, conta Lula. “Liguei para o Bicão perguntando se dava certo aparecer lá com o Sampaio. Ele topo, separou um vodca. Passamos a tarde lá bebendo. Bicão sacou uma câmera vhs e filmamos o Sampaio no violão. Ele tava à vontade, era narcisista, egocêntrico como muitos artistas, mas não tinha frescura. Estava bem alto. Todos nós estávamos”.

Lula recorda algo curioso de Sampaio. “Quando fui apanha-lo no hotel pela primeira vez, ele tirou o violão da bolsa e estava todo empoeirado, cheio de teia de aranha, como se não tocasse a um bom tempo. Aquilo me chamou atenção”, diz. Danielle conta que trazer o Sergio para Natal pela primeira vez foi um insight de mesa de bar. Coisa de Augusto e João “da Rua” Batista de Moraes, que tinham desafiado a Danielle.

“Disseram que eu só seria uma produtora de verdade se eu fizesse um show do Sampaio”. Ela então prontamente foi atrás dos artistas que já tinha produzido shows para saber se algum tinha o contato do Sampaio, e, através do Xangai, conseguiu o telefone do flat em que o capixaba estava hospedado em Salvador. “Ele pediu pra receber em Dólar. A sorte é que Augusto tinhas uns guardados. No dia de ir embora, a equipe do hotel nos ligou pra dizer que o Sampaio tinha partido. Consumiu as coisas do frigobar, e, só tendo dinheiro em dólar, deixou o relógio empenhado. Nunca cheguei a ir lá pegar”.

Quando Sampaio morreu, Danielle ficou sabendo por um plantão da Globo. “Pedro Bial entrou com a notícia. Apresentou o artista como 'o compositor do Bloco na rua'. Fiquei triste com aquele comentário. O Sampaio tinha essa preocupação, buscava mostrar para o público outras canções, não queria morrer  como o compositor de uma música apenas. E ele tem várias”.

André Prando
No Espírito Santo, estado de origem de Sérgio Sampaio, músicas do artista estão no repertório de vários cantores locais. Na capital Vitória, ele é lembrado há 11 anos no Festival Viva Sampaio, cuja programação de 2017 envolve shows, bate papos e lançamentos de livro. Desde 2013 envolvido com a organização, o músico André Prando é um dos coterrâneos que sofreu influência de Sampaio. Em seu disco “Estranho Sutil”, de 2015, ele gravou a música “Última Esperança”, mostrada em Natal no Festival Mada. A letra ele conheceu em um registro feito pelo potiguar Bicão, em decorrência da visita de Sampaio a Natal.  Prando conta que em Vitória Sampaio é lembrado, mas não pela grande parte da população. “No festival Viva Sampaio, a gente sempre vê muita gente de mais idade. Mas cada vez mais jovens se interessam pela obra do artista”, diz. “Longe da mídia ele foi ficando esquecido. Mas hoje ele passa por uma redescoberta pela nossa geração”.

DISCOGRAFIA

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez (LP, 1971)
Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (LP, Philips, 1973)
Tem que Acontecer (LP, Continental, 1976
Sinceramente (LP, 1982)
Balaio do Sampaio - Tributo (CD, 1998)
Cruel (CD, 2006)
Sérgio Sampaio - Antologia (CD, 2002). (Série Warner 25 Anos)

Compactos

Coco verde/Ana Juan (1971) CBS
Classificados nº 1/Não adianta com part de Raul Seixas (1972)
Eu quero é botar meu bloco na rua (1972) Phillips/Phonogram
Meu pobre blues/Foi ela (1974) 6069 090
Velho bandido/O teto da minha casa (1975)
Ninguém vive por mim/História de boêmio (Um abraço em Nélson Gonçalves/77)

Colaborou: Cinthia Lopes - Editora.


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