O ouro do azul

Publicação: 2020-02-28 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: DivulgaçãoCamisasCamisas


A energia de Paulo Afonso chegou a Macau em 1965, já no final do governo Aluizio Alves. A moderna luz elétrica na cidade da minha infância, só chegava com a lua cheia, como no belíssimo verso de Jorge Fernandes. Alumiavam a vida os faróis das casas mais abastadas e, nas menos favorecidas, as lamparinas. Palavra luminosa e iluminada que até hoje deixou na memória a chama afetiva das réstias das coisas e das pessoas projetadas nas paredes da alma.

O que pode parecer a alegoria fantasmagórica de assombrações, e talvez projetasse nos olhos de um poeta algo de um mundo dos sonhos, a nós outros, os meninos daquele tempo, era apenas um pequeno espetáculo, natural e íntimo. É desse tempo que trago na memória afetiva a palavra ‘quarar’ que agora, anos e anos depois, reencontro no samba-enredo da Unidos do Viradouro, sem nunca ter desejado saber ser verbo transitivo e ao mesmo intransitivo, sei lá.

Quando li a palavra na tela da televisão saltaram de lá não as aguadeiras, expressão que nunca viveu nos ouvidos do menino, mas foi no refrão que a reencontrei: “Ó, mãe! Ensaboa, mãe! / Ensaboa pra depois quarar”. Ensaboa está viva até hoje, no uso corrente, patrimônio da oralidade coletiva para designar a lavagem de roupa. Mas ‘quarar’, era a forma usadada pelas pessoas de casa quando queriam dizer da necessidade de expor ao sol para clarear no calor.

Os mais velhos sabem que era esse o papel do anil que por sua vez não tinha o sentido de fórmula química. Era apenas um pequeno tablete azul, preso a uma renda fina, que uma vez misturado às águas das roupas clareava o branco e acentuava suas cores. Não havia máquina de lavar e era daquela reação que as roupas azulavam suavemente, depois das horas de sol e do ferro de engomar cheio de brasas, e que refolegava nas mãos como uma pequena maria-fumaça.

A vida dos simples era também muito simples. Talvez por isso os sambistas tenham ido buscar tão longe uma velha notícia da liberdade que aquelas mulheres aguadeiras e ganhadeiras compravam com o suor do seu trabalho e solidárias àquelas que não tinham como conquistar a alforria. Esses tempos, mesmo sombrios, não apagam o velho sol da liberdade que se hoje não brilha com a intensidade dos raios fúlgidos, resiste na boca do povo sambando na avenida. 

Quarar, pois, vem de corar, estendendo no ‘quaradouro’ - chão de cimento ou no varal - até que o sol fosse apagando a luz, a espera da noite. Levado por sua magia, fui lendo o samba-enredo e enxergando a genialidade dos poetas. A alegoria foi se ergendo do outro lado das palavras e então compreendi que os compositores da Viradourto têm razão: “Quem lava a roupa dessa gente veste ouro”. E vai com o perdão, por tratar de uma lembrança assim, tão pessoal.

AVISO - É pouco provável que o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves deixe o PDT no Estado e assuma outra sigla. Ele vai continuar a presidir o partido, hoje de oposição a Jair Bolsonaro.

MAS - Já o prefeito Álvaro Dias pode deixar o MDB, sua marca na vida política, se não tiver segurança no abrigo. Silencioso sempre, ninguém sabe até agora qual será seu novo destino.

ALIÁS - Carlos Eduardo e Álvaro Dias poderão formar o núcleo de posição ao PT que hoje tem o governo. E se o PT eleger o prefeito de Natal antecipa a dureza do combate em 2022.  

DÁDIVA - Já estão chegando desde antes do carnaval os umbus do sertão: aveludados, doces e entumecidos. Para as umbuzadas sertanejas e companhia indispensável de uma boa cachaça.

FILME - Já, já, voltam os falsos arquétipos em nome de instituições culturais e não culturais, alforriando tudo como se bastasse para retomar o progresso que não tem chegado há 400 anos. 

BOBICE -É mais uma tolice provinciana pensar que se alcança o futuro sem ter um passado. Estamos perdendo a guerra para nossos vizinhos e talvez já nos falte talento para competir.

AMEAÇA - Desta vez a ECT avisou por escrito: a partir do dia 13 de março será encerrado o convênio com o Banco do Brasil. A ideia seria já um passo para a privatização dos Correios.

NATAL - De Nino, filósofo melancólico, olhando o mundo a partir do Beco da Lama: “Natal vive de cascudólogos e cascudófilos. Uns são seus leitores. Os outros são apenas usuários”. 

MULHERES - A Casa do Cordel e a Fundação José Augusto dez cordéis homenageando dez mulheres do RN: Alzira Soriano, Amélia Machado, Celina Guimarães, Débora Seabra, Dona Militana, Joana Cacilda Bessa, Margarida Gondim, Maria do Céu Fernandes e Marise Paiva.

ONDE - O lançamento será na Casa do Cordel, na Rua Vigário Bartolomeu, trecho próximo à Praça Padre João Maria, dia 7 de março, às 8h30m, com presença dos seus autores e violeiros. A coleção deve lançar outros nomes na parceria de coedições com a Fundação José Augusto. 

AVISO - No jornalismo a simpatia às vezes vira moeda no comércio de trocas simbólicas e na pratica do tráfico de influência. Nesse negócio, o único lucro não é financeiro. E, às vezes, o escambo dilacera e até degrada, quando resvala no musgo pegajoso da relação interesseira.









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