O ouro dos restos

Publicação: 2020-10-24 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Outro dia, estava comprando revistas na banca das irmãs - elas muito católicas - ali na Xavier da Silveira, quando um senhor, de cabelos tão grisalhos quanto os meus, perguntou, para mostrar que sabia com quem estava falando, apesar deste rosto escondido na máscara: ‘Como vai Penélope?”. Sem esperar pela reposta, acrescentou: ‘Ela existe de verdade?”. E deixou que fugisse um sorriso discreto, suavemente filtrado no brilho dos olhos, do outro lado dos óculos. 

Olhe, Senhor Redator, se o rosto já estava escondido, confesso que escondi também a surpresa. Estava ali o único milagre dado a um cronista provinciano e sem glória que é ser lido com prazer. Veja, não é soberba: escrevo crônicas há quase quarenta anos nesse meio século de luta nas páginas soltas dos jornais. Posso garantir, sem medo: nenhuma aventura é mais nobre do que a satisfação de ser lido por quem você não conhece e nem sequer precisa dizer o nome.

Penélope é a gata malhada e de alma vadia que mora nos jardins da biblioteca. Dorme numa das cadeiras do alpendre, mas, de vez em quando, desaparece por alguns dias, para depois voltar. Não tem obrigação de viver ali. Muito menos exige agrados, como se não merecesse. É uma humilde personagem que, não tendo um destino mais glorioso, ainda assim passa suas noites em paz, evitando a visita indesejada dos roedores que ameaçam devorar velhos livros.

Respondi que Penélope existe e sei de suas qualidades. Não são falsas ou inventadas. Só adorno mais seu jeito simples de ser. Ainda ganhei o presente de ouvir que os morros ficam bonitos nas minhas crônicas, afinal transformo em notícia sua falsa tristeza de quando os ipês e sucupiras, desgrenhados, perdem as folhas, como agora, e preparam, tão silenciosamente, a primavera. Não nego, tem arremedos de licença poética que ouso usurpar da grande literatura. 

Penélope existe. Pode não ser apenas ela mesma, cingida à sua pobre carne e à sua alma sem raça nobre e sem fidalguia, sem dono do seu carinho. Seu mundo finda no limite do alcance da sua própria vida. E se de tudo resta um pouco, como no poema de Carlos Drummond de Andrade, Penélope tem também um pouco do que há de verdadeiro e humano em cada um de nós. Há no seu silêncio um pouco do silêncio que ficou da ausência das palavras nunca ditas.    

Do carro, ainda olhei aquele senhor. E como no poema de Manuel Bandeira, fiquei pensando, humildemente, não nas mulheres que amei, como no verso célebre. Pensando na vida dos cronistas. Como disse Rubem Braga, eles vivem dos restos do banquete literário, e nunca são convidados. Do que fica na toalha suja do jantar. De bicos de pão, nacos de carne, do arroz que caiu das alvas e nobres porcelanas. E talvez do resto do champanhe que ficou nas taças...  

SUCESSO - O livro de Paulo de Paula ‘Eu Sou, Eu Posso!, edição Gente, com organização de Iveraldo Guimarães, é o sétimo no ranking de ‘Veja’ e o mais vendido na Plubisnews. É a glória. 

MÉRITO - O advogado Marcos Dionísio, defensor dos Direitos Humanos, agora é Medalha de Mérito aprovada pela Assembleia Legislativa e por proposta do deputado Francisco, do PT.

ANOTEM - É cedo, muito cedo, ainda nem raiou a luta, mas anotem logo: o deputado Ezequiel Ferreira não é candidato ao Governo ou ao Senado. Vai reeleger-se para presidir a AL. Só e só. 

AMOR - A editora Elefante põe nas ruas ‘Ética no Amor Livre’. Na sua própria capa já avisa a quem interessar: um guia completo para ‘o poliamor, momentos abertos e liberdades afetivas’. 

VEJA - É um verdadeiro tratado livre, e informal, de como cada um, a seu gosto e prazer, deve exercer o que as autoras, Janet Hardy e Dossie Easton, chamam de ‘as habilidades libidinosas’. 

LIBIDO - Por falar em libido, vem de Pelotas, um livro inusitado e artesanal de 38 páginas, costuradas com um cordão: ‘Xoxotas de Pelotas’. Para quem nasceu lá em Macau faz até medo.  

ESTRELA - Dias 27 e 29 agora e 5 de novembro Mário Sergio Cortella é a atração da Jornada do Saber. Em Natal o grupo é representado pelo Cei. Inscrições na Bio, perfil Instagram do Cei.

SINAL - De Nino, filósofo melancólico do Beco da Lama, o furor do feminismo nesta aldeia de Felipe Camarão: “É mais fácil conquistar voto do povo do que o coração de uma feminista”.    

REGISTRO – É da jornalista Rejane Cardoso, de quem este cronista é marido, e com muito gosto, a ideia do livro ‘400 Nomes de Natal’. A então prefeita Wilma de Faria aprovou a ideia e autorizou, com apoio indispensável de Fernando Fernandes, então seu secretário dos 400 anos.

MARIA - Quando fez questão de incluir Maria de Oliveira Barros, Maria Boa, e que este ano faria um século de vida, sofreu uma defecção de um dos nomes convidados para a comissão. Rejane lamentou, mas resistiu. O livro ‘400 nomes de Natal’ não é feito de quatrocentas vestais.  

BOA - Foi a primeira publicação oficial a reconhecer Maria Boa como personalidade da cidade e que depois foi homenageada pela força aérea dos EUA pondo seu nome em avião. Deífilo Gurgel fez o verbete ilustrado com foto de Maria. E Wilma honrou o compromisso. O livro é histórico.









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