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O Papa Francisco renunciará?
Publicado: 00:00:00 - 30/11/2021 Atualizado: 00:18:21 - 30/11/2021
João Medeiros Filho
Padre

No próximo dia 17 de dezembro, Sua Santidade completará 85 anos, idade com a qual Bento XVI renunciou ao ministério petrino. O Sumo Pontífice reinante não dá sinais de que deixará de trabalhar. Não tira férias. No verão, apenas algumas de suas atividades são suspensas, permanecendo no Vaticano. Seus antecessores, durante o veraneio europeu, deslocavam-se para a residência pontifícia de Castel Gandolfo ou as montanhas, ao norte da Itália. Ao decidir reestruturar a Cúria Romana, Bergoglio tinha consciência de quão árdua seria a missão de reconfigurar a estrutura eclesiástica. Embora vários de seus colaboradores, oriundos de diversas nações, auxiliem-no nessa tarefa, recaem sobre ele as críticas dos descontentes (leigos e clérigos). Inúmeras são as incompreensões e tentativas de minar seu governo, muitas camufladas de “zelo religioso ou amor à Igreja”. Isso é inevitável. Faz parte da resistência a qualquer modificação profunda, civil ou eclesiástica. São históricas e rotineiras reações às mudanças dentro do catolicismo, apesar dos motivos que as impulsionem. João XXIII e Paulo VI que o digam. O atual Papa, não raro, sente-se isolado e sem apoio para realizar alterações pontuais. 

No século XI, Gregório VII lutou para romper com a estrutura eclesial, vigente desde os tempos de Constantino. Contra ela nenhum Pontífice, até então, se opusera. A chamada reforma gregoriana criou um modelo de organização eclesiástica, inspirada, não no império romano, mas referenciada na Igreja dos apóstolos. Do ponto de vista teológico, a ideia era recriar uma espécie de “Ecclesiae primitivae forma” (a igreja em sua forma primitiva). A reorganização da vida religiosa – a partir da Regra de Santo Agostinho – incluía uma melhor formação do clero. O fim do cesaropapismo e da simonia foram algumas das proposições do Papa Gregório. Os tempos eram diferentes. E, hoje, Francisco enfrenta outros tipos de desvios e erros. Seu desejo é fazer a Igreja voltar-se para as suas origens. Muito se empenha por uma instituição sem traços de nobreza e feudalismo, porém missionária, simples, sem luxo e pompa. Sonha com uma entidade aberta ao diálogo com o mundo plural, a exemplo do apóstolo Paulo, no Areópago de Atenas, pregando o “Deus desconhecido” (At 17, 23). O termo latino “reformatio” (reforma) utilizado frequentemente nos documentos pontifícios mais recentes, enfatiza o retorno às fontes. Bergoglio revela o desejo de mostrar a face verdadeira do cristianismo.

Poucos vaticanólogos acreditam que Francisco renunciará, em breve. Bento XVI segue bem, malgrado as limitações da idade. Ter dois papas aposentados, vivendo no Vaticano, seria inédito, podendo comprometer a instituição. Alguns eclesiásticos criticam Bento XVI, acusando-o de partilhar ideias, divergentes da tradição. Não seria diferente com Francisco. É fácil imaginar o constrangimento do sucessor do Pontífice argentino diante de grupos, digladiando-se em torno das ideias de dois papas eméritos. Sabe-se que Bergoglio nunca se opôs a uma eventual renúncia. Porém, só recorrerá a tal medida, se tiver a certeza de que a Igreja não será prejudicada com o seu gesto. Ele é um jesuíta ortodoxo, profundamente fiel à Igreja. Tem-se mostrado exímio conhecedor da história eclesiástica. É consciente de que uma autêntica reforma é trabalho em conjunto, podendo demorar anos. Talvez, não viva para ver a conclusão.

Portanto, deseja deixar os alicerces preparados para os sucessores levarem adiante a transformação empreendida. Com a publicação do ato da nova estrutura da Cúria Romana, em 8/12/21, dará mais um passo significativo em seu pontificado.

Não obstante sua dedicação e lucidez, o Santo Padre tem diminuído o ritmo de trabalho. O peso dos anos se faz sentir. Enquanto isso, seus oponentes começam a disseminar boatos de que o atual Pontífice não tem mais condições de governar. Mas, Sua Santidade não dá margem para que tais falácias prosperem. Ao deixar o Hospital Gemelli, em julho passado, voltou disposto, tomando decisões importantes, desde a alteração de cânones do Direito Canônico ao descredenciamento de obras que se desviam dos padrões evangélicos. Renunciar agora? Poucos creem nessa possibilidade. O tempo passa e Francisco segue vivendo a recomendação de Paulo ao discípulo Timóteo: “Proclama a Palavra. Insiste, quer agrade, quer desagrade.” (2Tm 4, 2).

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