O passado em ruínas da Atlântida do Sertão

Publicação: 2019-06-28 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Marco do passado pecuarista potiguar, a Casa do Barão e da Baronesa de Serra Branca, no município de São Rafael, está em estado deplorável e com sério risco de virar ruína, alerta um grupo de moradores da cidade. O bem, tombado pela Fundação José Augusto (FJA) em 2007, é o último elo visível que liga a “Atlântida do Sertão” ao seu passado mais remoto, já que a famosa torre da igreja de Nossa Senhora da Conceição – outro marco histórico da cidade, resquício da São Rafael de antes da Barragem Armando Ribeiro (1983) – desmoronou em 2010.

Sítio onde está o conjunto de casarões é ocupado com assentados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)
Sítio onde está o conjunto de casarões é ocupado com assentados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)

Quem está chamando atenção para o problema é a Associação dos Cidadãos Rafaelenses, grupo surgido em 2018 buscar resolver um problema crônico de falta de água no município, mas que desde então se buscado debater outros temas locais. Foi o grupo que foi ao local fazer fotos para denunciar o abandono da Casa do Barão. Segundo a assistente social Renata Oliveira, que integra a Associação, o alerta não é apenas para o Casarão, mas para todos os prédios da fazenda do Barão, cuja data de construção remete ao ano de 1880.

“O teto de alguns prédios desabou e a antiga senzala foi demolida. Além de que o lugar está servindo de curral. Estamos tentando chamar a atenção para essa situação porque o Casarão é um bem tombado. É um dos últimos monumentos da história do município e um pedaço importante da história do Estado”, diz Renata, em entrevista ao VIVER.

A associação postou fotos denunciando o caso nas redes sociais e o alcance a postagem a surpreendeu. “A gente viu que as pessoas estão preocupadas. Vamos pleitear com os responsáveis a restauração daquele espaço”.

Casa Grande foi tombada pelo Patrimônio Estadual, em 2007
Casa Grande foi tombada pelo Patrimônio Estadual, em 2007

De acordo com Renata, o sítio está ocupado por assentados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “Eles vivem no terreno da fazenda, fizeram suas casas lá sem ocupar o Casarão”, conta a assistente social. “O terreno foi desapropriado pela INCRA, o casarão foi tombado pela FJA, mas o local está em São Rafael e é muito importante para a memória da cidade. É preciso que seja feito um acordo para restaurar e conservar aquele espaço, seja a prefeitura ou o Estado”.

Renata comenta que apesar do estado precário do prédio, o lugar nunca deixou de receber visitantes. “Os moradores mais antigos da cidade tem lembranças daquele lugar. Não sei hoje, mas no meu tempo de escola os professores levavam os alunos para conhecer a história do lugar”, diz a integrante do movimento que pede a revitalização do espaço. Ela cita que estão apoiando o movimento vários professores, historiadores, artistas e turismólogos. “O passado da cidade não é tão debatido aqui. E talvez por isso não se vê muito um sentimento de pertencimento por parte dos moradores. São Rafael é uma cidade diferente, tem uma história única. A parte antiga ficou debaixo d'água por causa da barragem. Os mais antigo até falam em 'progresso que naufragou'”.

A associação de moradores reconhece que a restauração é importante, mas ela só não basta. E que nesse sentido é fundamental que a restauração venha acompanhada de políticas públicas para ativar o local. E uma das ideias é que se crie um museu para contar a história do Barão e da própria cidade.

O movimento encampado pela Associação dos Cidadãos Rafaelenses não é o primeiro. Esta TRIBUNA DO NORTE já havia feito matéria sobre a situação de abandono do Casarão do Barão há exatos 10 anos. E na ocasião existia também foi iniciada uma campanha para restauração do prédio.

Imagens postadas pela Associação dos Cidadãos Rafaelenses chama a atenção pelo estado crítico do casarão do Barão de Serra Branca. Marco do passado pecuarista foi construído com mão de obra escrava
Imagens postadas pela Associação dos Cidadãos Rafaelenses chama a atenção pelo estado crítico do casarão do Barão de Serra Branca. Marco do passado pecuarista foi construído com mão de obra escrava

O Barão
O Barão de Serra Branca se chamava Felipe Neri de Carvalho e Silva. Ele nasceu em Santana do Matos em 2 de maio de 1829 e morreu em 16 de julho de 1893, nos arredores de Caicó, quando retornava da sua visita à Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Filho de pequenos proprietários rurais, se tornou com o tempo um dos grandes pecuaristas do Estado, cujo rebanho era um dos maiores da região. Era também tocador de rabeca. Seu título de Barão foi comprado por 15 mil contos de réis, sendo concedido em 19 de agosto de 1888, pela princesa Isabel. Na série “Redescobrindo o Rio Grande do Norte”, publicada na TRIBUNA DO NORTE em 2009, o Barão de Serra Branca é lembrado por ter libertado seus escravos antes da Lei Áurea, em 30 de março de 1888.

A Baronesa
Felipe Neri foi casado com Belisária Wanderley, irmã do poeta Luiz Carlos Lins Wanderley, primeiro médico diplomado no RN e primeiro romancista do Estado, autor do livro “Mistérios de um homem rico", de meados de 1870. O casal não deixou descendentes diretos. A fazenda de Serra Branca foi construído por volta de 1880. Era a casa de campo do casal, que residia oficialmente em um belo sobrado na cidade de Assu.

Colaborou: Cinthia Lopes
(Editora )





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