O pavão

Publicação: 2020-10-22 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Como na frase célebre de José Bonifácio, eu de uma coisa só fico contente: de ver a figura do ‘intelectual conterrâneo’. Ninguém é tão decorativo nos feéricos dos jogos nos salões sociais. Principalmente, se vestido daquele falso jeito principesco de ser. E como gira, na arte da verônica, sua fantasia! Sem ele, qual seria a graça viver na província, isolado do resto do mundo, sem ter como fugir da mesmice que derrama sobre todas as coisas a resina de um travo tão melancólico?

E apresso-me em alertar a quem, por acaso, tenha poucos olhos para perceber quão rica é nossa bela fauna. Não todos, mas, na espécie, o ‘intelectual conterrâneo’, é formoso. Tem o tipo e o fenótipo inesquecíveis do prestidigitador a misturar alhos e bugalhos. Seu ofício não é a arte da palavra, mas seu uso, como adorno do ego. É jeitoso e falante, de afável habilidade, e assim vai enganando aos tolos, auferindo ganhos no balcão do ego e, por vezes, no ouro caro da fama.      

Para ele, o tal, literatura não é arte. É um artifício para agradar a si mesmo, se a vida exige ser vivida assim. E se por acaso pode ser escambo, é invencível. Há nele uma inteligência certeira que maneja a pobre literatice que na verdade faz e esconde do outro lado dos seus títulos que sabe ostentar, e com rara destreza. Só não é tão perfeito na dissimulação porque há sempre uns olhos curiosos, perdidos, diluídos nos olhos da plateia, a vê-lo até quando misturado à multidão. 

Quanto mais pobre de espírito o mundo provinciano, mais propício ao tal ‘intelectual conterrâneo’. Brilhar entre incultos é seu mister natural, certo de que é fácil falsificar a capa e a espada e ser um espadachim maneiroso e festivo no florete. Tem pouco, quase nada, a dizer, sabe que só o saber real bem serve ao bom comércio das palavras. Mas, para ele, basta manejá-las no escambo do falso brilho, se não denigre a alma e a carne e se é belo seu artifício enobrecedor. 

O ‘intelectual conterrâneo’ não lidera, chefia, ou consagra. Ele só consagra-se. É um bom perdigueiro a farejar a fraqueza da fauna. Maneiroso, sabe da falsa glória e a quem oferecer o naco de carne e o pedaço de pão que matam a fome de vaidade. Não quer a força do poder, mas a fortuna de distribuir a glória de araque, se ninguém é perfeito. De vez em quando, os olhos brilham e denunciam o cansaço de não ouvir o aplauso, viver longe da luz, coberto pelo silêncio.  

O vaidoso é exímio na conquista dos inolvidáveis encômios, gáudios e honrarias. Sabe vivê-los com lhaneza. Desde que suba ao palco e ocupe a tribuna, contanto que chegue à ribalta. Sabe que a vida intelectual é feita para bons atores no manejo da glória. Como se tivesse algo a dizer, é de generosa, risonha e ardilosa simpatia. Como é bom vê-lo, Senhor Redator, como se não fosse visto. É o pavão no seu tão belo pavoneio. Tão gentil! Tão sutil! Às vezes, tão servil! 

AVISO - Alguém, não se sabe quem, fez chegar ao Palácio do Planalto a notícia da representação contra a solução para a transposição das águas do São Francisco aqui para o Rio Grande do Norte. 

VALOR - O professor João Abner foi avisado. Não contesta a grandeza da obra, aponta o que diz ser ‘vício de concepção no tempo do Governo de FHC’. Há tempo de corrigir e pede o debate. 

RISCO - O enfrentamento da área jurídica de Álvaro Dias tem duas leituras: de um lado ocupa o tempo do delegado Sérgio Leocádio; mas do outro, pauta e confere relevo. Um risco calculado.  

PLANTÃO - As luzes de Cantópolis, quartel general do comandante Carlos Augusto Rosado, já não se apagam. A prefeita Rosalba Ciarlini ocupará as ruas de Mossoró em busca de mais votos. 

COMBATE - Velho conhecedor da geografia eleitoral mossoroense, Carlos já sabe que precisa elevar o teto e evitar a ultrapassagem de Alysson Bezerra que, se acontecer, pode ser irreversível.

DIA - Todo dia é o dia de alguém. Espera-se o dia que não seja de ninguém no feérico calendário dos ícones. São tantos e tão profusamente festejados que só falta o dia dos simples e anônimos.

MARIA - Está certo Cassiano Arruda Câmara: Maria de Oliveira Barros, ‘Maria Boa’, não pode ser esquecida no Museu da II Guerra. Até os pilotos norte-americanos já homenagearam. É justo.

ALIÁS - A concepção da ‘Nova História’ não abre mão de personagens que fazem a vida comum do tempo a ser narrado. Não gira só em torno de heróis e bandidos. Mas também dos seus hábitos 

FADIGA - O diagnóstico de uma possível onda a varrer Mossoró, e até ameaçar a reeleição de Rosalba Ciarlini, não basta para explicar o quadro de fragilidade da tradição. Tudo indica que na composição da receita tem uma fadiga de material. E, talvez por isso, o desejo coletivo de mudar.

FÉRTIL - Em política, existe a onda, mas se houver, latente, um desejo subliminar e coletivo.  Ninguém cresce junto ao grupo Rosado a não ser Rosado. Ora, quando uma hegemonia se torna absoluta brota reação na classe média que é crítica e numa Mossoró com várias Universidades.

PERFIL - A tradição não avaliou, com visão crítica, a perda de substância que se manifesta nas últimas campanhas, mesmo que neste momento ninguém possa garantir a derrota de Rosalba. A própria eleição de Alysson Bezerra, sem tradição político-familiar, foi um sinal. Queiram ou não.  










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