O pescador que foi a Cannes e gravou com Ney Matogrosso

Publicação: 2017-06-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O acaso move a vida do pescador Zé Maria. Num dia, ao voltar do mar em Baía Formosa, o jovem então com 18 anos avistou um aglomerado de pessoas na praia. Curioso, chegou junto para descobrir do que se tratava. Foi quando o preparador de elenco Sergio Penna (Bicho de Sete Cabeças, dentre outros filmes e novelas) bateu os olhos nele e disse: “você é o cara que eu estava procurando para o filme”. O filme era “Sonhos de Peixe”, mas na época, mesmo sem entender do que se tratava, mergulhou na história com o mesmo ímpeto desbravador que vinha se lançando ao mar. Esse mergulho foi dar em Cannes em 2006, onde o rapaz marcou presença no festival francês como protagonista do longa-metragem “Sonhos de Peixe”, do diretor russo Kirill Mikhanovsky. Depois da primeira experiência na sétima arte, outros convites para atuar vieram e atualmente ele está gravando seu quinto filme, na Paraíba.

Mas aí o acaso, de novo, empurrou Zé Maria para outra maré, a música. E apadrinhado por ninguém menos que Ney Matogrosso, o pescador acaba de gravar seu primeiro disco. Ney Matogrosso conheceu o trabalho de Zé Maria em um barzinho de Baía Formosa, onde além de pescador ator, é cantor e guia turístico. Ele o viu cantar e enxergou nele potencial.

Pescador José Maria Alves



“O Zé é uma pessoa muito diferente. Sua música é original. O fato de ser um pescador desperta curiosidade nas pessoas. Mas sua música não é regional. Seu disco é pop”, diz Ney em vídeo gravado durante a produção de “Pescador”, álbum de estreia de Zé Maria, cuja direção artística é do próprio Ney, com produção musical de Rodrigo Campello – produtor, dentre outros artistas, dos discos da potiguar Roberta Sá.



Zé Maria conheceu Ney em Baía Formosa quando o amigo cineasta Tavinho Teixeira o avisou que estava chegando na cidade com o cantor. Como, além de pescador e ator, Zé também se vira como guia turístico, Tavinho pediu para ele dar uns passeios na cidade com o Ney. “Convidei o Ney para ir na pousada em que trabalho, onde eu iria fazer uma apresentação. Cantei algumas canções conhecidas e composições minhas. Dias depois ele me ligou do Rio de Janeiro perguntando se eu estava afim de gravar um disco. Claro que topei. Ele me pediu os documentos e horas depois me mandou a cópia das passagens compradas”, lembra Zé Maria em conversa ao VIVER.



Foram 20 dias de gravação no Rio de Janeiro, sob os cuidados de Ney, que, além de ter emprestado sua voz para duas das 11 faixas do disco, contratou os músicos que formaram a banda no estúdio. Segundo Ney, os arranjos foram pensados a partir do trabalho voz e violão do Zé Maria. “Não inventamos nada. Tudo que fizemos estava embutido no violão dele”, disse o cantor mato-grossense.



No estúdio com Rodrigo Campello e Ney Matogrosso: letras com sabor de mar e arranjos para violão

No estúdio com Rodrigo Campello e Ney Matogrosso: letras com sabor de mar e arranjos para violão

As gravações foram em fevereiro deste ano. Agora no começo de junho o disco pronto chegou às mãos de Zé Maria para ser divulgado e comercializado. O potiguar vai começar a buscar lugares para se apresentar. Mas não pára por ai. A Som Livre se mostrou interessada no trabalho e no momento está em negociação a possibilidade do álbum entrar no catálogo da gravadora para lançamento nacional.

O cinema na vida do pescador 

Em Baía Formosa existia um único cinema, fechado no início dos anos 1990. Criança, Zé Maria chegou a ir no local uma vez. O filme era um faroeste. Foi nessa sessão, lembra, que um conhecido morador da cidade pegou o folclórico apelido de Zé da Moita. “Ele se levantou e correu do cinema com medo de levar um tiro quando um personagem apontou o revólver para o Zé da Moita do filme e a câmera mostrou a cena de frente. AS pessoas ainda se assustavam com imagens numa tela grande”, recorda.

Mas o que Zé Maria queria mesmo na época era ser pescador, seu sonho de menino. O pai, pedreiro, era contra. Preferia que seus quatro filhos estudassem para buscar um futuro com mais oportunidades na vida. Aos 14 anos, o garoto convenceu o pai de que concluiria os estudos enquanto pescava. Trato feito. Zé Maria saia para passar semanas em alto mar, mas no seu retorno caia no livros para recuperar os dias afastado.

Tudo corria dentro dos conformes até o cineasta russo  Kirill Mikhanovsky tirar uns dias de férias em Baía Formosa. De tanto observar a rotina da comunidade pesqueira, o russo escreveu o roteiro de “Sonhos de Peixe”. E foi na própria cidade, misturando no elenco os moradores e atores profissionais, como Chico Diaz, que ele filmou seu longa-metragem, em 2004.
“Foi uma experiência mágica para Baía Formosa. A maioria das pessoas nunca tinha ido ao cinema. De repente chega um gringo com caminhões de equipamentos para gravar um filme na cidade, com os moradores participando”, recorda Zé Maria, que foi escalado para o papel de Juscelino, pescador artesanal protagonista da história.

Não bastasse fazer um filme, Zé Maria foi convidado a prestigiar o lançamento do longa no Festival de Cannes. Foi a primeira vez que se viu em cena e a segunda que entrou num cinema. Deu entrevistas para a imprensa nacional e internacional, esteve ao lado das estrelas europeias e de Hollywood, mas não perdeu o jeito simples e sereno de ser. Em seu retorno a Baía Formosa, tratou de promover uma sessão do filme na praça, meio improvisada. “Era importante a população se ver em cena. Era a cidade que estava na tela”, diz o ator que ainda hoje é chamado de Juscilei por alguns na cidade. O DVD do filme ele tem apenas um, que guarda com carinho.

O gostinho de atuar ficou na boca de Zé Maria mais de cinco anos, até que em 2012 ele foi escalado para participar do longa “Nova Amsterdam”, do potiguar Edson Soares. O filme está pronto e chega aos cinemas do Brasil em setembro deste ano. Para este ano também estão previstas as estreias de outros filmes com Zé Maria no elenco. “O Clube dos Canibais”, rodado no Ceará e dirigido por Guto Parente; “Mar Verde, Terra Preta”, filmado em Pernambuco e dirigido por Renata Pinheiro e Sergio Pinheiro.
Atualmente Zé Maria está trabalhando em seu quinto filme, onde atua ao lado de Ney Matogrosso. O longa é dirigido por Tavinho Teixeira e está sendo rodado na Paraíba. “É um filme com muitos personagens, mistura comédia, cenas de sexo e de suspense. Tem inclusive o Toreba, potiguar lá de Sagi. Já fizemos algumas cenas e devemos voltar a filmar no final de junho”, conta.


Colaborou Cinthia Lopes


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