O poder das redes sociais

Publicação: 2014-01-12 00:00:00
Ponto/Contraponto

Nos últimos dois anos, grandes manifestações populares em prol da melhoria da qualidade de vida dos brasileiros foram desencadeadas. Grandes protestos ganharam às ruas do Brasil e de Natal em dimensão nada comuns por aqui. O que chama atenção é que a ferramenta central de toda essa mobilização, foram as redes sociais. Para opinar sobre esse poder das redes sociais a TRIBUNA DO NORTE convidou o advogado Daniel Alves Pessoa e o jornalista Tácito Costa. Para Daniel Pessoa, as redes sociais estão funcionando como “catalisador e facilitador da comunicação entre os sistemas”. A seu ver, elas “permitem que as demandas, situações e interesses veiculados pela sociedade possam abrir portas para serem debatidos e tratados nos sistemas”. Tácito Costa afirma que é inegável o poder das redes sociais. “Elas vieram para ficar, quer gostemos, estejamos conectados ou não. E diz mais: “A internet não é um bem ou um mal em si. Depende do uso que se faça dela”. Confira os artigos na íntegra:

“Uma grande praça pública” - Daniel Alves Pessoa - advogado
Daniel Alves Pessoa, advogado
Todo poder emana do povo, diz a Constituição. As redes sociais são instrumentos, meios ou ferramentas que propiciam a comunicação na sociedade, nos mais diversos segmentos de relações – interpessoal, familiar, institucionais, globais, etc.  Com a ampliação e barateamento do acesso à internet, bem como quanto aos avanços tecnológicos nessa área da conectividade, o povo percebe o uso das redes sociais para ajudar na manifestação de seu poder.

Ou seja, as redes sociais exercem forte papel nos sistemas da sociedade – político, jurídico, econômico, midiático, educacional.  Não é à toa que os poderes estatais, as empresas, instituições seculares e grande parte da população estão cadastrados e usam as redes sociais.

Não por menos, crescem cada dia os especialistas e os serviços em monitoramento, tratamento e assessoria acerca das redes sociais, contratados por corporações, empresas, figuras públicas, instituições e até países.  Inclusive, como denunciado para o mundo, os EUA invadem a privacidade das pessoas a partir das redes sociais – mande um olá pro Obama.

As redes sociais funcionam como catalisador e facilitador da comunicação entre os sistemas. Permitem que as demandas, situações e interesses veiculados pela sociedade possam abrir portas para serem debatidos e tratados nos sistemas. Também servem de veículo para expressão e formação de opiniões públicas, figurando até certo ponto como um termômetro para medir a temperatura de qual opinião pública pode se tornar mais ou menos hegemônica.

Pode-se dizer que a internet e as redes sociais estão se parecendo com uma grande praça pública, palco dos debates e da liberdade de opinião. Mostram-se, pois, como espaço dialógico das disputas ideológicas – os partidos e candidatos que o digam.  Afiguram-se como enorme canal para articulações, projeções e pressões de todo tipo.

Nessa perspectiva, as redes sociais representam um lugar de fluxo ininterrupto para dados, informações, imagens, opiniões, etc.  Traduzem-se num território de alta complexidade, cujo manancial tende ao infinito.

Desse modo, como todo meio, instrumento ou ferramenta, as redes sociais não servem apenas para construções positivas e para debates importantes, ou para bom humor, cultura e para satisfazer de modo saudável nosso voyerismo. 

Igualmente, podem ser usadas para destruições de imagens, fofocas, falsas notícias, falsas campanhas, falsos perfis ou avatares (fake), depreciações, e para ajudar no cometimento de crimes e imoralidades.  Essa possibilidade é traço do poder das redes sociais, já que o poder também pode ser medido pelo mal que pode causar.

Daí surge a questão dos critérios seletivos e dos filtros dos sistemas, pois nem tudo será selecionado para ser visto, debatido e tratado.  Então, quem seleciona enfraquecerá o poder das redes sociais, de certa maneira.  Mas, o tempo, o reflexo material da onda nas ruas e noutros espaços (amálgama), a adesão de figuras importantes, dentre outros fatores, podem dobrar quem seleciona – é um jogo muito dinâmico e complexo.

Natal oferece muitos exemplos concretos do uso das redes sociais para mobilizar pessoas para exercício do poder popular: #ForaMicarla, #RevoltadoBusão, dentre outros. Recentemente, em Natal, no episódio da Padaria Mercatto, vimos que a força das redes sociais gerou notícia nacional e também fez prevalecer a opinião pública gerada nelas (com base em informações das pessoas que presenciaram os fatos) por sobre as primeiras imagens que circularam – que mostravam muito mais o empresário de modo afobado e não mostravam a abordagem ao garçom.

Enfim, hoje em dia, ignorar o poder das redes sociais é um tremendo erro.

“Elas vieram para ficar” - Tácito Costa - jornalista
Tácito Costa - jornalista
As redes sociais ocupam hoje um papel central nas profundas mudanças social e política ocorridas no mundo. O Brasil, com mais de 90 milhões de pessoas conectadas, está inserido nesse contexto afetado pelo uso massivo das novas tecnologias. Elas vieram para ficar, quer gostemos, estejamos conectados ou não.

Cabe tudo nas redes sociais e este talvez seja o segredo do seu sucesso. Dos protestos iniciais contra o aumento das passagens de ônibus até o “contra tudo [ou quase tudo] que está aí”, que desaguaram nas ruas em junho de 2013, à revolta recente contra o desembargador que humilhou um garçom e policiais na padaria, ou a uma foto do dedão de uma moça no Facebook mostrando que está com um bicho de pé e a frase: “bicho de pé, quem já teve curte aí”.

Cabem debates de elevado nível, veiculação de informações e serviços importantes, mensagens edificantes e de autoajuda, narcisismos vários, ressentimentos, discutíveis cruzadas e linchamentos morais, do tipo “atire primeiro e pergunte depois”. Geralmente, o emocional assumindo o lugar da ponderação e do equilíbrio.

 No país que conta com apenas 2,5 mil salas de cinema, 5 mil bibliotecas públicas e cerca de 2,6 mil livrarias, a internet não é um bem ou um mal em si. Depende do uso que se faça dela, que em muitos casos já substituiu essas antigas plataformas de saber e conhecimento.

As redes mostraram sua força em países tão diferentes, como Estados Unidos (‘Occupy Wall Street’), Egito (derrubada do presidente Hosni Mubarak) e Brasil (manifestações a partir de junho do ano passado).

Por tudo isso, é inegável o poder que a internet detém hoje. Não à toa, países como Cuba, China e Coréia do Norte a mantém sob censura e estreita vigilância.

Em seu livro “Redes de indignação e esperança - Movimentos sociais na era da internet”, o sociólogo espanhol Manuel Castells, considerado um dos mais importantes teóricos atuais sobre comunicação virtual, explica o que levou os internautas a irem às ruas: “...foi basicamente a humilhação provocada pelo cinismo e pela arrogância das pessoas no poder, seja ele financeiro, político ou cultural, que uniram aqueles que transformaram medo em indignação, e indignação em esperança de uma humanidade melhor”.

As redes sociais abriram uma fenda na monolítica imprensa tradicional, que durante séculos monopolizou os canais de comunicação como alicerces de seu poder e dos seus interesses. Definitivamente, acabou o tempo da comunicação unidirecional. Um pouco antes da explosão das redes, os sites e blogs já tinham equilibrado esse jogo, oferecendo contraponto indispensável aos conglomerados da mídia e, com isso, fortalecendo a pluralidade e a democracia.

Meios de comunicação horizontais, sem mediações e espaço de autonomia, as redes sociais, como tudo, têm qualidades e defeitos e as avaliações sobre o seu uso e importância dividem pessoas e teóricos entre otimistas e pessimistas. As duas posturas desvinculam as redes da realidade social que as rodeia e, com isso, esquecem que as tecnologias são artefatos culturais e como tais é que devem ser estudadas.

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