O poeta e a poesia

Publicação: 2020-10-18 00:00:00
Berilo de Castro
[ médico e escritor ]

No dia 20 de outubro é comemorado o Dia Nacional do Poeta. Data fixada na XXX Conferência Geral da Unesco em 16 de novembro de 1999. No Brasil, no dia 20 de outubro de 1976, em São Paulo, surgia o Movimento Poético Nacional, na casa do jornalista, romancista, advogado e pintor brasileiro Paulo Menotti Del Picchia.  Em 2010, o poeta Nei Leandro de Castro publicou pela Editora Sebo Vermelho de Abimael Silva o seu primeiro livro de crônicas: Rua da Estrela. Uma belíssima coletânea de crônicas selecionadas pelo seu sobrinho Marcello de Castro e orelhado pelo imortal Manoel Onofre Júnior, publicadas semanalmente na Tribuna do Norte.  Do livro, uma crônica: “A presença da Poesia” muito me fascinou pela ternura, pelo amor e pelo carinho do encontro do poeta com a sua amada poesia; e da amada poesia com o seu poeta em momento de tristeza e de angústia. A partir daí o amor se transborda de alegria, se multiplica de prazer e faz mudar por completo o pensamento do poeta que passa a amar desesperadamente a poesia-mulher diante das falésias desbotadas do anticrepúsculo e dos voos das gaivotas. Vale a pena reler essa bela crônica em homenagem aos poetas, no seu dia.

A presença da poesia

Numa tarde de solidão quase infinita, a poesia surgiu diante de mim, me pegou pela mão e saímos juntos. Levou-me correndo para as falésias manchadas com vermelho desbotado do anticrespúsculo, e eu percebi claramente que a poesia tinha corpo de mulher, ternura de mulher, magia de mulher. Beijou-me na boca, despiu-se e disse que queria ser amada não como usualmente se ama a poesia, mas como se ama uma mulher cheia de desejos.

A poesia tinha uma cabeleira escura, seios apontando para o infinito e os seus lábios tremiam. Começamos a trocar carícias e eu jamais poderia imaginar que a poesia fosse tão bela, tão deslumbrante, quando se despe totalmente. A poesia me lançou nardos e dardos de doçura, gemeu e os seus gemidos foram tão fortes que, a muitas léguas dali, um homem à beira do suicídio despertou para a vida e escreveu uma ode ao amor. À nossa volta, gaivotas ficaram tontas de ternura, ensaiaram voos acrobáticos e saudaram os amantes nas alvuras e alturas das falésias com seus gritos marinhos. Depois do crepúsculo, a noite demorou a chegar porque a tarde alcoviteira queria ver mais, ver mais. Na despedida depois de tantos embates, desses que ficam gravados na memória como tatuagens, a poesia me disse algo que me deixou preocupado, em alerta. “ Se você continuar preferindo ficar muito triste” – disse ela, num sussurro, numa doce advertência – “eu não o visito mais. Tristeza cansa, meu amado. E logo depois saiu dos meus braços e eu me vi no alto das falésias, a solidão mais maravilhosa que um ser humano pode conhecer. Oito gaivotas pousaram nos meus ombros, me acariciaram com os bicos indiscretos e em seguida levantaram voo, talvez à procura da poesia.

Três anos depois daquela visita, daquele amor sobre as falésias, a poesia voltou. Ela me encontrou sozinho e meio triste, num espetáculo noturno no Teatro Alberto Maranhão. Eu estava nos jardins do teatro e admirava a escultura Arte, de Mathurin Moreau. “Você continua se envolvendo com a tristeza” – ela me repreendeu –, “por isso nunca mais apareci”. E para me alegrar, passou a me jogar dardos e nardos de ternura, brincou de me excitar, fez juras de amor. Dessa vez, quem a pegou pela mão foi eu – e corremos para o motel mais próximo. A poesia não conhecia aquele ambiente, mas gostou da cama que rangia, das cortinas cafonas, do espelho que duplicava nossas carícias. Depois do amor, gritado e sussurrado, prometi não ser mais triste.

Nove meses depois, eu estava sozinho diante do computador. Vinha de leituras tristes e procurava escrever um verso que deflagrasse o poema. E eis que chega o verso inicial: “Imprime a marca dos teus pés / na solidão das falésias”. De plantão à espera de palavras, as horas se passaram e não ocorreu nada. Mas a poesia surgiu, sentou-se no meu colo e começou a escrever, demonstrando muita desenvoltura, Sim, a poesia dos tempos atuais entende tudo de computador. Ela completou o poema, que é uma descrição do nosso encontro no alto das falésias, com as gaivotas circulando em torno do nosso devaneio. Eu quis falar, quis gritar de alegria e espanto, mas a poesia pôs a mão sobre a minha boca. E disse com voz de carícia: “ Tenho pressa vou procurar ouro em cidades antigas, vou ao encontro de uma legião de Netunos”.