Quadrantes
O preço da glória
Publicado: 00:00:00 - 31/10/2021 Atualizado: 12:10:24 - 30/10/2021
Cláudio Emerenciano [Professor da UFRN]

A maior cegueira despoja o homem da sensibilidade, do atributo e da inesgotável capacidade para identificar a substância real do mundo e da vida. Submete a condição humana ao império do efêmero, do supérfluo, do superficial e do aparente. Atrela o viver ao ritmo das coisas inúteis, perecíveis, ocasionais e sem sentido. Tal qual o “cântico de sereias”, que iludiu Ulisses na “Odisseia” de Homero. Envolve o ser humano numa espiral contínua e sem fim de falsidades, mentiras e embustes. A percepção do real, do justo e do verdadeiro se perde. Sucumbe aos anti-valores da cobiça, do ódio, da violência, da inveja, da intriga, da morbidez e da maldade.   

O homem não pode ser servidor ou instrumento de mediocridade, mesquinharia, ganância, misérias, injustiças e motivações estritamente materiais. Essa é a consequência de sistemas políticos e econômicos incompatíveis com a ascensão espiritual, moral e cultural de cada homem. Há uma ética e uma moral universais, atemporais e transcendentais. Sempre em expansão e ascensão, apesar desse estigma de maldades que se alastram pelo mundo. Contemple-se o aprimoramento do homem em todos os aspectos desde a Idade da Pedra. Esse é o transcurso por toda a vertente dos tempos, sem cessar, ensejando-lhe crescente conhecimento de si mesmo e a identificação do seu lugar no universo. Ninguém fundamenta a visão de eternidade em atos e coisas que perpetuam a iniquidade e a desumanidade. A condição humana é também contraditória, frágil, trôpega, vacilante e insegura. E daí? A sua grandeza reside em cada pensamento e ação que a enobrecem. Em cada manifestação individual de solidariedade, de irmandade, de harmonia, de retidão, de paz, de justiça e de partilha de uns com os outros. Cada vez que se descortina no outro um habitat do próprio Deus e uma morada renovável de sentimentos, amplia-se a grandeza individual; então as contradições se exaurem e se apagam. Divisamos, mesmo ao longe, a paz ilimitada. Crescemos enfim. Porque essa é destinação da humanidade: ascender...

A consciência do sentido das coisas emerge do solitário ato de pensar, da escolha do rumo certo e da opção irrevogável pelo bem. A noção do bem emerge de Deus para o homem e volta para Deus pela prática do bem pelo homem. Nenhuma sociedade, nenhuma nação e nenhum povo sobrevivem indefinidamente, assumem seu lugar na História, sem buscar e praticar o bem. O sentido confere aos homens a substância do que é universal, transcendental e eterno. O vazio e a inutilidade nos cercam em todo o mundo. Decorrem da falta de densidade nas relações entre pessoas e nações. De algum tempo para cá, perde-se visão do que é simples, óbvio, natural e legítimo. Infelizmente há desconstrução de valores, crenças, ideais, sonhos e esperanças. Tudo quanto, em âmbito intemporal, nutriu e renovou utopias. A ação política, numa dimensão local, regional, nacional e internacional, destitui-se de grandeza. Perde substância. Deforma-se, avilta-se e se enxovalha. Substituíram o senso de dignidade e correção por um jogo entre “espertos”. Essa esperteza é objeto de exaltações, aplausos, estímulos e vivas. Em mesma insanidade com a qual romanos festejavam a matança dos mártires cristãos pelas feras no Circo Máximo. Ou as abjetas e infames demonstrações de histeria nos regimes autoritários do mundo inteiro. Ontem e hoje. Não bastaram as alucinações de milhares e milhares de alemães no “circo” de Nuremberg, onde Hitler incorporou no século XX a teatralidade e as mistificações de Nero, Calígula e Heliogábalo na Roma Antiga. Recentemente Hugo Chávez e Maduro iludiram os venezuelanos com a velha fórmula: “pão e circo”, demagogia, corrupção e tirania. Antevisão de Graham Greene em “Os Farsantes”.

Impõe-se entender que a corrupção na gestão pública é instrumento deliberado de erosão das instituições democráticas e representativas. A impunidade e a lentidão de Poder Judiciário em sentenciar os culpados alimentam e ampliam a crise de legitimidade institucional. É o caso do Brasil. A vertiginosa e incontrolável decomposição moral em quadros políticos estimula a desfaçatez, a hipocrisia, a leviandade, a felonia, a mentira, o cinismo, a intolerância e a prepotência. Absurdo dos absurdos: a ruína moral da nação também por atos ilegais, fanáticos e impatrióticos.   

O Cristo, em conversa com a samaritana, disse possuir a “Água Viva”, infinita, que dirime as sedes do mundo. Exortou a humanidade a desfrutar da verdadeira felicidade, exorcizando o que a impede de amar e ser feliz. Infundiu-lhe paz de espírito. Separou o joio do trigo. O preço da verdadeira glória, individual e coletiva, é a incessante busca da verdade e do bem. Vivemos tempos de crise. Tudo no mundo é atingido por uma erosão planetária de valores. Perdemos a fé? Crença em ideais? Compromisso irrestrito com a dignidade do ser humano? Não somente em termos materiais, visíveis e objetivos. Mas o direito de cada um pensar, querer, optar e sonhar. Respeito à individualidade. François Mauriac (Nobel da literatura), prefaciando “O Poder e a Glória” de Graham Greene, disse que o livro se dirigia “providencialmente à geração que um mundo louco sufoca”. Obra visionária. O autor era católico. Aborda tema traumático, também suscitado por outros escritores católicos: Somerset Maugham e Morris West. Há crise de fé em sacerdotes da Igreja Católica? Mas essa crise é de  católicos em todo mundo. Pois a Igreja é Universal, Santa e Pecadora. Cabe a cada um se reencontrar com o sentido e a dimensão da vida cristã. Amar e imitar o Cristo...  

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