Quadrantes
O quê somos?
Publicado: 00:00:00 - 10/10/2021 Atualizado: 14:54:58 - 09/10/2021
As circunstâncias da vida são intermináveis, incontroláveis e surpreendentes. A condição humana se afirma e se aprimora ao acolher ou desafiar os contrapontos que pontilham sua existência: a luz e as trevas, o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, o riso e a lágrima, a esperança e o desalento, a paz e a violência, a compreensão e a intolerância, o perdão e a vingança, a beleza e a feiura, a bondade e a maldade, a fé e a descrença, a verdade e a mentira, o saber e a ignorância, a probidade e a corrupção. Como se não bastasse, ainda a desafiam, indefinidamente, a partilha e o egoísmo, a humildade e a arrogância, a dignidade e a ignomínia, a sinceridade e a falsidade, a solidariedade e a mesquinharia. Mas a lista não tem fim. Prossegue numa espécie de espiral das opções e atitudes do ser humano. Cada nação enfeixa, ao longo do tempo, seus valores e caminhos existenciais. Há um entrelaçamento entre o sonhar, o querer e o fazer das gerações entre si. Esse legado é intemporal. Reside na alma de cada um. Assim as nações fazem e percorrem a História. A “weltanschauung” (visão do mundo e da vida peculiar numa sociedade) da nação brasileira é formada, portanto, por valores espirituais, éticos e morais sedimentados ao longo de sua história. Independentemente dos antagonismos manifestos nesse percurso.  Inclusive no presente, palco de uma erosão moral sem precedentes e desafios homéricos.  

A saudade é e não é permanente. Sempre pensei que esse sentimento fosse, invariavelmente, infindo. Insusceptível de erosão ou esquecimento. O curso da vida, experiências acumuladas ou inovadoras, percepções novas, que desabrocham como as flores, brotando de minúsculos botões de pétalas, enrolados pela natureza. Tudo torna o viver uma floração imprevisível e enigmática. Setuagenário, sinto-me, de algum tempo para cá, como uma espécie de pássaro fora do ninho. Perdido. Não reconheço ou não me identifico com a alma desse tempo. Nem tampouco me ajusto ao panorama ético e moral do Brasil nos dias de hoje. Entretanto, reconheço que o país real emerge do cotidiano de pessoas simples, sinceras, honradas, comprometidas com o bem e a felicidade uma das outras. É o brasileiro comum, herdeiro – ensinaram, entre outros, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Vianna Moog, Sérgio Buarque de Holanda, Oliveira Vianna, Paulo Prado, Raymundo Faoro, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Afonso Arinos, Monteiro Lobato, Darcy Ribeiro – dessa maneira de ser generosa, solidária, inconfundível e inimitável.

Os cronistas, no Brasil, exibiram o que realmente somos. Fernando Sabino, genuíno em estilo e visão de vida, dizia como gracejo  que “a crônica é um comentário leve e breve sobre algum fato do cotidiano”. Antônio Maria, genial, também da mesma geração, dizia, nos anos cinquenta, que “a crônica tem a duração de menos de um dia, e a página na qual é publicada é  até usada, no dia seguinte, como embrulho para enrolar peixe”. Desde os tempos de Machado de Assis, José de Alencar, Olavo Bilac, Lima Barreto e João do Rio, a crônica é uma fecunda e fabulosa criação literária brasileira. O grotesco, o ridículo, o burlesco, o satírico e o pitoresco da vida, a grandeza, as virtudes e as contradições dos brasileiros, fatos aparentemente insignificantes se avultam na crônica, revelando seu vínculo com as mais variadas, complexas e surpreendentes exteriorizações de nossa condição humana. Câmara Cascudo, outro grande cronista, estabeleceu uma espécie de “ponte de transição” entre João do Rio e os cronistas da geração de 40, que alargaram as fronteiras e os limites do gênero: Rubem Braga, José Lins do Rego, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Hélio Pellegrino, Otto Lara Rezende, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector. Cascudo e Darcy Ribeiro tinham razão: o que o país tem de melhor é o seu próprio povo. Nada o substituía, até então, em autenticidade, conciliação, tolerância e alegria de viver. Está em curso, infelizmente, um processo de decomposição moral e espiritual, que se contrapõe a tudo quanto tipifica esse povo e essa nação. Germina-se um cataclismo. Será? Privilégios malversações, fanatismos e ódios debocham da Justiça e da lei. Deflagram, sobretudo, ilegitimidade do sistema partidário, mantido em função de interesses espúrios e impatrióticos. Restabeleça-se a ética republicana ou ...?   

Há personagens típicos e expressivos de uma época. Exemplos do Conselheiro Acácio e Dâmaso, excepcionais referências em Portugal no século XIX e identificáveis ainda hoje. Ambos imortalizados por Eça de Queiroz. Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Nelson Rodrigues, criaram tipos  representativos da cena brasileira. Porém Balzac, na “Comédia Humana”, é a matriz inigualável, atemporal e universal na literatura. Não importam diferenças múltiplas entre as nações. O homem, disse Goethe, enquanto viver sonha e aspira: “Mais Luz”!

Ninguém questiona o declínio espiritual, cultural e moral do Brasil. Não examinemos suas causas, origens e motivos. Não é esse o momento. Mas, estimulado pela releitura de preciosas crônicas de Antônio Maria, busco caracterizar o personagem símbolo desse tempo, modelado pelas redes sociais e pela televisão. É medíocre, mesquinho, oportunista, solerte, falso, interesseiro, invejoso, desleal, hipócrita, desonesto, ingrato, mentiroso, cretino e pusilânime. Não fita ninguém de frente. Deprecia de quem sabe e de quem estudou. Sua vida e seus “êxitos” evidenciam o primado da esperteza e do jeitinho. Sua postura é infame e farisaica. Em regra geral é um mistificador. A televisão nas novelas o consagra e as redes sociais o estimulam. Enfim, cultivam esse anti-herói. Daí a saudade de outros tempos. Talvez, apesar de tudo, o homem de ontem sobreviva em cada um de nós. Haja esperança...

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